Para onde vai a sanidade psíquica do Brasil? Para onde vai a política nacional de saúde mental?

Publicado por Vitor Pordeus em 12/5/2016

O manicômio de nosso tempo é químico, a utilização excessiva de drogas psicotrópicas é uma das grandes emergências de saúde pública que estamos enfrentando.

Para onde vai a sanidade psíquica do Brasil? Para onde vai a política nacional de saúde mental?(Vitor Pordeus)

Vitória política do movimento nacional de saúde mental, afinal, o coordenador de passado manicomial foi exonerado.Segundo a Agência Brasil atualmente ainda temos 25 mil leitos de internação psiquiátrica no Brasil, dos 86 mil leitos em 1991 no início da reforma psiquiátrica brasileira. Imensa redução graças ao trabalho dos profissionais de saúde brasileiros comprometidos e politicamente engajados.

E temo imensos desafios para a produção de uma política que seja capaz de responder e superar essa imensa crise de saúde mental que atravessamos mundialmente. Em nosso caso, se fizermos uma reflexão mais profunda sobre nossa história poderemos ver que nosso Brasil nasceu sob o signo da doença mental, sob o signo da violência, do fanatismo, do desejo de dominar e controlar o outro e a natureza. Nós brasileiros nos fizemos sob a opressão doentia e patogênica de um sistema colonial que persiste até nossos dias, basta olhar o perfil de velha colônia agropecuária, que exporta soja, ferro e carne bovina. Temos 203 milhões de indivíduos, centenas de universidades mas não soubemos inventar nossa ciência e tecnologia próprios, somos totalmente dependentes de tecnologia estrangeira até hoje, 2016. O sistema internacional da dívida pública drena aproximadamente 45% do orçamento público anual para pagar juros de uma divida que nem sabemos direito o que é (vejam a Prof. Maria Lucia Fattorelli no youtube). Sabemos que isso é a velha colonização científica, educacional, ideológica cultural que produz essa hecatombe política que estamos vivendo, com as elites colonizadoras capitalistas divididas em desenvolvimentistas de um lado e neo-liberais do outro tentando se destruir para dominar o Brasil e o mundo.

Serão estes contextos importantes para a saúde mental do brasileiro? Temos razões científicas para crer que sim, pois o resultado de controle cultural é avassalador e o debate da saúde mental é o debate da cultura, das práticas culturais e simbólicas de cada brasileiro e suas comunidades. Estarão essas práticas culturais e simbólicas promovendo a saúde mental? Ou promovem a doença mental regadas a marketing farmacêutico e a venda de balas mágicas que prometem consertar a máquina do cérebro quebrada? Levando a lucros recordes e consumo recorde de psicotrópicos na história humana. Com o epicentro desta cultura industrial medicamentosa, os Estados Unidos, alcançar um pico recorde de overdoses de drogas psicotrópicas legais e ilegais em 2014/2015, fazendo vítimas famosas como o cantor Prince. O manicômio de nosso tempo é químico, a utilização excessiva de drogas psicotrópicas é uma das grandes emergências de saúde pública que estamos enfrentando. No Quebec no Canadá, o Eletrochoque subiu 60% nos últimos cinco anos, não será essa uma tendência mundial?

Resta, ainda, a construção efetiva de uma política de saúde mental através de métodos terapêuticos eficientes. Graças a experiência arte-científica continuada de 70 anos do Museu de Imagens do Inconsciente da Dra. Nise da Silveira, os 28 anos do Espaço Aberto do Dr. Lula Wanderley ao Tempo e aos 7 anos de trabalho com teatro de nosso próprio grupo, e muitas outras experiências bem sucedidas no Brasil e mundo da psiquiatria cultural a fora, podemos anunciar que uma política de promoção da saúde mental tem nome e sobrenome: Nise da Silveira. O desafio para nós brasileiros é conhecer a nós próprios, os valores de nossos cientistas, de nossos métodos, de nossa melhor criatividade, para curar a nós próprios. Parece que o desafio da política de saúde mental vai por aí, conforme demonstra a experiência. Primeiro saúde mental. #primeirosaudemental