Algumas reflexões em torno de um dito nietzschiano: Maturidade reflexiva e de ação, seriedade e atenção – Na educação e na espiritualidade.

Publicado por Alexandre Magno Jardim Pimenta em 30/6/2016

Maturidade reflexiva e de ação, seriedade e atenção, na educação e na espiritualidade.


***
I.
Nietzsche, filósofo alemão, escreveu certa vez, que reconhecemos maturidade em alguém, que reconhecemos uma pessoa madura, quando vemos uma pessoa fazer o que faz, seja o que for que ela faça, com a mesma seriedade com que uma criança brinca.

Esse dito nietzschiano é até bastante conhecido e muito citado, contudo, devem ser raras as reflexões – sinceramente não conheço – que o aprofundem, e isso é o que buscamos fazer, na medida de nossas forças, ousada e humildemente, no presente texto.

A constatação e afirmação do filósofo nos surpreende, nos inquieta, nos coloca curiosos, mas, por quê?

Ora, a nosso ver, primeiramente, porque e simplesmente porque, Nietzsche, filósofo-poeta, nos abre uma visibilidade e um sentido diferente para "maturidade", e o que sentimos é que vemos o que antes de entrar em contato e interagir com este dito, simplesmente, não víamos.

A poética do dito nos encanta, nos deixa confusos, nos traz o sentir da dúvida, nos seduz, nos faz refletir... e nos faz refletir, fundamentalmente, como já podemos perceber, sobre o nosso fazer, sobre como fazemos o que fazemos enquanto seres humanos.

É neste estado de espírito que convidamos o leitor para que, juntos, reflitamos.

Então, após desfrutar do sabor do dito, no trânsito do sobressalto do surpreendente e interessados, passamos a analisar o que aí se diz e refletir sobre o que sentimos-pensamos em relação ao que nele é afirmado (a saber): Que um observador pode ver – e dizer que – enquanto observa o mover-se de um ser humano, como e enquanto pessoa adulta-madura fazendo o que faz, seja lá o que for que a pessoa esteja a fazer, que ela faz o que faz com a mesma seriedade com que uma criança brinca.

Vemos então que tudo isso que sentimos-pensamos, sucedeu em nós, no fluir de nossos sentires íntimos, ao interagirmos com tal dito, porque em seu ato poético1, Nietzsche abstrai uma configuração de relações própria de um domínio particular e a apresenta em outro, criando uma abertura para uma visibilidade e um sentido diferente para “maturidade”, em um âmbito reflexivo novo.

[1 Como dizem Humberto Maturana Romesín (biólogo) e Xímena Dávila Yáñez (terapeuta familiar), ambos biólogos-culturais da Escola de Pensamento do Sul do Mundo, sobre o ato-poético no mais recente livro da Escola Matríztica de Santiago do Chile, El Arbol Del Vivir (2016).]

É por isso que a maturidade, relacionada antes, para nós, apenas com o viver-fazer do adulto, como própria deste domínio, aparece relacionada agora com o viver-fazer da criança no viver-fazer do adulto. Assim, nossa visão do viver-fazer do adulto é alterada. Mas, há mais. A "seriedade" que antes estava relacionada também com o viver-fazer adulto aparece como própria do domínio do viver-fazer da criança, podendo agora estar relacionada com e no viver-fazer do adulto, e então, também aparece com uma outra visibilidade. Porém, ainda há mais, pois, com isso, nossa visão do viver-fazer das crianças também é, consequentemente, alterada, e com a mesma radicalidade com que foi alterada nossa visão do viver-fazer adulto, aparecendo-nos já outro, novo, diferente.

Em suma, é por isso, em decorrência do sábio ato poético do filósofo-poeta, ao abstrair uma configuração de relações própria de um domínio particular e apresenta-la em outro, em um âmbito reflexivo novo, nos abrindo uma visibilidade e sentido outros, que passamos a ver a maturidade no adulto e o viver-fazer adulto de maneira nova e diferente, de maneira coerente com a nova visão do viver-fazer da criança e também com uma outra concepção em formação do que tínhamos por seriedade. Assim é que passamos a ver o que antes de entrar em contato e interagir com este dito – já agora em um outro âmbito reflexivo e em um outro emocionar no fluir de nossos sentires íntimos –, simplesmente, não víamos.

Em verdade, se nos aparece tudo como novo!

Afinal, se queremos e sabemos ver, tanto o viver-fazer adulto quanto o viver-fazer da criança se transformam, isso, na medida em que também se unem, se complementam, em que não são apresentados mais como viveres-fazeres antagônicos e distantes. Mas também, todos os nossos fazeres e afazeres, de todos os âmbitos, também nossas atitudes, condutas e ações, podem agora surgir, no processo de nossas reflexões sobre o como estamos a fazer o que fazemos, com uma outra visibilidade e um sentido diferente para nós, na medida em que estamos interessados e desejamos compreender, nesta e por estas novas visibilidades e novos sentidos, o que sejam maturidade e seriedade, sentindo a importância vital, para nós, de tudo que possa dizer respeito ao nosso fazer e como fazemos o que fazemos enquanto fazemos o que estamos a fazer. Além de que, se quisermos estar atentos, poderemos também entender o que elas têm que ver com a educação, entendida aqui como processo de transformação na convivência, no processo de crescimento e desenvolvimento humano e com a espiritualidade, mas também com a saúde física e psíquica, mesmo que apenas esboçadamente, em seus traços, a nosso ver, mais fundamentais.

