Reflexões no con-texto-planetário.

Publicado por Alexandre Magno Jardim Pimenta em 23/6/2016

Ensaio filosófico: Reflexões no contexto planetário.


Brasil, Franca (Sp), 20/05/2016.

Multiversidad Mundo Real
(México)

Maestría en Pensamiento Complejo – Ciencias de la Educación

Por: Alexandre Magno Jardim Pimenta.

O CONTEXTO-COMPLEXO PLANETÁRIO


“Unidade que gera a multiplicidade que regenera novamente a unidade (unidade genérica/unitas multiplex)" Edgar Morin.

“[...] hoje, está esboçada, por três lados (planetário, técnico e biológico, uma metamorfose que altera a relação trinitária indivíduo-sociedade-espécie; não sabemos se daí resultará um aborto, um monstro ou um novo nascimento” Edgar Morin.

Atualmente vivemos em grande parte do planeta e cada vez mais, em mundos biológicos-culturais que um observador pode dizer que são altamente “complexos”, fazendo referência à riqueza (diversidade) das inter-relações entre os elementos que distingue como componentes de um sistema, mas, alguém também pode dizer que são complexos, não querendo e fazendo referência à diversidade dos elementos que distingue como componentes de um sistema e suas inter-relações, mas sim, fazendo referência à uma imprevisão potencial, não calculável a priori dos comportamentos deste sistema, vinculando à recursividade que afeta o funcionamento de seus componentes suscitando fenômenos de aparição inteligíveis mas não previsíveis4 e também aceitando a priori (de acordo com suas preferências/emoções/desejos) um paradigma complexo, como, por exemplo, Edgar Morin, que, de acordo com seu pensamento escrito, ao menos a partir de 1977, passa a garantir para adiante (paradigma complexo) um contexto conceitual no qual podemos desenvolver exercícios de modelação dos fenômenos que percebermos complexos, desde nossa mirada ou ponto de vista, tratando-se neste caso de uma complexidade à uma só vez organizada e, recursivamente organizadora:

Como o tecido (complexus = o que está tecido junto, com elementos heterogêneos inseparavelmente associados que apresentam a relação paradoxal entre o uno e o múltiplo) – ecológico-cultural-civilizacional-comunicacional-social-religioso-político-econômico-tecnológico-intelectual-ideológico-ético – que hoje acrescenta-se ao e envolve, planetariamente, o antigo substrato bio-antropológico que constitui a unidade da espécie humana, como dizem Morin e Anne Brigitte Kern em Terra-Pátria (2003, p. 42). O que vem ocorrendo intensamente desde os inícios (finais do séc. XV) do período histórico que estamos vivenciando e que podemos chamar de era planetária, em suas revoluções e transformações, com suas rupturas e mudanças, contrações e convulsões, desorganizações e reorganizações cada vez mais velozes e, que alteram em muito as relações humanas (indivíduo-sociedade-espécie) e as relações dos seres humanos com o entorno natural que sentimos nos envolve e faz nossa vida possível.


“A espécie humana doravante nos aparece como humanidade. Doravante a humanidade e o planeta podem se revelar em sua unidade, não apenas física e biosférica, mas também histórica: a da era planetária” (Morin, Kern, 2003, p. 42).

Sendo assim, hoje e como nunca dantes a partir da segunda metade do séc. XX e final, reconhece-se que temos, enquanto humanidade – entidade planetária e biosférica – um destino-comum, ou seja, uma comunidade de destino da humanidade, o que é próprio, dizem Morin e Kern (ibidem, p. 63), da era planetária, quando esta deve se inscrever na comunidade de destino terrestre. Esse reconhecimento e essa inscrição, contudo, dependem de uma consciência planetária que ligue os humanos entre si e à natureza terrestre (ibidem, p. 163).

“O futuro preparado pelo século XXI certamente não é radioso, mas poderia ser bem menos sombrio. Deixa imaginar um renascimento, ou a regressão, talvez mesmo a morte, da humanidade. Permite vislumbrar um desabrochar da humanidade, uma perversão da humanidade e, se uma catástrofe for provocada pelos seres humanos, o fracasso da aventura humana. Se as forças de aniquilamento forem recalcadas, o futuro planetário poderá conservar, ou agravar, os piores aspectos da história humana, como também desenvolver os melhores”, diz Morin em O Método 5 (A humanidade da humanidade, 2012, p. 254).

O que queremos seguir conservando para seguir desenvolvendo – quais aspectos do desenvolvimento planetário e evolutivo humano? –, pois, é ao redor do que seguirmos fazendo e conservando que tudo o mais irá se transformar8. Como dizem Humberto Maturana Romesín e Ximena Dávila Yáñez em Habitar Humano em Seis Ensaios de Biologia-Cultural (2009, p. 128), “o mundo que vivemos se transforma em torno do viver que conservamos; muda o viver que conservamos, muda o mundo que vivemos”.

[Nota: 8 “Cada vez que num conjunto de elementos começam a se conservar certas relações, abre-se espaço para que tudo mude em torno das relações que se conservam” (Lei sistêmica # 8 conservação e mudança, p. 127)]

Para Morin e Kern (2003, p. 43), auscultando desde o final do séc. XX, quando, mais radicalmente que no final do séc. XV europeu Ocidental, as ideias sobre a natureza do universo, sobre a natureza da Terra, sobre a natureza da vida e sobre a própria natureza do homem, que mais uma vez pareciam as mais certas, são subvertidas a partir dos progressos técnicos/tecnológicos e científicos concomitantemente em várias ciências – da Terra, da biologia, da paleontologia –, se dá a emergência de uma consciência planetária e ela emerge simultaneamente ao aparecimento de realidades ignoradas de nosso destino humano-planetário-terrestre (ibidem, p. 63). Tais realidades ignoradas até então, concernentes ao nosso destino dizem respeito à nossa perdição no âmbito cósmico, à solidão da vida no sistema solar e na galáxia, ao reconhecimento da Terra, da vida, do homem, da consciência como frutos de uma aventura singular e, à comunidade de destino-comum. É da tomada de consciência destes fatos e das nossas circunstâncias, que o afazer científico contemporâneo proporciona, enquanto entidade planetária e biosférica, que nos aparece em toda a sua profundidade, amplitude e atualidade, o que os autores chamam de “comunidade de destino terrestre” (ibidem, p. 178).


Contudo, em verdade, estes são os últimos avanços, atuais, contemporâneos, desta consciência planetária, pois que ela pode ser rastreada desde os inícios da era planetária, já que no próprio processo de ocidentalização surge a autocrítica do Ocidente e as ideias universalistas do humanismo europeu, como diz Morin (2012, p. 231), que questionaram progressivamente os alicerces religiosos e culturais da sua própria dominação, o que se intensificará e ampliará a partir do séc. XIX. Estes mais recentes avanços suscitados, como vimos acima, pelos últimos progressos científicos radicalmente subversivos que ocorreram, vão esboçando a consciência planetária, o que vai sendo realizado por toda a segunda metade/final do séc. XX, o que pode ser, em seus traços gerais, reconhecido, de acordo com os autores de Terra-Pátria (2003, p. 36-42), em todo o engajamento suscitado diante da ameaça de destruição da humanidade pelo poder nuclear, por todo o movimento entorno de uma ação ecológica planetária e com isso um novo olhar diante de toda a bio-sócio-diversidade da unidade antroposfera-biosfera, pelo desenvolvimento da mundialização civilizacional e cultural e a formação de um folclore planetário, pela tele-participação planetária, pela aventura e viagens terrenas e extraterrenas por meio das quais concretiza-se nosso sentimento de que há uma entidade planetária à qual pertencemos, bem como o surgimento do que agora, mais do que nunca e cada vez mais, podemos chamar de humanidade.

“Migrações e mestiçagens, produtoras de novas sociedades poli-étnicas, policulturais, parecem anunciar a Pátria comum a todos os humanos. Entretanto, nas formidáveis misturas de populações, há mais justaposição e hierarquização do que integração verdadeira; no encontro das culturas, a incompreensão ainda prevalece sobre a compreensão; através das osmoses, as forças de rejeição permanecem muito fortes. A mundialidade aumenta, mas o mundialismo ainda mal desperta. A humanidade comunicante permanece uma humanidade em patchwork [colcha de retalhos]. A unidade intersolidária do planeta não se tornou uma unidade de sociedade (das nações) [...] Pelo contrário: assim como na primeira metade do século XX a interdependência planetária se manifestou por duas grandes guerras mundiais, os processos de planetarização, na atualidade, se manifestam por convulsões agônicas” (Morin e Kern, 2003, p. 42).

Para os autores que viemos citando, à luz dos fatos que os progressos científicos em questão mostraram ultimamente, as realidades que eles suscitaram e levando em conta as tomadas de consciência em torno dos problemas e ameaças comuns de vida e morte da humanidade, o processo de conscientização planetária funda-se, tal qual a solidariedade humana, na consciência de nosso destino-comum de perdição e não em qualquer ilusão de “salvação terrestre”, destino este com-partilhado por todos os humanos vivos atualmente, estejamos conscientes disso, sensíveis a isso ou não, justamente porque todos nós vivemos no jardim-comum, habitamos a casa-comum à humanidade, mesmo que ainda não con-vivamos na Terra-Pátria-comum enquanto sociedade-mundo. Para isso é preciso a tomada de consciência no sentimento de pertencimento ao contexto-complexo planetário comum – aquele que apontávamos na abertura deste texto, tecido na e pela era planetária – e das circunstâncias complexas da nossa situação agônica neste nosso começo de milênio (2003, p. 178).

“A tomada de consciência da comunidade de destino terrestre deve ser o acontecimento chave do milênio: somos solidários desse planeta, nossa vida está ligada à sua vida. Devemos arrumá-lo ou morrer. Assumir a cidadania terrestre é assumir nossa comunidade de destino” (ibidem).

A depender do que queiramos daqui em diante seguir conservando e desenvolvendo, o nosso presente clarobscuro pode espontaneamente alterar o futuro preparado pelo séc. XXI até aqui e torna-lo muito menos sombrio. Dentre a possibilidade de regressão e perversão e até mesmo aniquilamento da humanidade, de uma catástrofe disparada por nós mesmos e nosso consequente fracasso, podemos nos orientar, como diz Morin (2012, p. 254), para a constituição de uma sociedade-mundo, constituída em comunidade na Terra-Pátria, na dedicação cooperativa e na responsabilidade justa e responsavelmente compartilhada de civilizar as relações entre seres humanos e de diminuir a crueldade no mundo; o que é seguir conservando e desenvolvendo os melhores aspectos da história humana.

“?Queremos, en verdad, hacer todo lo que podemos hacer o podríamos imaginar hacer?

?De qué depende que escojamos hacer o no hacer lo que podemos hacer?

?De qué depende que queramos vivir un mundo ético o un mundo no ético?”9

“?Cómo estamos haciendo hoy nuestro vivir y convivir multidimensional?

?Me gusta? ?No me gusta?”10

(Perguntas bioéticas fundamentais)


[9 (Humberto Maturana e Ximena Dávila, El Árbol Del Vivir, 2015, p. 72)

10 (Maturana, H., Yáñez, X., 2015, p. 68)]

Ora, como tudo isso nos impacta vivendo atualmente em nossas comunidades humanas, cotidianamente, sejam elas locais-regionais-nacionais-continentais-globais, nos sistemas sociais e não-sociais em que habitamos, nas organizações produtivas ou não-produtivas em que atuamos e trabalhamos, mas também em relação ao entorno não-humano, o entorno natural? Como tudo isso impacta nossas vidas, nosso ser individual e social, nossa consciência individual, social e ecológica, de seres vivos animais linguajantes e, também a nosso ver, sentir e pensar, desde nosso viver e conviver falando, fundamentalmente amorosos? Como mostra, por exemplo, o biólogo chileno Humberto Maturana em suas reflexões filosóficas, científico-biológicas, enquanto biólogo-cultural, sobre o viver e o ser humano. Como conservar uma relação harmônica entre antroposfera-biosfera? Como gerar e conservar uma coexistência de destino-comum em tempos planetários? Como atuar e agir diante de todas as cegueiras, alienações, fanatismos de todo tipo que hoje em dia se alastram? Em tempos pós-modernos, vividos na psique da tentação da onipotência e da certeza, como dizem Maturana e Dávila (2009, p. 43), quando se sente e se crê que se pode fazer tudo o que podemos fazer ou imaginar na manipulação do entorno natural, não-vivo ou vivo, humano ou não-humano, não obstante as consequências, quando tem-se como princípio de ação a inovação em homenagem a qualquer coisa que chamamos Progresso, a inovação e a conquista dos resultados que se deseja mediante qualquer custo, seja para os seres humanos em particular ou para os seres vivos em geral. Como abrir uma via para a humanização das relações humanas na era planetária?

