O HOTEL DA LOUCURA CORRE PERIGO

Publicado por Vitor Pordeus em 17/5/2016

crônica perfeita do Grande MEstre Edmar Oliveira, médico psiquiatra, escritor e ex-diretor do Nise da Silveira.

por Edmar Oliveira, médico psiquiatra, escritor, e ex-diretor do Instituto Municipal Nise da Silveira, Rio de Janeiro.

Quando meu trabalho estava se tornando impossível no Engenho de Dentro, Vitor Por Deus começava o seu. O meu era institucional, ter que dirigir um hospício quase centenário, desejando mudanças impedidas pela burocracia cega e burra. O dele era uma “ocupação” de espaços manicomiais – sem interferências burocráticas – que resultaria no festejado Hotel da Loucura e num magnífico trabalho artístico que anarquizou (no melhor sentido) a relação da loucura com a brutalidade da ordem manicomial.

O meu trabalho foi bem sucedido na “travessia” – o que resultou na apropriação de histórias de vidas que foram desenterradas nas páginas do meu “Ouvindo Vozes”. Mas fui derrotado pela máquina burocrática que não nos deixou chegar à outra margem. Mesmo por isso, a insistência do trabalho do Por Deus e seus artistas era um alento e representava a resistência que ecoava nas frias paredes do hospício gritos de que a Nise ainda vivia! O Hotel da Loucura se tornou um ponto de encontro dos artistas e curiosos com a loucura libertada das amarras manicomiais. E foi pras ruas da cidade, de outras cidades, do país e conquistou o mundo. Vitor se doutorava para melhor ser reconhecido, mas acompanhava e injetava vida e ânimo no seu hotel e nas liberdades dos habitantes do hospício.

Posso afirmar que o seu sucesso foi compensatório ao nosso projeto que não se completou. Acompanhei o barulho que o Vitor fazia com seus artistas. Não posso esquecer que, como ele tinha uma boa relação com o secretário de então, tentou intermediar uma continuidade do processo que os ocupantes da saúde mental da época não souberam (ou quiseram) acolher. Agradeci, mas estava decidido a ir embora. Sabia – como escrevi – que a “travessia” justificava o esforço. Não alcançaria a outra margem para acabar com o hospício – que era a nossa manifesta intenção. Por isso me alegrava ter deixado o Hotel da Loucura no manicômio que não conseguimos acabar. Vitor Por Deus saberia não deixar o dragão adormecer e esquecer daquelas vidas que poderiam ser soterradas novamente. Com alegria e a emoção do choro acompanhei a carreira artística de Reginaldo. O trabalho de Vitor lhe dera a perna que lhe faltava. E ele brilhantemente se tornou um ator completo. Choro em lembrar. E era só um mero exemplo. Outro, o Fausto de Nilo Sérgio.

Pois bem, nosso menino autoritário – o secretário que foi ascendido ao cargo pelo anterior – resolveu que o trabalho do Vitor não era bom, ou sei lá o que mais pensou, nem as razões que teve – ou teria – para dispensar nosso doutor artista do seu trabalho. Como os autoritários não discutem suas razões, o secretário demitiu Por Deus sem a menor satisfação. E o Hotel da Loucura está de luto pelo afastamento brusco do seu criador. E tememos todos pelo futuro da Loucura, que não tendo o hotel onde se hospedar, pode novamente ser soterrada nos porões das enfermarias manicomiais.

É preciso que o secretário saiba que um trabalho público não pode ser acabado por uma birra pessoal ou de julgamento sem prestação de contas à rede de saúde. É certo que a secretaria de saúde privatizou os serviços das Clínicas da Família e dos CAPSs pela OSs – essas Organizações Sociais, que se dizem sem fins lucrativos, mas com planilhas fora das vistas do controle social. Ele pode estar em consonância com o novo ministro da saúde do governo federal ilegítimo que quer acabar com o SUS. Mas nós – antigos servidores públicos em extinção – queremos saber porque ele demitiu o criador do Hotel da Loucura.

E resistiremos à toda ameaça ao SUS. E não aceitamos que na véspera da comemoração do Dia da Luta Antimanicomial sejamos atacados dessa forma.