Quando a Loucura bater à sua porta

Publicado por TIAGO RODRIGUES PROBA em 7/4/2016

Uma breve reflexão sobre a loucura e o amor.

Talvez você acredite que a loucura nunca baterá a sua porta, ou possa admitir que algumas vezes ela te fez uma visita, porém deixou uma grande bagunça para você dar conta depois. Mas afinal, o que seria a loucura? Bom, esse é um tema controverso, por ter como fator mediador a sociedade.

É comum encontrar em alguma fontes o seguinte conceito para loucura: “condição da mente humana caracterizada por pensamentos considerados anormais pela sociedade. É o resultado de doença mental, quando não é classificada como a própria doença”.

Interessante notar que apesar de todos os conceitos e definições, sendo elas, cientificas ou não, empíricas ou não, fazem alusão a doença.

Então vem o grande questionamento: quem nunca teve a loucura batendo em sua porta? É muito amedrontador responder a essa questão de imediato, pois nosso ego usa de defesas para isso. Mas quando voltamos para dentro de nós, silenciosamente assumimos um dia ter tido contato com a loucura, muitas vezes de forma nem tão doentia como visto acima. Essa visitante que não avisa quando vai nos visitar, e quando chega, entra de forma inopinada, intempestiva e nos arrebata. Nos faz sentir menores, marginalizados e nos leva a divagar por pensamentos insólitos, os quais jamais poderíamos pensar um dia ter.

A loucura assusta, pelo simples fato de estar sutilmente esbarrando na sanidade, somos sãos enquanto a sociedade determinar os limites e somos loucos no momento em que deixarmos de atender a um ou alguns desses limites de forma moral sem sermos românticos.

Somos humanos, temos sentimentos, somos seres errantes repletos de carga emocional e padrões pré-determinados, temos a exigência dos padrões sociais tendo que ser corretos conosco mesmo e principalmente com o próximo, nunca podendo sucumbir ao erro e ao um deslize da sanidade, e ainda temos que saber amar incondicionalmente. Mas o que nós, meros mortais, doentes pelo pecado capital, não podermos jamais esquecer é que, loucura e amor são pares, assim como a loucura, o amor nos desequilibra, nos faz reféns de algo que não sabemos evidenciar enquanto homens, tudo se relativiza ao subjetivo. O amor tem os olhos da loucura, já ensinara o grande Zeus da mitologia grega, nesse ensaio feito por Hesíodo, essa relação entre amor e loucura foi contada da seguinte forma:

“Tempos atrás, viviam duas crianças, um menino e uma menina, que tinham entre quatro e cinco anos de idade. O menino chamava-se Amor e a menina, Loucura. O Amor sempre foi uma criança calma, doce e compreensiva. Já a Loucura era muito emotiva, passional e impulsiva. Entretanto, apesar de todas as diferenças, as crianças cresciam juntas, inseparáveis: brincando, brigando...

Houve um dia, porém, em que o Amor não estava muito bem, e acabou cedendo às provocações de Loucura, com a qual teve uma discussão muito feia. Ela não deixava nada barato; estava furiosa como nunca com o Amor, e começou a agredi-lo, não só verbalmente, como de costume.

A Loucura estava tão descontrolada que agrediu o Amor fisicamente e, antes que pudesse perceber, arrancou os seus olhos.

O Amor, sem saber o que fazer, chorando, foi contar à sua mãe, a deusa Afrodite, o que havia ocorrido. Inconsolada, Afrodite implorou a Zeus que ajudasse seu filho e que castigasse Loucura. Zeus, por sua vez, ordenou que chamassem a Loucura para uma séria conversa.

Ao ser interrogada, a Loucura respondeu, como se estivesse com a razão, que o Amor havia lhe aborrecido e que foi merecido tudo o que aconteceu. Embora soubesse que não fora justa com seu amigo, a Loucura - que nunca soube se desculpar - concluiu dizendo que a culpa havia sido do Amor, e que não estava nem um pouco arrependida. Zeus, perplexo com a aparente frieza daquela criança, disse que nada poderia fazer para devolver a visão ao Amor, mas ordenou que Loucura estaria condenada a guiá-lo por toda a eternidade, estando sempre junto ao Amor em cada passo que este desse. E até hoje eles caminham juntos”.

E daí se originou o velho ditado: “o amor é cego”.

Eu acrescentaria: “o amor é cego e a loucura é sua melhor companhia, sem a loucura o amor se perde e sem o amor a loucura se torna solitária e sem sentido”.

Assim, quando a loucura bater a sua porta, deixa-a entrar, converse com ela, entenda o motivo pelo qual ela te visitou, mas lembre-se de nunca ignora-la, pois ela nunca estará sozinha, estará sempre com seu nobre cavalheiro amor.

E para terminar peço licença o grande poeta da loucura Friedrich Nietzsche que teceu o seguinte: “Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura”.