I. Da complexidade

São apenas algumas das muitas perguntas fundamentais que hoje fazemo-nos ou precisamos nos fazer – se estamos atentos às nossas circunstâncias –, a partir da nossa vivência cotidiana, nos âmbitos em que vivemos, do pensar e do atuar, abstrato ou concreto, teórico ou prático, espiritual e material, produtivos ou não-produtivos, sejam eles domésticos, tecnológicos, políticos, científicos, filosóficos ou artísticos, educacionais, religiosos ou místicos. Conscientes que estamos da nossa humana multidimensionalidade e hipercomplexidade, buscando respostas para estas muitas perguntas, partimos para escrever este ensaio desde um “conflito cognitivo” e da nossa própria história vital enquanto um ser humano vivente, hoje, que pode sentir-pensar, desde terras brasileiras, do sul do mundo – como é o caso de quem assina essas páginas –, hoje com 30 anos de idade, no entrelaçamento do poético e do prosaico de sua cotidianeidade, a beleza e a harmonia no fluir biosférico, em seu presente cambiante contínuo, sem finalidade ou objetivo, além de toda a apropriação e poluição imposta à biosfera, mas também em relação com a antroposfera, as grandes convulsões agônicas (locais e globais) que ocorrem atualmente no parto ou aborto – não sabemos –, como diz Morin, na possível metamorfose da humanidade. Neste ensaio buscamos então, em congruência com nosso presente e tendo em vista tudo o que vimos até aqui, situar tudo no contexto-complexo planetário de nossa atual era da humanidade, ou em outras palavras e acrescentando, buscaremos ver o mundo e o ser humano como unidade na diversidade, assim como propõe a noção de complexidade desenvolvida por Morin.


Como dizem os autores de Terra-Pátria: “A era planetária requer que tudo seja situado no contexto planetário” (2003, p. 152).

Para tal, aparece como necessidade primeira, como mostra Morin, por exemplo, em seus escritos sobre educação – aqui nos atemos particularmente ao livro Os Sete Saberes Necessários À Educação do Futuro –, o conhecimento do conhecimento, até porque, um mínimo de conhecimento do que é o conhecimento, como dizem Morin e Kern (2003, p. 151), nos ensina que o mais importante é a contextualização. Só este mínimo, concernente à uma compreensão da natureza do fenômeno do conhecer, sabendo que se sabe que o mais importante é a contextualização (que é ao que tende o desenvolvimento cognitivo), já pode nos tirar de uma profunda cegueira diante do que seja a natureza de um conhecimento pertinente. De modo que, assim, podemos nos liberar, sendo o caso, do dogma reinante segundo o qual, a pertinência cresce com a especialização e com a abstração (ibidem).
O que os autores que viemos citando mostram, é que na verdade a pertinência cresce, se expande, não, como indicado, com a especialização e com a abstração, mas sim, pela contextualização-complexificação-conjunção do conhecimento (ibidem, p. 152).

Sendo assim, essa busca que intentamos neste presente ensaio, da qual falávamos logo acima, agora, de acordo com a noção moriniana – distinguida e formulada por Carlos Jesus Delgado (2008, p. 2) – em pensamento complexo, é vista como um desafio, não só intelectual, cognitivo, mas também vital (complexidade) e esta escritura, congruentemente, realizada como um estudo (con amore) e exercício de transformação-metamorfose cognitiva, de expansão de mirada e de tomada de consciência que nos permita estar atentos justamente à complexidade do nosso atual momento histórico e, responsavelmente em nosso modo de viver, estar aptos a responder à e conviver com ela, mas também como exercício estético-ecológico-mental e de delicadeza no afazer-sentir-pensar-refletir filosófico, científico, tendo em vista a visão de Gaston Bachelard do “ideal de complexidade” da ciência, no sentido de “fazer inteligível o maravilhoso sem destruí-lo ”11.

[11 (Complejidad, Glosario Coletivo, p. 18)]

Esta resposta, no constante intento de lucidez, a desejamos mais adequada e pertinente possível, mas estamos conscientes de que ela será sempre inacabada, até porque, como diz Morin em O Método 2 (a vida da vida, 2011, p. 401), o pensamento complexo não visa a “totalidade” (não-verdade), mas sim a relação e a multidimensionalidade: Conscientes deste inacabamento e limite, justamente por isso nos empenhamos na cooperação para lidar com o problema universal de todo cidadão atual que, de acordo com Morin e Kern (2003, p. 152), consiste em como ter acesso a informações sobre o mundo, e como adquirir a possibilidade de articular e organizar os problemas do mundo.
Não obstante agora o primeiro como, para articulá-los e organizá-los, dizem os autores:
“[...] é preciso uma reforma do pensamento. Essa reforma, que comporta o desenvolvimento da contextualização do conhecimento, reclama ipso facto a complexificação do conhecimento” (ibidem).

“Claro que é impossível conhecer tudo, ou perceber as multiformes transformações de tudo. Mas, por mais aleatório e difícil que seja, o conhecimento dos problemas chaves do mundo, das informações chaves que dizem respeito a esse mundo, deve ser tentado sob pena de imbecilidade cognitiva. E isto tanto mais na medida em que o contexto, hoje, de todo conhecimento político, econômico, antropológico, ecológico etc., é o próprio mundo. [...] O conhecimento do mundo enquanto mundo torna-se necessidade ao mesmo tempo intelectual e vital” (ibidem).

Hoje, trata-se de, como está escrito enfaticamente no Sete Saberes, armar cada mente no combate vital rumo à lucidez, lucidez de uma compreensão, de um saber, de um conhecimento pertinente, ou seja, contextualizado-complexificado.

II. De um conhecimento pertinente e uma atitude reflexiva de compreensão.

Nesta nossa busca, na aceitação do presente desafio (complexidade), na disposição do exercício cognitivo (de transformação) e da atitude espiritual condizente (tomada de consciência/fazer inteligível o maravilhoso sem destruí-lo), é preciso estar sempre atento à necessidade de promover um conhecimento que seja cada vez mais capaz de apreender problemas globais e fundamentais para que nestes sejam inseridos conhecimentos parciais e locais. Não se pode furtar a isso se se deseja um conhecimento pertinente, não fragmentado ou mutilador-mutilado, que sempre efetive e deve promover a operação de vinculação entre as partes e o todo, o todo e as partes, como mostra em muitos de seus escritos o autor de Os Setes Saberes.

Pensamos que dentre as perguntas levantadas logo acima, à que foi formulada por último, por meio da qual pensamos a abertura de uma via para a humanização das relações humanas, assim como está na base do parágrafo, constitui-se como base para a efetivação de todo o resto implicado nas perguntas restantes – Tendo em vista uma transformação harmônica do mundo na sabedoria de uma convivência que não gerará nem pobreza nem abuso, como diz Maturana em algum lugar – Tendo em vista, como vimos acima, o civilizar as relações entre os homens para uma coexistência de destino-comum planetária e, ao menos, a diminuição da crueldade do mundo e administração da violência. Para tal, pensamos que a atividade educacional, concebida aqui e de acordo com Maturana12, como processo de transformação na convivência, seja uma atividade fundamental e talvez a mais central neste processo – em nossos dias – de abertura para a humanização e transformação do mundo. Deste modo, pensamos também que, juntamente com Morin em seus escritos sobre educação, como no livro Os Sete Saberes, a compreensão da condição humana, sendo o mais importante objeto da educação, como já alertava Jean Jaques Rousseau, seja elemento principal na atuação de quem, hoje, escolhe viver na psique de um educador-social13, buscando estabelecer uma relação reflexiva e amorosa, ética, com as pessoas, com nossas crianças, meninas e meninos, com nossos jovens, nas comunidades e organizações humanas em que con-vive. Mas também, certamente, para qualquer outra pessoa em qualquer domínio cognitivo, de realidade, de explicação, em qualquer rede de conversação, de atuação, do fazer e do produzir, teórico e/ou prático, por exemplo, pelo simples fato de que hoje, efetivamente meu próximo, seu próximo, nosso próximo, vivendo nós no Brasil, como eu, pode ser alguém que vive em Tóquio ou alguém em algum “não-lugar” do Oriente-Médio.

[12 (2014)
13 (Maturana, H., colaboradores, 2009b, Matriz Ética do Habitar Humano)]

Afinal, como diz Morin (2012, p. 229): “A mundialização concretiza-se também no fato de que cada parte do mundo faz, cada vez mais, parte do mundo, sendo que o mundo, como todo, está cada vez mais presente em cada uma das suas partes. Isso não acontece apenas com as nações e com os povos, mas também com os indivíduos. Da mesma forma que cada ponto de um holograma contém a informação do todo de que faz parte, o mundo, doravante, como todo, está cada vez mais presente em cada indivíduo”.

Sobre este ponto do nosso atual viver e conviver, do homem contemporâneo, nos parece interessante evocar algo da filosofia do endereço desenvolvida por Michel Serres (2003, p. 2009). De acordo com Serres, vivemos, sentimos e pensamos na habitação universal, quando pela primeira vez as novas tecnologias móveis desenraizam, como o computador e o telefone celular, o endereço do “lugar” (local). Hoje, diz este filósofo, nosso vizinho, nosso próximo, é virtualmente a população humana inteira. Com a invenção do que Serres chama de objetos-mundo (computador, celular, etc.) e levados por eles, em número, espaço, tempo e velocidade, atualmente nos situamos em um universo que também não tem endereço, com o que passamos a viver e pensar fora lugar (ibidem).

Sendo assim, se estamos atentos, podemos ver que nossa necessidade primeira, como vimos, é o conhecimento do conhecimento e a compreensão da condição humana é nosso objetivo principal e fundamental para tratarmos adequadamente dos atuais problemas chaves do mundo – tendo em vista os problemas globais-comuns e fundamentais –, bem como sua articulação e organização, necessidade premente da cidadania planetária. De modo que esta conjunção (conhecimento do conhecimento/compreensão da condição humana) é imprescindível se queremos avistar meios adequados para a humanização das relações humanas e consequente desenvolvimento da civilização das relações entre os homens para a coexistência antropoética na cidadania terrestre em uma sociedade-mundo.

Pelo conhecimento do conhecimento, partindo sempre da pergunta pelo como fazemos o que fazemos, por exemplo, enquanto observadores, observamos, podemos chegar a ver como geramos e co-criamos as realidades, os cosmos, os mundos, os universos ou multiversas em que vivemos e con-vivemos14, como também as causas da nossa mútua incompreensão e indiferença, dos abusos, das discriminações e preconceitos de todo tipo, das nossas cegueiras, alienações e armadilhas culturais. O que é de suma importância, pois, como diz Morin em Os Sete Saberes, em todos os sentidos o planeta precisa de mútua compreensão da nossa (humana) unidade-múltipla/complexa e identidade e condição comum em seus aspectos físicos-biológicos-culturais-psíquicos-sociais-históricos e em seu caráter triplo individual-social-espécie, em suas complementariedades e antagonismos.

[14 “[...] lo real, el universo, lo multiverso, el cosmos y la sensorialidad de nuestra intimidad son âmbitos sensoriales-operacionales-relacionales del cosmos en que ocurre la localidad de la totalidad de la realización de nuestro vivir en la unidad ecológica organismo-nicho que integramos cuando ella surge con nuestro vivir en lo no-fantástico de nuestro convivir humano generador de todo conocer” (Humberto Maturana e Ximena Dávila, 2015, p. 351).]

Como dissemos, partimos neste escrito de um conflito cognitivo e nos perguntando sobre e buscando avistar meios adequados para a humanização das relações humanas, no intuito também de comunicar, através de reflexões sobre este conflito mesmo: Como todo este contexto-complexo planetário, nos múltiplos processos da atual crise planetária em que vivemos e da qual presenciamos as convulsões agônicas, nos impacta, hoje, enquanto indivíduos modernos de cultura ocidental, vivendo no séc. XXI, como impacta a mim individualmente, pessoalmente, como membro da humanidade – a nascer e ainda sem poder nascer, a semear-amar15 –, como membro vivo da espécie humana, mas também como lidar com isso, para continuar vivendo, conservando nossa identidade e adaptação, em bem-estar físico e psíquico nos mundos que geramos em-com nosso viver e conviver na unidade múltipla e identidade complexa, terrena e mítica, biológica-cultural, antroposfera-biosfera que integramos enquanto seres humanos. Sendo assim, acreditamos estar caminhando na proposta; sendo assim, sigamos.

[15 (Para Sair do Século XX, 1986, p. 361, Morin)]

Como diz Morin em A Cabeça Bem-feita:
“Conocer lo humano no es sustraerlo del Universo sino situarlo en él. Todo conocimiento [...] debe contextualizar su objeto para ser pertinente. “Quiénes somos nosotros?” es inseparable de un “?donde estamos?”, ?de dónde venimos?, ?a dónde vamos?” (1999).

Partindo neste sentido, convém sempre estar atento às desorganizações e reorganizações, as correntes e contracorrentes, as transformações e rupturas, as convulsões da nossa atual era planetária. Estudar, examinar, conversar e refletir sobre a sua constituição e como ela se deu, se dá e está se fazendo, desde o final do séc. XV, é muito importante, pois, compreender a era planetária é avançar na compreensão da condição humana na Terra, possível Pátria-comum de uma sociedade-mundo. Isso é uma tarefa fundamental para todo cidadão planetário, para toda educação planetária, se se deseja cooperar não só para contribuir na articulação e organização dos problemas-comuns do mundo e da humanidade, para a tomada de consciência de nossa Terra-pátria e para a responsabilidade compartilhada da cidadania terrestre, mas também, como diz Morin em Os Sete Saberes, para permitir que, sendo levada a cabo, a consciência planetária se traduza em vontade de realizar esta cidadania mesma. Assim estaremos também em melhores condições para compreender nosso momento atual, pelo entrelaçamento de duas globalizações em uma, como diz Morin (2012, p. 235).

Uma, principalmente técnica e econômica, baseada no lucro, e outra, na qual se esboça uma consciência planetária de pertença à uma pátria terrestre e que prepara, como diz Morin, uma cidadania, também por sua vez, planetária. Estas duas globalizações principais e antagônicas, como mostra o autor de O Método 5 (a humanidade da humanidade), são inseparáveis e tendem à ruina pela influência cada vez mais acentuada e disseminada da aparição das “globalizações parasitas e corrosivas” representadas pelas máfias de todo tipo, pela evasão e sonegação fiscal e pela rede de terror sem Estado nem fronteiras que visa à hegemonia do Ocidente.

“As ideias emancipadoras desenvolveram-se em contraponto às dominações; as ideias universalistas, no rastro dos progressos econômicos e técnicos de comunicação; [...] Por meio de muitas censuras, inibições, possibilidades abortadas, a cultura universalista parasita o comércio mundial e a indústria da mídia, que, ao mesmo tempo, parasitam a cultura universalista. A segunda globalização progride ao mesmo tempo que a primeira. Ela só pode fortalecer-se no desenvolvimento dos círculos virtuosos [...] na expansão de uma cultura mundial alimentada por diferentes culturas e no avanço da consciência planetária. Ainda não se consolidou a política a serviço do ser humano (antropopolítica) capaz de levar-nos a civilizar a Terra numa “sociedade-mundo” (ibidem, p. 235).

Então, vale ainda dizer algo sobre a conjunção conhecimento do conhecimento e compreensão da condição humana. O estudo, a investigação, o exame do conhecimento do conhecimento e a busca no sentido de compreender a condição humana, estão na base, a nosso ver, de um desenvolvimento humano re-generativo, ou seja, de um desenvolvimento de todas as nossas potencialidades psíquicas, espirituais, éticas, culturais e sociais, que é, como dizem os autores de Terra-Pátria (p. 102), como deve-se conceber a busca da hominização; ainda mais levando-se em conta que, o tipo de “desenvolvimento” que estamos cada vez mais, ao menos, desde 1950 privilegiando, a saber, desenvolvimento técnico-científico e econômico (crescimento), tem certamente provocado, muitas vezes, como aponta Morin em Estamos En Un Titanic (p. 1), subdesenvolvimentos mentais, psíquicos e morais e não estimulado a liberdade, democracia, autonomia e moralidade. Sentimos que não saberíamos, no espaço que aqui nos resta, dizer o quão importante seja a operação de conjunção destes dois saberes para um desenvolvimento re-generativo do humano, em consensualidade, amorosidade e ética (sem o que estamos a negar os fundamentos operacionais do modo de viver humano e assim a humanidade em suas diversas maneiras de coexistir biológico-culturalmente e em harmonia com a biosfera), para uma educação reflexiva, crítica e autocrítica, compreensiva e emancipadora – Tendo em vista a sabedoria de uma convivência matrística16 e/ou gilânica17, livre, democrática, autônoma e ética –, para o avanço de uma consciência planetária, para o avanço e intensificação do sentimento de pertencimento numa sociedade-mundo e inclusão em uma cidadania planetária. Mas, arriscamos dizer que a busca da hominização concebida como acima, é, pois, a busca da humanização, do humanizar-se que é o sentido mesmo do viver e conviver humano, ser humano no humanizar-se, humanizar-nos18.

[16 (Maturana, H., Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano)
17 (Eisler, R., El Caliz y la Espada, ed. Pax México, ed. cuatro vientos)
18 “[...] a los veintiún años, enfermo de tuberculosis en um sanatório en la cordillera de los Andes, donde debía estar em reposo absluto, yo leia, en secreto, el gran libro de Julian Huxley, Evolución, una síntesis moderna. Huxley, en ese libro, plantea que la noción de progreso evolutivo es válida si uno piensa en la evolución como un proceso de continuo aumento de la independencia de los seres vivos con respecto del medio en un proceso histórico que culminaba con el ser humano en el momento presente. Yo no estuve de acuerdo con él, y en el silencio de mis horas de reposo, me pregunté por el sentido de la vida y el vivir. Mi respuesta fue entonces, y aún lo es, que la vida no tiene sentido fuera de sí misma, que el sentido de la vida de una mosca es el vivir como mosca, mosquear, ser mosca, que el sentido de la vida de un perro es vivir como perro, vale decir, ser perro en el perrear, y que el sentido de la vida de un ser humano es el vivir humano al ser humano en el humanizar. Y todo esto en el entendido de que el ser vivo es sólo el resultado de una dinámica no propositiva” (Maturana, H., De Máquinas y Seres Vivos, 1998, p. 12).]


Contudo, se levamos em conta também o que se pode aprender, entender e compreender em um livro como, por exemplo, A Árvore Do Conhecimento, escrito por Maturana e Francisco Varela, não podemos pretender não saber que no âmago das dificuldades do homem atual, está nosso desconhecimento do conhecer (2011, p. 270) e podemos estar atentos para o fato de que, como dizem estes autores no livro citado, ao pretender conhecer o conhecer, encontramo-nos com nosso próprio ser (ibidem, p. 265), e, sendo assim, estamos na via da compreensão da condição humana vivida em nossos mundos biológicos-culturais e assim podendo abrir via para a humanização das relações humanas, podendo reconhecer as causas da incompreensão e das cegueiras, da mútua negação e de relações não-éticas e de indiferença (opostas ao amar) ao nosso destino-comum de comunidade humana e terrestre, seja entre nós, com outros seres vivos, enfim, com toda a biosfera e tudo o mais que surja: Que surja em sua legitimidade.

Ouçamos ainda, sobre isso, Maturana e Varela:
“Não é o conhecimento, mas sim o conhecimento do conhecimento, que cria o comprometimento. Não é saber que a bomba mata, e sim saber o que queremos fazer com ela que determina se a faremos explodir ou não. Em geral, ignoramos ou fingimos desconhecer isso, para evitar a responsabilidade que nos cabe em todos os nossos atos cotidianos, já que todos estes – sem exceção – contribuem para formar o mundo em que existimos e que validamos precisamente por meio deles, num processo que configura o nosso porvir. Cegos diante dessa transcendência de nossos atos, pretendemos que o mundo tenha um devir independente de nós, que justifique nossa irresponsabilidade por eles. Confundimos a imagem que buscamos projetar, o papel que representamos, com o ser que verdadeiramente construímos no nosso viver cotidiano” (ibidem, p. 270-71, grifo nosso).


Pensamos que a contextualização-complexificação-conjunção do conhecimento do conhecimento e a compreensão da condição humana, pode libertar-nos também de uma outra cegueira, fundamental, além daquela que se refere à natureza de um conhecimento pertinente, que é a de, como mostram os autores em A Árvore Do Conhecimento (ibidem), não percebermos que só temos o mundo que criamos com os outros e que só o amar nos permite criar um mundo em comum com eles.
Por fim, tendo em vista um aclaramento da concepção de desenvolvimento que apontamos acima, gostaríamos ainda de citar Morin e Kern quando dizem:

“Aqui reencontramos a noção de desenvolvimento, mas muito mais rica que aquela, embrionária e mutilada, que foi promovida e difundida desde os anos 1950 e que deve ser repensada, total e radicalmente. Cabe portanto retirar a noção de desenvolvimento de sua ganga economística. Não cabe mais reduzir o desenvolvimento ao crescimento, que, como disse Jean-Marie Pelt, “tornou-se uma excrescência”. A noção de desenvolvimento deve tornar-se multidimensional, ultrapassar ou romper os esquemas não apenas econômicos, mas também civilizacionais e culturais ocidentais que pretendem fixar seu sentido e suas normas. Deve romper com a concepção do progresso como certeza histórica para fazer dele uma possibilidade incerta, e deve compreender que nenhum desenvolvimento é adquirido para sempre: como todas as coisas vivas e humanas, ele sofre o ataque do princípio de degradação e precisa incessantemente ser regenerado” (ibidem, p. 102).

Esse desenvolvimento re-generativo deve compreender, como mostra Morin no Sete Saberes, o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e da consciência individual, social, ecológica e de pertencimento à espécie humana.
Em relação ao indivíduo-mundo (hologramático), tudo isso surge como um convite à reflexão e à ação ética consciente e para uma transformação-metamorfose de nossos modos de viver e conviver, transformação psíquica-cultural, o que é próprio do espaço psíquico emergente e que começa a se conservar atualmente, suscitando, possivelmente, uma nova era psíquica da humanidade, caraterizada por esta dinâmica emocional fundamental (do espaço psíquico), a da reflexão-ação-
ética consciente, e que se mostra, como dizem Maturana e Dávila (2015, p. 538-539), como nossa grande oportunidade e esperança em nosso presente.

“Una transformación cultural ocurre como una transformación individual que, dado el carácter sistémico de nuestro vivir social, lleva a transformación de los mundos que generamos en nuestro convivir. Es indudable que si estamos conscientes de que depende de nosotros recuperar la salud de la Humanidad, es un acto ético el que nos comprometamos a hacerlo. Hoy es nuestra gran oportunidad. Lo es para todo ser vivo, lo es para la biósfera, lo es para las generaciones que vienen, y lo es para el presente de esta Humanidad que hoy está enferma porque hoy, los seres humanos, nos damos cuenta de los posibles cursos autodestructivos de los mundos que generamos con el crecimiento de la población humana y las alteraciones de la biósfera que producimos bajo el argumento de la necesidad de un crecimiento económico sin límites, a la vez que nos damos cuenta también de que somos los únicos que podemos revertir el modo en que estamos viviendo. Esta tarea de nosotros, seres humanos, que como seres reflexivos nos demos cuenta del vivir y convivir que vivimos, y que podamos escoger amar la biósfera, amar la Pachamama, amar Gaia y desde el amarla, sanarla” (ibidem).

Efetivamente, nossa pergunta fundamental parece ser, hoje, como vimos anteriormente, mais do que nunca: o que queremos seguir conservando, fazendo e desenvolvendo? É fundamental para a escolha do caminho que seguiremos neste nosso milênio, ainda mais se levamos em conta que estamos desorientados e, como diz Morin em Para Sair do Século XX (1986, p. 360), que não sairemos da itinerância.

De acordo com as considerações deste filósofo-cientista social-artista do pensamento complexo, da complexidade como desafio, e, também a nosso ver, não estamos próximos de uma política a serviço do ser humano, contudo, desde tudo o que sabemos que hoje sabemos e sabendo como sabemos que sabemos o que dizemos saber-fazer (conhecer), desde este profundo dar-se conta do nosso contexto e circunstâncias de vida e de convivência, planetária e biosférica, e partindo da última grande revolução científica e tecnológica (planetária) e das formidáveis transformações nas concepções do mundo, da terra, do homem, operada no sécs. XX-XXI – que, se comparada com a ocorrida nos inícios da era planetária, no séc. XV europeu ocidental, faz desta última, como dizem Morin e Kern (2013, p. 62), uma pequena crise ministerial – é que podemos, de acordo com estes autores, aceitar a atual tragédia humana e do universo e esta aceitação, de acordo com Morin (1986. p. 360), é a condição sine qua non de toda antropopolítica ou, como vimos, uma política a serviço do ser humano.

Mas, seja como for que suceda, partindo da dor e/ou do sofrimento do viver em nossos mundos biológicos-culturais, de reflexões que surgem diante às incoerências que surgem em nosso viver-fazer nas redes de conversações em que vivemos, linguajeamos, conversamos, ou reflexões pela abertura e aceitação do outro como legítimo outro em convivência conosco (fundadas na amorosidade, aceitação-mútua, no auto e alter respeito, de modo que são inerentemente sociais), por encontros criativos ou “desencontrados” fora da nossa cultura e de nosso âmbito social, se con-vivemos na humildade e simplicidade de nossa humanidade e no prazer espiritual que este con-viver implica, sempre podemos sentir e retomar, retornar à nossa sabedoria presente antes de todo conhecimento, como diz Morin (ibidem, p. 361), (acrescentamos, de toda linguagem) e de toda consciência, mas chegando, ao mesmo tempo, como conclui o escritor, ao que todo conhecimento e toda consciência nos ensinam a realizar, a saber, semear - se amar - semear”.

“[...]semear pode coincidir com amar, isto é, com o amor que transfigura dois seres e encontra sua finalidade no êxtase comum” (ibidem).

Também, nossa relação primária com a terra é estética e fundamentalmente amorosa, assim como se dá com nossas relações humanas se não somos negados ou negamo-nos culturalmente. Desenvolvê-la re-generativamente também é promover a tomada de consciência da Terra-Pátria e este próprio dar-se conta, nos imbuindo do sentimento de pertencimento à esta comunidade mais ampla, terrestre, pode suscitar o estado poético do viver, quando se vive – sem esforço – simplesmente por viver. Como diz Morin, nosso habitar a Terra e nosso viver se dá no entrelaçamento do prosaico com o poético e um constante estado segundo (poético) não é factível, contudo, o verdadeiro desenvolvimento humano e a antropopolítica requerem a plena consciência das necessidades po-éticas e, acrescentamos, fundamentalmente amorosas do ser humano19. Até porque, como concebe Maturana, a própria democracia é uma obra de arte, realizada diariamente, e em vários de seus escritos e reflexões, o amor (humilde fenômeno biológico) tão íntimo do prazer estético-espiritual, é sempre nosso primeiro e último remédio, e como diz Morin, amor e poesia (viver-poético), o sumo da sabedoria, são estes os mais antigos remédios da humanidade, contra a angústia e a mortalidade20, mas também, acrescentamos, contra a tristeza e a obediência.
Para tudo isso, sentimos-pensamos que algo fundamental seja, como diz Morin em El Paradigma Da Complejidad, uma vontade de ter uma visão coerente dos fenômenos e um pensamento não-mutilador na busca de uma compreensão adequada do humano e sua relação com o ambiente, nunca permitindo, tanto quanto seja possível para nós, que teorias de qualquer tipo venham, nas alienações ideológicas, fundamentalistas, cegar o homo sapiens de sua amorosidade (que não quer dizer bondade) e cultivar no homo demens a agressão e a arrogância, mas sim a sabedoria (cordura) e a poesia. Pelo contrário, se faz urgente interromper a marcha para os desastres que se acentuam cada vez mais, como indica Morin em Les Nuits Sont Enceintes Et Nul Ne Connaît Le Jour Qui Naîtra (2011b). Para isto, temos que curar-nos da neurose da mentira permanente, para chegar a ver que ainda conservamos em nosso modo de vida, os traços centrais do modo de vida de nossos ancestrais de algo entorno de 3.000.000 de anos, fazendo ver que o homo sapiens é fundamentalmente amans, e mesmo que hoje vivamos em guerra e sistemática violência e abuso, a demência no sentido da agressão e da arrogância só permanece se cultivada, pois, se deixamos de a cultivar, a agressão e a arrogância desaparecem, pois, é o amar, que traz consigo uma expansão de mirada, que é nossa boa-terra – como dizem Maturana e Dávila em seus últimos escritos no livro El Árbol Del Vivir – da qual pode surgir, se assim o queremos, nossa Terra-Pátria, como diz Morin: Conscientes de que, toda certeza, gostemos ou não, implica sempre uma cegueira e uma solidão.

[19 “[...] a poesia da vida, com o amor em primeiro lugar, é nossa verdade suprema” (2013, p. 334)
20 (Morin, E., 2012, p. 295).]

Pensando congruentemente com Maturana, sustentamos que o que carecemos hoje, fundamentalmente, é de uma co-inspiração ontológica que faça oposição à justificação racional de negação do outro, da outra, por quaisquer tipos de teorias, sejam elas religiosas, filosóficas, sócio-políticas ou científicas, tecnológicas, etc., para produzir uma ruptura na rede de conversações patriarcais-matriarcais em que vivemos imersos, desde o operar no amar, consensualidade e na ética, na tarefa cotidiana da co-criação e construção de uma comunidade nacional, regional, local e planetária, democrática e ética.

Para finalizar, como diz Morin em suas últimas palavras em O Método 5 (a humanidade da humanidade):

“Poderemos praticar a reforma interior que nos tornaria melhores? Poderemos um dia, “habitar poeticamente a Terra”? A humanidade está em formação. Há possibilidade de rechaçar a barbárie e realmente civilizar os humanos? Será possível transformar a hominização em humanização? Nada está definido, nem o pior” (2012, p. 295).

III. Um aporte para uma reflexão recursiva sobre a era planetária, afazer científico e as eras psíquicas da humanidade: Dos inícios da era planetária aos dias atuais.

De acordo com Morin e Kern (2003, p. 21), vivemos em uma era planetária, cujos começos podemos rastrear, ao menos, a partir de 1492, quando as jovens e pequenas nações do Oeste europeu lançam-se à conquista do Globo, através da aventura, da guerra e da morte, a suscitar esta era mesma, que implicará uma “revolução planetária”. Com as grandes navegações e a concepção do sistema que faz girar os planetas, inclusive a Terra, em volta deles mesmos e do Sol, temos os inícios do que chamamos Tempos Modernos e que, de acordo com estes autores, deveria chamar-se, justamente, era planetária.


“A era planetária começa com a descoberta de que a Terra não é senão um planeta e com a entrada em comunicação das diversas partes desse planeta. Da conquista das Américas à revolução copernicana, um planeta surgiu e um cosmos se desfez. As concepções do mundo mais seguras e mais evidentes são subvertidas” (ibidem, p. 21-22).

Mas, por quê esta era implica, como está indicado acima, uma “revolução”? Justamente porque, como apontam os autores citados, com o advento da era planetária, as diversas partes desse planeta que “surge” entram em comunicação e um todo-ordenado começa a ruir e desfazer-se. Com isso, advém a insegurança com a subversão de muito do que era tido como evidente de acordo com as concepções do mundo conservadas até então. Ora, com a revolução copernicana a Terra passa a ser tida como apenas um satélite do Sol, deixando de ser vista como centro do Universo e com isso, simultaneamente, a “humanidade” perde sua posição privilegiada, o que também acontece com o Ocidente europeu e em certo sentido, com toda a cultura ocidental de base greco-judaíco-cristã, gradativamente, do final do séc. XV em diante. “Planetária” por quê? Justamente porque, como apontam os autores citados, com o advento desta era, as diversas partes do planeta Terra entram em comunicação, o que implica, também gradativamente e cada vez mais rapidamente, uma transformação referente, com diz Michel Serres em livro já citado (2003, p. 192), ao tempo, ao espaço, à relação entre os homens e, claro, acrescentamos, especificamente com o mundo natural; haja vista todo o desenvolvimento que desde então até nossos dias atuais – nas chamadas sociedades de conhecimento, com as mais recentes, novas tecnologias de comunicação e informação –, impacta o viver e o conviver humano, em se referindo ao conjunto de equipamentos encarregados de fazer por nós o que desejamos e imaginamos, por exemplo, todos os equipamentos de receber, armazenar, conservar, emitir e transmitir informação, como mostra o autor citado acima.
Se referindo a transformação em relação ao tempo, diz:

“Desde que aparece a imprensa, primeira produção em cadeia e em série na Renascença, as trocas comerciais no Mediterrâneo se transformam. Os bancos italianos substituem a moeda pelas letras de câmbio e introduzem, em consequência disso, o primeiro capitalismo; a circulação de livros favorece a independência individual louvada pela Reforma protestante, pela democracia política e pelo direito civil; a estocagem desses livros em bibliotecas diminui a importância das doxografias e, ao exigir menos da memória e colocar o observador frente à instantaneidade dos fatos, contribui para a eclosão da experimentação mecânica e física; em suma, a imprensa gera a ciência moderna; Montaigne, Erasmo, Rabelais, retiram as inusitadas concepções da pedagogia de todas essas novidades” (ibidem, p.193).

Retomando nossa exposição sobre a era planetária e continuando a escritura deste aporte:

“A Terra deixa de ser plana e torna-se definitivamente redonda (o primeiro globo terrestre aparece em Nuremberg em 1492, e em 1526 o trajeto de Magalhães nele se inscreve). Ela deixa de ser imóvel e se converte em pião. O paraíso, que Colombo ainda buscava na Terra, deve ser remetido ao Céu ou desaparecer. O Ocidente europeu descobre grandes civilizações, tão ricas e desenvolvidas quanto as suas, que ignoram o deus da Bíblia e a mensagem do Cristo. A China deixa de ser uma exceção estranha. A Europa deve reconhecer a pluralidade dos mundos humanos e a provincialidade da área judeo-islamo-cristã. Assim como a Terra não é o centro do cosmos, a Europa não é centro do mundo” (Terra-Pátria, p. 22).

Não obstante, tal revolução levaria alguns séculos, como dizem estes autores, para se inscrever nos espíritos dos homens e das mulheres e talvez seja já nos sécs. XVIII-XIX que as transformações nas concepções sobre a natureza do universo, da Terra, da vida e do homem, que são subvertidas a partir dos então atuais últimos desenvolvimentos científicos e técnicos dos sécs. XV-XVII, tomam os corpos, as mentes e os corações das pessoas e chegam à efetivamente se instaurar na vida cotidiana, após a primeira Revolução Industrial e domínio do projeto técnico-científico Ocidental de dominação da natureza.

“Ainda em 1632, Galileu terá que se retratar diante da Inquisição e condenar o sistema de Copérnico. Sobretudo, tal revolução não revolucionará verdadeiramente o mundo oeste-europeu onde ela surgiu: este irá esquecer sua provincialidade ao instalar seu reino sobre o planeta; irá esquecer a provincialidade da Terra ao se convencer de que a ciência e a técnica farão dele o senhor do mundo” (ibidem).

Façamos agora uma breve pausa para refletir sobre esta situação apresentada e suas circunstâncias. Assim, acreditamos, estaremos em melhores condições para seguir adiante neste aporte ao nosso ensaio e com nossos propósitos nele.

O que gostaríamos de fazer notar e para isso pedimos a atenção do silencioso leitor é o seguinte: Neste processo que abre a via para a planetarização, ocidentalização, mundialização das ideias e pelas guerras, da economia, da apropriação do mundo natural e da exploração dos homens pelos homens de novas formas, com outras práticas, lá nos inícios da e em seguida no decorrer da era planetária – como estamos a ver –, houve ocasião, como nunca dantes houvera sido possível, para uma tomada de consciência quanto a pluralidade dos mundos humanos e a diversidade ambiental da Terra, contudo, o que marca estes inícios da era planetária, como evocado, é a violência, a escravização, a exploração, a destruição, a guerra e a morte, haja visto tudo o que ocorreu no continente americano e africano no processo cruel de colonização. Assim é que se dá a inauguração, como dizem os autores que vínhamos citando, da era planetária nos Tempos Modernos. Mas o que foi que impediu (e tem ainda impedido) o pleno reconhecimento, por parte da Europa em particular (naqueles tempos) e por parte do Ocidente em geral (atualmente), de suas próprias circunstâncias no contexto complexo-comum planetário que se abria então e ainda hoje se constitui?


A era planetária desde sua inauguração, com sabemos e viemos vendo, é marcada pela violência, apropriação, pela escravização, a exploração, a destruição, a guerra e a morte, contudo, este é apenas um aspecto – o dominador/conquistador – do desenvolvimento planetário desencadeado pelo Ocidente. De acordo com a metáfora moriniana (dupla-hélice), esta era é impulsionada por uma hélice que representa o desejo de conquista – acrescentamos, apropriação e controle – que constitui um processo de mundialização, que se dá, principalmente, pela guerra e pelo comércio, e por uma outra hélice que constitui um outro processo de mundialização, do humanismo, dos direitos humanos, do princípio de liberdade-igualdade-fraternidade, da ideia de democracia e da ideia de solidariedade humana (2012, p. 226/232), esboçando uma consciência planetária. Esta segunda mundialização, sob o signo da cooperação e da solidariedade, ao mesmo tempo que está ligada à primeira lhe é antagônica, assim como se dá com nossos atuais processos de globalização entrelaçados. Nela reconhecemos um outro aspecto do desenvolvimento planetário.

Acontece que o primeiro aspecto deste desenvolvimento, desta mundialização e ocidentalização que é principalmente técnica e econômica, baseada no lucro e levado em diante pelas guerras, a despeito da outra, na qual se esboça uma consciência planetária de pertença à uma pátria terrestre e que prepara uma cidadania também planetária, instaurou sua ordem – mundial(idade) de ferro – na e sob à qual até hoje estamos, e com tudo o que vimos até aqui podemos perceber também que desde os inícios desta era a centralidade do afazer científico e técnico-produtivo é intensificada e privilegiada, na exaltação deste saber-fazer (conhecimento), e podemos reconhecer seu predomínio em relação à outros domínios de experiência e formas de conhecimento, que quer-se absoluto (Ciência, Racionalismo).

Desde então esta centralidade é conservada na cultura ocidental europeia moderna e cada vez mais no que podemos chamar de cultura da humanidade – essa espécie de ser coletivo que aspira a se realizar reunindo seus fragmentos separados, como dizem Morin e Kern (ibidem, p. 29), que emerge plenamente, mesmo que enquanto ideia, ideia de humanidade, em meados do século XIX – e hoje, como diz Carlos Delgado (Un Nuevo Saber p. 24), com o avanço científico e tecnológico a sociedade do conhecimento deixou de ser uma quimera; contudo, como bem alerta Morin em A Via (2013, p. 184), é preciso dissipar a ilusão de que chegamos à uma “sociedade do conhecimento”21. Pode-se dizer que isso (centralidade) se intensifica sempre mais e mais claramente a partir dos finais do séc. XV em diante, até nossos dias. Contudo, hoje somente pelo autoengano e pela cegueira intencional uma pessoa furta-se do reconhecimento de que o desempenho científico e tecnológico tem apresentado manifestações sumamente contraditórias, como diz Delgado:

[21 “Efetivamente, chegamos à sociedade dos conhecimentos separados uns dos outros, separação que nos impede de religá-los para conceber os problemas fundamentais e globais, tanto da nossa vida pessoal, como de nossos destinos coletivos” (ibidem).]

“[...] Grandes logros y avances del saber, nuevos instrumentos de trabajo, mayor independencia del hombre con respecto a diversos factores naturales, desarrollo de la medicina y la producción de novedosas tecnologías productivas y de construcción social. Simultáneamente, el uso del saber con fines militares destructivos, manipulación del conocimiento para el provecho de grupos reducidos, producción de tecnologías agresivas y depredadoras de las fuentes naturales de vida, creación de un entorno degradado que pone en riesgo la existencia física de los seres humanos y otras especies. Graves errores en la pretensión de conocimiento y en el uso de éste, que han tenido efectos catastróficos sobre la vida, comunidades y pueblos” (ibidem).

Mas, como pôde ter ocorrido que, indaga Delgado, uma atividade tão nobre e profundamente humana como o afazer científico, tenha conduzido a aparição de efeitos absolutamente negativos e, acrescentamos, aliada, muitas vezes, com o desenvolvimento planetário de aspecto dominador/conquistador?

Para responder esta pergunta, precisamos compreender o paradigma de racionalidade e inteligibilidade da filosofia e ciência clássica modernas, ver quais eram seus ideais de saber e conhecimento. Mas, dar atenção ao que queremos agora mostrar é necessário para desfazer a impressão, inconsciente ou consciente, de que o que, ou melhor, como ocorreu o que ocorreu nestes encontros promovidos pelas grandes navegações, “naturalmente” ocorreria no e entre os encontros de linhagens humanas. Isso pode ocorrer através de uma compreensão do espaço psíquico que caracteriza esta era psíquica da humanidade e mais amplamente da história evolutiva humana e dos seres vivos em geral, mas também, como veremos, tal compreensão pode colaborar em muito para entendermos melhor o saber filosófico, científico e técnico dos Tempos Modernos, seu paradigma de
racionalidade e inteligibilidade, forjado neste espaço psíquico (moderno) e com isso a própria era planetária da qual somos o presente vivo.

Sim, como vimos, a segurança dos homens e das mulheres, principalmente do Ocidente europeu, com a subversão das concepções do mundo até então conservadas, como dito acima, foi fortemente atingida, mas, nas palavras de Morin e Kern – sobre o que agora nos questionamos – como pôde dar-se o “esquecimento” da provincialidade do Ocidente europeu, do mundo oeste-europeu, mas também de toda a área judeo-islamo-cristã e da “humanidade” (em relação ao Universo) diante de toda a pluralidade, diversidade e amplidão que passaram a ter diante de si? Como pôde, em ocasião, tal revolução não ter revolucionado este mundo e esta área, no sentido de uma profunda compreensão de si mesmo e do outro, enfim, do nosso ser humano, da humanidade dos seres humanos? Ora, os próprios autores nos mostram. Mesmo com a segurança abalada com a revolução que se instaurava e passava a se inscrever amiúde nos espíritos – e até no desejo de reafirmá-la –, o que poderia ter levado à uma abertura profundamente compreensiva, pôde-se “esquecer” toda a provincialidade diante da pluralidade, diversidade e amplidão encontrada, porque surgia simultaneamente a possibilidade de domínio no desejo de apropriação e pela exploração na expansão e instalação dos reinos de toda esta área do globo pela Terra e o desenvolvimento da ciência e da técnica modernas que reorientava todo o viver-fazer e atuar dos seres humanos no entorno terrestre e não terrestre, reorientação esta que poderia nos fazer, cria-se, senhores da natureza e do mundo. A segurança pôde ser restaurada por conta destes dois ou três elementos, a saber, domínio no desejo de apropriação, saber/conhecimento científico e técnico.

Mas, a nosso ver, o uso pelos autores, Morin e Kern, da palavra “esquecimento” neste contexto e neste trecho do muito interessante e inspirador livro Terra-Pátria, parece-nos esconder algo ou possivelmente não permitir, talvez para alguns leitores, ver claramente a arrogância e a agressividade de todo este processo de planetarização, mundialização e ocidentalização, que está na base da era planetária. Pensamos que foi por conta desta emocionalidade que, mesmo surgida a ocasião, os povos conquistadores de então cegaram-se à toda a pluralidade humana e biodiversidade da Terra, à sua maravilha (vendo tudo como recursos) e também às suas próprias circunstâncias neste insurgente contexto complexo-comum planetário. Não temos a menor intenção de criticar estes grandes pesquisadores e escritores, apenas fazer notar o que, a nosso ver, pode quedar escondido com o uso da palavra “esquecimento” neste trecho e assim suscitar ensejo para dizer o que agora queremos e diremos em seguida. Não se trata, a nosso ver, de um “esquecimento”, mas sim de uma “cegueira”, a nosso ver, simultaneamente intencional e não intencional. Não se esquecia do fato
(provincialidade), mas sim se fingia não ver o fato e em alguns casos simplesmente não se podia realmente ver por conta da alienação em teorias, doutrinas e ideologias de todo tipo, no desejo de possessão da verdade, na adição à ser servido e ao prazer e à segurança que ela pode trazer.
Para pensarmos sobre este encontro-desencontrado entre linhagens humanas nos inícios da era planetária, vale aqui – de passagem – citar parte da interpretação que Maturana em El Sentido De Lo Humano (2010, p. 308) faz do mito bíblico do paraíso e da queda que traz o comer o fruto proibido que, de acordo com sua leitura, não tem relação nenhuma com o sexo, mas sim com a reflexão.

“La caída, lá perdida del paraíso, es el temor a la desnudez, es el temor a encontrarnos con el otro tal como somos. El temor es legítimo como emoción, como reacción biológica ante el peligro. El temor que trae la pérdida del paraíso no es el temor al peligro, es la enajenación en la posesión, es el temor a perder las aparencias. [...] Protegidos por nuestras hojas de higuera exigimos del otro que sea como decimos que somos y no le creemos; protegidos por nuestras hojas de higuera tratamos de aparecer como decimos que somos y vivimos la neurosis de la mentira permanente. Vemos al otro como un enemigo mortal o potencial que sólo busca egoísticamente su proprio bienestar, y para defendernos, negándolo, hacemos lo que tememos que el otro haga, y lo justificamos diciendo: “yo sólo defiendo lo mío, mis cosas, mis principios, la verdad”.

Pensamos atualmente, de acordo com o biólogo chileno Humberto Maturana em trabalhos como Amar e Brincar: Fundamentos Esquecidos Do Humano, escrito em parceria com a doutora Gerda Verden-Zöller, que a nossa história cultural, ou seja, a história cultural humana, ou ainda, em outras palavras, a história da humanidade seguiu e segue a trajetória do emocionar e não o da razão, e em especial, o curso dos nossos desejos (o que contradiz grande parte – para ser prudente e não dizer todo o movimento – da filosofia e ciência clássica modernas em sua deificação do Homem – o ser sobrenatural senhor do mundo e mestre da natureza –, portador da Razão e agente promotor e controlador do Progresso). Sendo assim, pensamos que, para compreendermos o curso da nossa história como seres animais humanos, se faz necessário olhar para a trajetória histórica do emocionar humano. De modo que, para revelar tal trajetória, devemos observar a mudança das conversações que surgem das modificações no emocionar, bem como as circunstâncias históricas de vida que, em cada caso, dão origem a novos emocionares e os estabilizam. Como se sabe, o curso da história humana se desenrola geração após geração e, é essa mesma trajetória que segue o emocionar adquirido pelas crianças no crescimento em relação com seus pais, outros adultos, outras crianças e com o mundo não-humano circundante.

Sendo assim, sustentaremos também que, de acordo com o biólogo citado, um observador pode ver que o que em nosso dia-a-dia denominamos “cultura”, ocorre como uma rede fechada de conversações no entrelaçamento do linguajear com o emocionar. De modo que, culturas são redes fechadas de coordenações recursivas de fazeres, ações e emoções, sentires e é a configuração de emocionalidade que se realiza na rede fechada de conversações que constitui a cultura; é o que lhe dá propriamente seu caráter e não as condutas particulares realizadas por seus membros. De modo que, com Maturana, sustentamos que diferentes culturas implicam diferentes espaços psíquicos, ou seja, diferentes configurações de dimensões relacionais/interacionais inconscientes e conscientes vividas através de diferentes configurações de emocionalidade.

Dizem Maturana e Yáñez (2009, p. 29):
“Um observador pode dizer que o que guia o curso que o devir evolutivo dos seres vivos segue são as preferências, os gostos, os desejos... que orientam e definem em cada instante o que fazem no seu fluir relacional-operacional. Pode-se dizer, além disso, que os seres vivos se deslizam em seu viver seguindo o curso de interações em que se conserva o bem-estar vivido como a coerência psíquica-corporal com o meio que conserva o viver e que, quando isto não acontece, o ser vivo morre. Neste sentido, o devir da história evolutiva que deu origem aos seres humanos não tem sido diferente do devir evolutivo de outros seres vivos e tem que haver seguido, como nestes, um curso definido instante a instante pelas preferências, pelos gostos, pelos desejos e pelas ganas, isto é, pelas configurações sensoriais-relacionais que um observador vê, no viver de um organismo, com suas emoções”22.

[22 Ainda sobre este assunto: “O curso que segue o devir evolutivo dos seres vivos em geral e dos seres humanos em particular, na sucessão das gerações que constituem suas respectivas linhagens, surge momento a momento em seu deslizar-se em seu viver guiados por suas preferências, gostos, desejos, na realização e conservação do bem-estar no viver. De modo que, se quisermos saber como se configurou o viver presente de qualquer classe de organismos, devemos perguntar-nos sobre os sentires relacionais em seus ancestrais, cuja conservação transgeracional deu forma a seu viver relacional atual. Assim, se olharmos nosso viver relacional atual como seres humanos que nascemos seres amorosos, podemos dizer que a configuração de sentires relacionais cuja conservação transgeneracional no conviver de nossos ancestrais nos deu origem como Homo sapiens-amans amans tem que ter sido o amar” (Lei Sistêmica básica # 7, Devir evolutivo, Maturana, H., Yáñez, X., ibidem, p. 125).]


Pois bem, em se tratando aqui da chamada cultura patriarcal ocidental e suas muitas formas de ser vivida, pensamos que, para termos uma compreensão mais profunda (desde suas motivações “internas”) e do que efetivamente dá propriamente o caráter da era planetária, ao menos em tempos de sua inauguração e primeiros desdobramentos, é preciso que nos perguntemos sobre o espaço psíquico que começava a ser conservado e ao redor do qual tudo mais iria mudar,como mudou, no viver e conviver humano, teórica e/ou praticamente, espiritual e/ou materialmente, na antroposfera-biosfera, desde a inauguração desta era da humanidade.

Partindo das considerações feitas por estes últimos autores citados, no último livro citado (1º ensaio), com o objetivo de contextualizar e caracterizar a era planetária da qual nos fala Morin e Kern no texto do livro Terra-Pária, buscaremos sintetizar o que Maturana e Yáñez chamam de era psíquica moderna (ibidem, p. 41-42).

O traço central do espaço psíquico moderno, na era psíquica moderna da humanidade, é o sentir que a verdade única e o conhecimento da realidade (em-si) devem guiar a conduta humana e que a possessão dessa única verdade e o conhecimento da realidade surgem como justificativas legítimas para não deixar o outro ou a outra na ignorância (pense-se em todo processo de colonização e do que chamamos de instrução).

Com o advento deste espaço psíquico (moderno), no qual, sustentamos, se constitui a era planetária, passa-se a viver na expansão do saber da ciência, da tecnologia e do sentir que se conhece “a realidade”, na apropriação do mundo natural em que se vive e em que não se vive, mas que se domina, porque se crê e se sente que é possível dominá-lo e o domina; passa-se a viver na confiança em que podemos conhecer direta e/ou indiretamente o em si dos mundos em que se vive; na confiança de que o conhecimento do mundo ou dos mundos em que se vive dará validade universal aos argumentos e afirmações cognitivas, o que afiança o poder sobre estes mundos e sobre outros seres humanos; na confiança de que o conhecimento da realidade e, portanto, da ciência e, com ela, a tecnologia gerarão bem-estar na humanidade por meio da autoridade e da razão.

“[...] é desde essa confiança que se inventam teorias filosóficas que justificam a conservação política de linhagens biológico-culturais do tipo Homo sapiens-amans arrogans e Homo sapiens-amans agressans, crendo, além do mais, que é possível saber desde a razão o que é bom para outro, o que, por sua vez, justifica a imposição desse saber. [...] O conviver humano passa a ser uma luta de verdades, a partir do conhecimento da realidade; já não é a compreensão o central na convivência, e sim o ter razão. Neste viver psíquico o conhecimento dá poder e não leva à compreensão; o que se busca na convivência é principalmente obediência, em relações orientadas para obter a qualquer custo os resultados desejados, e não a colaboração” (ibidem, p. 41 – negrito nosso).

A dinâmica emocional fundamental da psique desta era da humanidade e, portanto, da era planetária, ao menos em seu aspecto apropriador/dominador do mundo, da natureza, da vida e dos próprios homens, da qual nos fala Morin e Kern, é, de acordo com Maturana e Yáñez, a do domínio da autoridade e alienação no poder, ao menos em sua primeira fase.

Pois bem, para encerrar este momento de reflexão, recapitulemos. A nosso ver, fica bastante claro que, de acordo com o que propusemos anteriormente, mesmo com o surgimento da ocasião propícia – como nunca dantes houvera sido possível na história humana –, para a compreensão de suas circunstâncias (povos conquistadores) e das circunstâncias dos outros povos e suas culturas, isso não ocorreu porque, mesmo com a insegurança sentida pelos homens e mulheres do mundo oeste-europeu, da área judeu-islamo-cristã, advinda da subversão das concepções do mundo, e até mesmo por isso e no desejo de recuperar a segurança perdida – adicta que é desde os albores da filosofia entre os gregos à emoção da certeza (que impede a reflexão e a compreensão), que talvez seja a emoção mais arraigada na cultura patriarcal-matriarcal ocidental – a agressividade e a arrogância destas linhagens humanas de cultura patriarcal ocidental não permitiram um encontro criativo com a pluralidade humana e com a biodiversidade da Terra, na dinâmica emocional fundamental do domínio da autoridade e alienação no poder da razão, que caracteriza esta era psíquica da humanidade (seu espaço psíquico) e, portanto, a era planetária nos Tempos Modernos, bem como o afazer científico e técnico de então. A insegurança que tomou conta dos espíritos nesta época, pôde ser superada pelo desejo de apropriação e pela confiança no saber da ciência e, portanto, da técnica e tecnologia moderna, que começava simultaneamente a se desenvolver, o que levou à crença de que poderiam se tornar senhores do Mundo, mestres e possuidores da Natureza, como queriam um Descartes ou um Francis Bacon, um Buffon ou um Marx, recuperando e efetivando o direito da “humanidade” sobre o mundo natural, de acordo com o que está dito no primeiro livro da Bíblia, na aceitação do convite que Deus havia feito à Adão e Eva, para submeter a terra23.

[23 Como podemos ver o chamado é bastante antigo: “Crescei e multiplicai-vos e povoai a terra e dominai-a. Dominai os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que se movem sobre a terra” (Gênesis, 1,28.).]

A revolução à que se referem os autores de Terra-Pátria, não revolucionou, como afirmam, o mundo oeste-europeu (de imediato) e a área judeu-islamo-cristã, ao menos no sentido, como dissemos, de uma profunda compreensão, o que permitiu o “esquecimento” da provincialidade europeia Ocidental, de toda a área judeu-islamo-cristã e da própria humanidade, porque neste espaço psíquico, do qual surge e no qual se desenvolvem a ciência e a técnica modernas, o conhecimento, como vimos, dá poder e não compreensão. O encontro não-criativo com todos os outros povos de todas as partes do planeta, foi um des-encontro, marcado, como vimos, pela violência, escravização, exploração, destruição, guerra e morte, tendo o afazer científico e técnico de maneira central neste processo pelo qual se buscava o controle das “forças da natureza” e na convivência principalmente a obediência, a dominação e a apropriação, não a reflexão e a compreensão e a interação social, em relações que visavam resultados lucrativos a qualquer preço e não a cooperação/colaboração.

Já no início do século XVII, baseado nisso (citação em nota/19) e imaginando o projeto técnico científico ocidental de dominação da natureza, Francis Bacon (um de seus grandes impulsionadores e disseminadores) proclamará: “Deixemos o gênero humano recuperar seus direitos sobre a natureza, direitos que recebeu da munificência divina” (Novum Organum, I, 129).

Desde então, como vimos, de finais do séc. XV e principalmente a partir do século XVII em diante a Europa conhece um desenvolvimento acelerado e as cidades, o capitalismo, o Estado-Nação, depois a indústria e a técnica, ganham um impulso que nenhuma civilização até então havia conhecido, no processo de constituição da idade de ferro planetária, na qual ainda estamos (Terra-Pátria, p. 23). Processo este que nos levaria à toda a complexidade tecnológica, política e ética de nossa atual coexistência na era planetária, na fase em que a vivemos, quando, já em outra dinâmica emocional fundamental, em outro espaço psíquico, em uma outra era psíquica da humanidade (pós-moderna), sente-se que se pode fazer tudo o que é possível fazer se respeitamos as coerências dos âmbitos em que desejamos atuar e produzir, não obstante as consequências que possam advir, na confiança na crença do saber que se sabe o que se diz saber.

Ora, por esta abordagem e considerações referentes à esta era psíquica da humanidade (moderna) e à era planetária (em seus inícios), adquirimos, como havíamos dito, uma mais clara visão do saber/conhecimento da ciência e da técnica modernas, caracterizados, como vimos, pelo sentir da possessão da “verdade única” e pelo sentir que se conhece, direta ou indiretamente, a “realidade em si” – que deveriam a partir de então guiar a conduta humana, as relações entre os seres humanos e a relação com o entorno em que se vive – e baseados no desejo de apropriação do mundo natural e no desejo de colonização das mentes daqueles que vivem na “ignorância”; pela crença de que seus argumentos racionais e afirmações cognitivas têm validade universal e que poderiam gerar e conferir bem-estar na humanidade por meio da autoridade e da razão. Vimos qual espaço psíquico e dinâmica emocional correspondente, da era moderna, foi fundamental para o encontro desencontrado de povos e linhagens humanas. Também pudemos ver que, com tudo isso, não foi possível um efetivo reconhecimento da legítima pluralidade dos mundos biológicos-culturais humanos e a Europa, principalmente, se já não era o “centro do mundo”, pôde iniciar seu domínio por todas as partes da Terra, na cegueira de suas circunstâncias no contexto global e complexo comum que se abria para a humanidade. Com isso agora estamos em melhores condições para compreender todo o processo que chega até nossos dias, bem como as rupturas que aconteceram posteriormente no próprio saber/conhecimento filosófico e científico, técnico e o que isso implica no e para o viver e conviver humano na antroposfera-biosfera atualmente.


Se estamos atentos a tudo isso, podemos ver então que, a cultura patriarcal ocidental europeia moderna e cada vez mais o que podemos chamar de cultura da humanidade, tem tido, como diz também Carlos Delgado (Un Nuevo Saber p. 24), um de seus centros na ciência e no conhecimento científico e técnico. Ora, através da história da humanidade as noções de saber e de conhecimento, seu alcance e suas funções, como sabemos, têm mudado, como também diz Delgado (ibidem, p. 25), e já no século XVII, o que vinha acontecendo desde o fim da Idade Média e início dos tempos modernos (era planetária), com o desenvolvimento, principalmente, da mecânica e do método experimental, que têm seus inícios nos tempos antigos, ambas práticas, mais a magia, relacionadas com a atitude prometéica (em relação à Natureza) da cultura ocidental – como mostra Pierre Hadot em O Véu De Ísis (2006, p. 23), seu ensaio sobre a história da ideia de natureza –, era o nascimento da ciência experimental e – saber/conhecimento –, como aponta também Hadot (ibidem), de acordo com a divisa do mundo moderno, passou a ser concebido como poder fabricar graças à experimentação, o que está na base da revolução científica que se dá neste século.

Desde Bacon, Descartes, Galileu, Newton, operou-se uma ruptura fundamental com os métodos antigos de conhecimento e de domínio da natureza, com estes filósofos e cientistas e suas principais concepções, adquiria-se o meio para avançar de modo decisivo e definitivo no projeto de dominação da natureza, apegando-se à análise rigorosa do que pode ser medido e quantificado nos fenômenos sensíveis (ibidem, Hadot, p. 44).

Mas, em nossos dias, por tudo que sabemos que sabemos e que só podemos negar via autoengano, já não podemos mais pretender desconhecer os resultados do projeto técnico científico ocidental de dominação da natureza, diante de toda dor e sofrimento, físico e psíquico, material e espiritual, que estamos a gerar e conservar na antroposfera-biosfera, nem mesmo pretender desconhecer a falsidade de suas ideias que dominam nossa civilização até hoje e que remontam em sua forma mais virulenta, como diz Gregory Bateson em Pasos Hacia Una Ecología De La Mente (1998), à primeira Revolução Industrial, as quais podemos resumir, também de acordo com Bateson, como segue:
a-) Nosotros contra el ambiente; b-) Nosotros contra otros hombres; c-) lo que importa es el individuo (o la empresa individual o la nación individual); d-) Podemos tener un control unilateral sobre el ambiente y tenemos que esforzarnos por conseguirlo; e-) Vivimos dentro de una “frontera” en infinita expansión; f-) El determinismo económico es algo de sentida común; g-) La tecnología se encargará de arreglarlo todo.

Atualmente, dizia Bateson, consideramos que estas ideias, pura e simplesmente, estão condenadas por falsidade pelas realizações, em última instância destrutivas de nossa tecnologia ao longo dos últimos 150 anos. Também porque, à luz da teoria ecológica, sua falsidade é claramente demonstrada. Hoje já não podemos pretender não saber que sabemos que os seres vivos que lutam contra seu ambiente e o derrotam se destroem a si mesmos.

Neste caso, como em muitos outros, nossa vitória é nossa derrota.

Retomemos a pregunta: Como pôde ter ocorrido que uma atividade tão nobre e profundamente humana como o afazer científico, tenha conduzido a aparição de efeitos absolutamente negativos e estar envolvida tão centralmente no desenvolvimento dominador/conquistador da era planetária? Para dar uma resposta à esta pergunta, claro que precisamos compreender profundamente o paradigma de racionalidade e inteligibilidade da filosofia e ciência clássica modernas, seus ideais de saber/conhecimento, mas, ora, se estamos atentos ao que expusemos até aqui, já temos uma visão, mais ou menos clara, mais ou menos ampla, de acordo com os conhecimentos prévios do leitor sobre a história do saber filosófico e científico ocidental. Vimos que seus ideais eram (saber/conhecimento) de “verdade única” e de conhecimento (direto ou indireto) da “realidade em si”, que era realizado no “desejo de apropriação” e desde a “crença na validade universal dos argumentos racionais e afirmações cognitivas”, na veneração “da autoridade e alienação no poder da razão”, e podemos agora estar alertas para o fato de que tudo isso está no fundamento do modo, como diz Delgado (ibidem, p. 25), de fazer-se do homem moderno e contemporâneo.

Ora, diante de tudo isso, agora precisamos realmente nos perguntar, desde nossa autonomia de reflexão e liberdade de ação, seriamente e com responsabilidade, se queremos, hoje, em verdade, fazer tudo o que podemos fazer ou poderíamos imaginar fazer? O que constitui reflexão bioética fundamental. Porque, como dizem Maturana e Yáñez (El Arbol Del Vivir, p. 72), fato é que:
“No hay duda que hoy los seres humanos podemos generar con nuestros conocimientos científicos y nuestras habilidades tecnológicas un mundo ético de bien-estar social, de dignidad, honestidad, respeto mutuo y co-inspiración para la generación y conservación de una unidad antropósfera-biósfera armónica, desde el espacio psíquico de la biologia del amar. Y tampoco hay duda que, desde las cegueras que trae consigo el espacio psíquico de la tentación de la omnipotência, podemos, también, generar un mundo no ético de arrogancia, vanidad, relaciones de autoridad u obediencia, de dominación y sometimiento, y de desarmonia sensorial-operacional-relacional entre la antropósfera que surge con nuestro vivir humano y la biósfera que habitamos como seres vivos humanos u que nos hace posibles”.

Também sem dúvida, como vimos e mostram Morin e Kern (ibidem, p. 26-27), a era planetária traz consigo não só – se não vemos o processo por uma mirada monocular ou biocular, mas sim, pluriocular, pensando simultaneamente suas faces e buscando colocar tudo em um contexto-complexo planetário comum, do qual já não é mais satisfatório nos furtar – a violência, escravização, exploração, destruição, guerra e morte, mas também desde os começos da era planetária, como apontam estes autores, por exemplo, com os temas do “bom selvagem” e do “homem natural”, mesmo sendo antídotos muito fracos, têm-se buscando fazer frente à arrogância, acrescentamos, à agressividade e ao desprezo dos homens que passam a viver no espaço da psique moderna. Há linhas de fuga criando outras possibilidades de vida e de convivência que fazem surgir na era planetária, as aspirações que vemos se intensificar desde o início do século XX à unidade pacífica e fraterna da humanidade, mesmo com quedas terríveis, até nossos dias.

“Además, al darnos cuenta de esto, nos damos cuenta, también, que como Humanidad vivimos un momento histórico singular en el que nos damos cuenta de que podemos guiar de manera consciente el curso de nuestro devenir evolutivo escogiendo el modo de vivir y convivir que queremos vivir y conservar en nuestro convivir. En otras palabras, lo que mostramos en esta recursión reflexiva, es que en tanto el curso que sigue la deriva evolutiva de nuestro linaje está definido en cada instante, desde nuestras emociones y nuestros sentires-íntimos, este surge definido por el espacio psíquico que caracteriza nuestro vivir biológico-cultural de cada instante como un ámbito sensorial-operacional-relacional”, dizem Maturana e Yáñez (2015, p. 447).

Nisto tudo, se estamos atentos, agora podemos estar alertas para o fato de que, hoje, como anteriormente, como vimos, lá nos inícios da era planetária, estamos em condições para fazer, desde um deslocamento e expansão de consciência – sabendo que o curso que seguirá a deriva evolutiva da nossa linhagem é definido desde nossas emoções e sentires-íntimos e não pela razão –, em escala/dimensão planetária, um encontro altamente criativo do qual surja, advenha e seja conservada a consciência planetária do nosso destino-comum – humano-planetário-terrestre – na abertura para a humanização/amorização/civilização das relações humanas e a construção de um projeto-comum, baseado na consensualidade, na amorosidade, na ética e na expansão da preocupação e cuidado com o entorno natural, de uma sociedade-mundo na sabedoria de uma convivência cidadã planetária, ética e reflexiva, democrática e poética, que não se alienará na busca da “perfeição” e não gerará violência e abuso sistemáticos como modos legítimos de viver e conviver. O que pode impedir este encontro criativo atualmente?

A dinâmica emocional fundamental do espaço psíquico que caracteriza e pode caracterizar nosso con-viver biológico-cultural como um âmbito sensorial-operacional-relacional particular. Se dar conta disso é fundamental para nosso presente, porque hoje, como vimos anteriormente, como nunca dantes, vivemos este momento histórico singular na história da deriva evolutiva humana em que, como dizem Maturana e Yáñez (ibidem), sabemos que podemos fazer qualquer coisa que se nos ocorra se operamos respeitando o âmbito das coerências sensoriais-operacionais-relacionais estruturais de onde sucederia o que se nos ocorre. Daí em nosso presente histórico singular ser essencial as perguntas bioéticas fundamentais, desde um pensamento orientado ao mundo humano, como um saber sobre a vida e seu futuro no entorno natural24:

[24 Sobre a concepção potterniana de “Bioética”, ver: Delgado, C., Revolución Del Saber y Bioética, p. 8.]

“?qué devenir evolutivo queremos para nosotros y nuestros descendientes ahora que sabemos que somos conscientes de la responsabilidad que nos cabe con respecto al devenir de nuestro linaje y ahora que sabemos que sabemos que este sigue un camino u otro según el espacio psíquico que vivimos?” (ibidem).

“?Qué vivir queremos vivir?”

“?Qué curso histórico queremos seguir?”

“?Queremos o no queremos conservarnos como seres humanos socialmente éticos y responsables del vivir y convivir que generamos? ?o queremos sumergirnos en tecnologías que nos quitan autonomía reflexiva y de acción?” (ibidem, p. 490).

Estamos, como diz Morin (2012, p. 295), numa segunda pré-história, idade de ferro planetária, pré-história de uma possível sociedade-mundo, sempre pré-história do espírito humano, talvez pré-história da técnica...? Sim, pois, se considerarmos, como pensam Maturana (“bioantropologia”) e Yáñez (“antropologia biológico-cultural”), que as diferentes eras psíquicas da humanidade correspondem à dinâmica histórica de transformação integral da psique humana25 e que atualmente estamos, em nosso momento histórico singular que não é nem banal, nem normal, nem evidente – como dizem Morin e Kern do nosso atual universo (2015, p. 63) –, vivenciando o re-encontro da sabedoria (maturidade reflexiva) que todo conhecimento, linguagem e consciência nos ensina – amar-semear-se amar-amar –, com aquela, a mesma mas transformada, que nos dá origem antes de todo conhecimento, linguagem e consciência, pela conscientização da responsabilidade que nos cabe com respeito ao devir de nossa linhagem, como filhos do amor (traço biológico central e fundamental do modo de viver humano) e da Terra, em um novo início... no re-encontro e recuperação da consciência da pertença humana à biosfera, como dizem Maturana e Yáñez (nota/20).

[25 “[...] desde sua concepção, passando pela infância, pela juventude, pela condição adulta e pela maturidade reflexiva, que configura em cada instante nelas o como se vive, para onde se orienta e como se entende a natureza e o sentido humano em sua pertença à biosfera. Na visão mítica, esse transcorrer da vida humana desde a concepção até o seu termo na maturidade ocorre como uma dinâmica recursiva em que a sabedoria da maturidade leva ao início de uma nova história psíquica na geração seguinte que pode ser mais desejável, porque implica a possibilidade da repetição do ciclo, mas com um deslocamento ampliado da consciência numa maior coerência com o mundo natural. O suceder das eras psíquicas da humanidade de que falamos aqui realiza um ciclo mítico e possibilita um espaço reflexivo que no fundo é conhecido e reconhecido desde o próprio viver no conviver. Tal suceder de eras psíquicas da humanidade vai desde a Era arcaica na origem do humano à Era pós-pós-moderna como a era que se recupera a consciência e as ações efetivas perdidas no transcorrer histórico da pertença humana à biosfera, que é o transfundo de existência no qual é possível e ocorre o humano. O recuperar esta consciência em coerências sistêmicas faz possível abrir e ampliar o olhar sistêmico-recursivo que é constitutivo do humano como um ser vivo que pode reflexionar sobre seu próprio viver e os mundos que gera nesse viver” (ibidem)]

Tendo isso em vista, efetivamente, a tomada de consciência da comunidade de destino terrestre é o acontecimento chave do milênio, como diz Morin.

Contudo:
“Estamos em começos grosseiros: os primeiros policelulares eram muito menos complexos que as células neles associadas e só com o passar do tempo desenvolveram organização e geraram emergências e criatividade. Assim será, se ela vier a existir, com a sociedade-mundo. As nossas consciências são subdesenvolvidas. Poderiam atingir níveis de elucidação e de complexidade superiores. [...] Mas poderiam também sofrer regressões e perversões. Poderemos assumir o destino dialógico de sapiens-demens, ou seja, manter a razão sem ficar encerrados nela, conservar a loucura sem nela cair?”, pondera e questiona Morin (2012, p. 295).

Seja como for, fato é que a atual condição psíquica (maturidade reflexiva) de viver humana, implica a possibilidade de repetição do ciclo (mítico e biológico – infância-juventude-adultícia-maturidade reflexiva) com um deslocamento ampliado de consciência numa maior coerência com o mundo natural e é neste sentido que podemos dizer que podemos estar diante – e com a chave nas mãos – de uma nova(segunda)-pré-história-pós-patriarcal/matriarcal-neomatrística-pós-pós-moderna, na integração e realização de um ciclo – sempre pré-história do espírito humano, como diz Morin (ibidem) – onde recobramos consciência da espontaneidade do amar (espaço psíquico humano arcaico/infância), do amar como um conviver conscientemente desejável (espaço psíquico matrístico /juventude das culturas pré-patriarcais, por exemplo, europeias-ocidentais, centradas em uma visão materna do cosmos como aquele que acolhe, contém e nutre dando e tirando na renovação cíclica do existir) na consciência ampliada na dinâmica emocional fundamental da reflexão-ação-ética consciente (maturidade reflexiva), quando desejamos soltar nossas certezas26.

[26 “[...] e nos orientar para a reflexão e ação ética consciente em nosso viver e conviver na antroposfera” (Maturana, H., Yáñez, X., 2009, p. 45)]

E é assim, terminando a escritura deste aporte, com as mãos abertas, que retorno, humilde e audaz, às perguntas que levantamos na primeira parte deste ensaio e com seriedade, após estas reflexões e este exercício, vemos se abrir espaço para o câmbio na sensorialidade íntima que leva à reflexão, como apontam Maturana e Yáñez (2015, p. 449), de desde onde é possível que surja a ampliação da nossa consciência das cegueiras e alienações cognitivas e relacionais que nossos modos de viver-conviver e de geração de mundos trazem ao nosso habitar.

“El fin de la era postmoderna ocurre al iniciarse la era post-post-moderna con nuestro darnos cuenta de que a la vez que somos nosotros mismos quienes creamos el mal-estar de nuestro vivir cotidiano en el daño que generamos en la antropósfera y en la biósfera con nuestras cegueras éticas, sociales y ecológicas, somos al mismo tiempo los únicos que podemos salir del mal-estar y recuperar o generar la armonía de la biósfera y la antropósfera en el bien-estar de nuestro vivir biológico-cultural, en um acto de autonomía reflexiva y de acción de respeto por nosotros mismos” (ibidem, p. 450).


Quem sabe, desde esta ampliação de consciência das nossas cegueiras e alienações, possamos cooperar efetivamente e não apenas no âmbito das nossas descrições, com a co-criação de uma Mátria-Pátria comum a todos os humanos e outros seres vivos e, no interior de nossas comunidades humanas, nas sociedades poli–étnicas e poli-culturais que habitamos, promover uma integração verdadeira, abandonando nossas folhas de figueira, sem vergonha de nos mostrar ao outro tal como somos, e fazer deste encontro de culturas um acontecimento criativo, do qual pode surgir uma nova cultura, outras culturas, na mútua aceitação, respeito e compreensão?

Por fim, ainda gostaríamos de falar algo sobre o afazer científico em nossos dias. Sentimos-pensamos que hoje um traço fundamental do esboço da consciência planetária é este que Maturana reconhece na oposição e rechaço à justificação racional da negação do outro, da outra, por quaisquer tipos de teorias e/ou ideologias negadoras do amor e que se fundam em uma concepção não adequada do humano, bem como o reconhecimento, como vimos anteriormente ao consultar o livro A Árvore do Conhecimento, de que efetivamente no âmago das dificuldades do homem contemporâneo está nosso desconhecimento do conhecer, além de que hoje podemos fazer tudo o que queiramos ou imaginarmos fazer e a conscientização da nossa responsabilidade com respeito ao devir evolutivo da nossa linhagem. Hoje, vivendo na psique da tentação da onipotência e cegueira na crença de que se sabe que se sabe, o afazer científico gera práticas de apropriação da verdade, bem como efeitos destrutivos no entorno natural e alienantes nas pessoas, referentes à autonomia de reflexão e liberdade de ação, contudo, como explica Maturana em um prefácio escrito em 1990 para o livro de Riane Eisler, El Cáliz y la Espada, as teorias científicas surgem no seio das conversações sobre os assuntos públicos na Ágora da Polis grega na prática do conviver democrático e, sendo assim, surgem rompendo com as práticas de apropriação da verdade e então com a norma da cultura patriarcal, formando redes de conversações e reflexões intrinsecamente liberadoras. Então, de acordo com o biólogo chileno, o fundamento do afazer científico, saber-fazer científico (conhecimento) é não patriarcal, e surge de conversações neo-matrísticas e com elas se opondo às conversações patriarcais de apropriação da verdade e dos assuntos que dizem respeito a todos. O afazer científico não é próprio da dinâmica emocional fundamental da apropriação da verdade e veneração da autoridade, nem da dinâmica do domínio da autoridade e alienação no poder ou do domínio da confiança na crença de saber o que se diz saber, na tentação da onipotência, cegueiras e certezas, como aconteceu e acontece, respectivamente, na filosofia antiga e moderna, na ciência moderna e na contemporânea aliada à manipulação tecnológica, à indústria e ao lucro. O afazer científico não é próprio da atitude prometéica ocidental.


Como diz Maturana (2010, p. 136), contrariamente às teorias filosóficas tradicionais, as teorias científicas não se propõem ou surgem, seja desde a intenção de conservar algum princípio, salvar algum valor, proteger alguma crença ou de justificar alguma ação. A teoria científica só busca explicar, não tem qualquer propósito de salvar nada.

“Por esto, y en función de su manera de constitución, las teorías científicas son intrinsecamente liberadoras, y la ciencia como metodología reflexiva es un domínio en el que se aprende el desapego en el respeto al otro aunque no siempre lo vivamos así. [...] Las teorías filosóficas, y en particular as políticas y religiosas, en cambio, son confirmadoras de la cultura en que nacen, muchas veces como argumentos de conservación de algún principio de convivencia de orden ético o moral. En general, empero, las conversaciones de autoridad, control, dominación y poder que forman parte de la red de conversaciones que constituye al patriarcado, atrapan todas las teorías en la apropiación de la verdad y las transforman en instrumentos de dominación a través de la justificación del control del otro en aras de un bien superior” (ibidem, p. 137).

Sendo assim, vivendo atualmente na psique da tentação da onipotência e da certeza, com tal centralidade em relação ao saber/conhecimento científico e tecnológico em nossas vidas, qual convite poderia ser mais adequado do que o convite à suspensão do nosso hábito de cair na tentação da certeza? Assim como pode ser visto todo o livro El Árbol Del Conocimiento, segundo seus autores. Principalmente porque, ao contrário do que queria a filosofia e ciência clássica moderna, com seus ideais de saber/conhecimento, racionalidade/inteligibilidade, e como podemos constatar mediante, por exemplo, a leitura do livro citado anteriormente:

“[...] toda experiência cognitiva inclui aquele que conhece de um modo pessoal, enraizado em sua estrutura biológica, motivo pelo qual toda experiência de certeza
é um fenômeno individual cego em relação ao ato cognitivo do outro, numa solidão que [...] só é transcendida no mundo que criamos junto com ele” (2011, p. 22).

Hoje, quando nos perguntamos como humanizar as relações humanas na era planetária, ao que tudo indica, tal convite é efetivamente fundamental, e só pode ser aceito desde a reflexão e do espaço psíquico do amar, que sempre implica uma ampliação de mirada, no desapego das nossas certezas, no abrir nossas mãos, assumindo o conhecimento do conhecimento como necessidade primeira e a compreensão da condição humana como objetivo principal na abertura para o outro, a outra, no dar-se conta de que sem eles, elas, não temos mundos em que viver. Isso é efetivamente fundamental, se queremos criar uma ruptura não patriarcal na rede de conversações patriarcais, por meio de uma co-inspiração ontológica, no compartilhamento do desejo de gerar continuamente um modo de viver no qual o surgimento da pobreza, do abuso e da destruição da natureza sejam erros que se possam e se queiram corrigir27, pois, não se pode, como viemos fazendo pelo séc. XX e até agora no XXI, enfrentar toda a tirania que o viver e conviver patriarcal-matriarcal gera com as suas mesmas práticas, seja no âmbito do afazer científico ou tecnológico, teórico ou prático, produtivo ou não-produtivo, seja no âmbito doméstico, político, filosófico, artístico, educacional, religioso ou místico:

[27 (Maturana, H., 2002, Emoções E Linguagem Na Educação E Na Política, p. 78)]

“Tampoco es posible generar un modo de convivencia que se realiza en el respeto mutuo y la colaboración si se vive inmerso en las conversaciones de discriminación y competencia que lo niegan. Para salir del patriarcado se requiere cambiar la red de conversaciones que lo constituye generando otra, y el hacer eso desde una reflexión y un deseo que surgen en el patriarcado, requiere tanto de la razón como de la pasión para evitar caer en las conversaciones patriarcales del control y poder que negarían el intento en el mismo inicio” (Maturana, H., 2010, p. 137).

Como vimos, a ciência, o saber-fazer científico é um conhecimento intrinsecamente liberador e potentíssimo para promover espaços de reflexão-ação-ética consciente e uma ruptura não-patriarcal na rede de conversações patriarcais, contudo, como todo afazer humano, será caracterizado de acordo com o espaço psíquico/configuração emocional em que for realizado. Então, estamos dispostos a fazer uma mudança cultural, psíquica, desde o operar no amar, na consensualidade e na ética, na tarefa cotidiana da co-criação e construção de uma comunidade planetária, democrática e ética?

Pois, como diz Morin (2013, p. 356), atualmente, cada um pode agir em prol da humanidade, isto é, contribuir a tomada de consciência da comunidade de destino de todos e inscrever-se nela como cidadão da Terra-Pátria.

***

Bibliografía:
Bacon, F., (1999) Novum Organum. São Paulo: Nova Cultural.
Bateson, G., (1998), Pasos hacia una ecología de la mente. Buenos Aires: Lohelé-Lumen.
Díaz, C., J., D., (2008), Complejidad, globalidade y crisis de la humanidad.
Díaz, C., J., D., (2008), Hacia un nuevo saber. Bogotá: Universidad El Bosque e Kimpres.
Díaz, C., J., D., (2010), Revolución del saber y bioética. Villahermosa: Universidad Juárez Autónoma de Tabasco – Secretaría de Salud del Estado de Tabasco – Universidad de la Habana.
Eisler, R., (1997) El cáliz y la espada la mujer como fuerza en la história. Paz Mexico y Cuatro Vientos.
Hadot, P., (2006) O véu de Ísis ensaio sobre a história da ideia de natureza. São Paulo: Loyola.
Morin, E., (1986), Para sair do século XX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
Morin, E., (1998), Introducción al pensamiento complejo. Barcelona: Gedisa.
Morin, E., Kern, A., B., (2003), Terra-Pátria. Porto Alegre: Sulina.
Morin, E., (2011), O método 2: a vida da vida. Porto Alegre: Sulina.
Morin, E., (2011), Les nuits sont enceintes et nul ne connaît le jour qui naîtra. Le Monde.
Morin, E., (2011), Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez/Brasília, DF: Unesco.
Morin, E., (2012), O método 5: a humanidade da humanidade. Porto Alegre: Sulina.
Morin, E., (2013), A via para o futuro da humanidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
Morin, E., Estamos en un Titanic. Multiversidad Mundo Real Edgar Morin. Documento incluido dentro de la Biblioteca Digital de la Iniciativa Interamericana de Capital Social, Etica y Desarrollo - www.iadb.org/etica .
Morin, E., El paradigma de la complejidad. Multiversidad Mundo Real.
Romesín, H., M., (2002) Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte: UFMG.
Romesín, H., M., Verden-Zöller, G., (2004), Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano. São Paulo, Palas Atenas.
Romesín, H., M., Yáñez, X., D., (2009), Habitar humano em seis ensaios de biologia-cultural. São Paulo: Palas Athenas.
Romesín, H., M., colaboradores, (2009) Matriz Ética do Habitar Humano. Disponível em: https://msamoraes.files.wordpress.com/2014/02/maturana-humberto-et-all-2009-matriz-c3a9tica-do-habitar-humano.pdf
Romesín, H., M., (2010), El sentido de lo humano. Buenos Aires: JC Sáez.
Romesín, H., M., Varela, F., (2011), A árvore do conhecimento as bases biológicas da compreensão humana. São Paulo: Palas Athenas.
Romesín, H., M., Nisis, S., (2014), Transformación en la convivencia. Buenos Aires: JC Sáez
Romesín, H., M., Yáñez, X., D., (2015), El árbol del vivir. Santiago: Escuela Matriztica y MVP.
Serres, M., (2003), Hominescências o começo de uma outra humanidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

Glosario coletivo, Complejidad. Multiversidad Mundo Real.