II.
De passagem, de acordo com o dizíamos que se passa conosco na interação com este dito nietzschiano, vale sugerir que algo assim também pode se passar conosco ao lermos – em outros âmbitos de pensar-fazer, místico e religioso, muito embora também no poético – na Bíblia, em Marcos, as palavras de Jesus sobre as crianças, nossa transformação [pela qual nos tornamos semelhantes às crianças] e o viver no Reino dos Céus, no Reino de Deus. Não é, mesmo?

Seja como for, retornando ao dito de Nietzsche: Arriscamos dizer, de acordo com o que sentimos-pensamos, após muito tempo degustando e refletindo sobre este dito, de tê-lo como nosso acompanhante em nossas reflexões e conversas sobre o ser humano em seu, nosso, viver-con-viver, que o filósofo, consciente ou inconscientemente, nos aponta basicamente o seguinte – Se, no crescimento-desenvolvimento de um ser humano, algo do viver-fazer da criança, especificamente, a "seriedade no brincar", não é conservada até a adultícia desta pessoa, esta pessoa não se torna um ser humano maduro, porém, se se conserva, esta pessoa se torna um ser humano maduro; o que pode ser distinguido por um observador no viver-fazer desta pessoa.

E, isso por quê?

Porque sentimos-pensamos que de acordo com o dito é próprio e espontâneo do viver-fazer das crias dos seres humanos, "brincar seriamente", "brincar com seriedade"; levando-se em conta que aqui fala-se "daquela seriedade" que alguém pode ver em uma criança brincando, da mesma com que a criança, esta e/ou aquela, brinca(m).

Sendo assim, ora, se isto não se perde no crescimento-desenvolvimento de um ser humano, ao decorrer da infância e da juventude e na adultícia, este ser humano se transforma em sua história individual em uma pessoa adulta madura. E, em seu viver, atuar-fazer, pensar e refletir, em seu falar e conversar, veríamos – caso fossemos alguém de seu convívio, com quem interagimos recorrentemente e acompanhamos seu crescimento, com quem ela também se transformou – aquela mesma seriedade, em seu viver-fazer adulto, com que ela brincava em seu viver-fazer enquanto era uma criança; claro, se isso pôde ocorrer, o livre brincar, de acordo com a co-existência que lhe tocou viver-con-viver. Do contrário, caso isso não pôde ter ocorrido e não ocorra, veríamos/teríamos – para usar aqui do “manuelês”2 –, um “adúltero” e não uma pessoa adulta que pode desfrutar de sua maturidade reflexiva e de ação.

[2 Referência ao poeta Manoel de Barros.]

Ora, esta seriedade no fazer não é algo que se adquire com o tempo, pelo contrário, é algo que se perde, que se deixa de ter no viver-fazer, que deixa de ser conservada no viver-fazer de uma pessoa. Talvez, possa ser recuperada, mas isso não é a questão aqui em jogo, ao menos, por enquanto. Esta seriedade do viver-fazer-brincante das crianças, não é algo que o adulto ao fazer o que faz, imitaria ou se esforçaria para adquirir – fazendo que faz o que quer que seja que faça com a mesma seriedade-brincante das crianças –, simplesmente, sabe-se lá por qual prática e por quais regras, ou quais exercícios, meditações e meditações, etc., enfim, seja lá por quais forem seus esforços, conscientes ou inconscientes.

Então, se faz sentido o que foi dito no tecer dos últimos parágrafos e se conseguimos seduzir o atento leitor com nosso convite reflexivo, gostaríamos agora de tratar mais especificamente das visibilidades e sentidos diferentes que nos apresenta o dito de Nietzsche, da maturidade-seriedade no fazer adulto e da seriedade do brincar das crianças, do viver-fazer das crianças. Após, retornaremos à esta leitura do dito que acima arriscamos propor ao silen-cioso leitor.

III.
De acordo com Gerda Verden-Zöller3, psicóloga alemã, no cotidiano, distinguimos como “brincadeira” qualquer atividade vivida no presente de sua realização e desempenhada de modo emocional, sem nenhum propósito que lhe seja alheio. Em outras palavras, diz Verden-Zöller, que falamos de brincadeira cada vez que observamos seres humanos ou outros animais envolvidos no desfrute do que fazem, como se seu fazer não tivesse nenhum objetivo externo.

[3 Em Amar e brincar fundamentos esquecidos do humano (escrito em parceria com Maturana).]

Não é o mesmo que vemos e designamos, cada vez que observamos seres humanos ou outros animais fluindo em suas interações-relações desta maneira, como cooperação?

Seja como for, retomando: A criança ao brincar-brincando ou estando no livre jogar, faz o que faz estando presentemente no que está a fazer, e não em um âmbito de expectativas. Um observador pode ver que quando as crianças estão a brincar, toda a atenção delas está sempre voltada para o que estão a fazer presentemente, e não para mais além da atividade, das relações e interações mesmas. Não esperam nada daquilo, como resultados do que estão a fazer, pois estão a desfrutar o que fazem pelo puro prazer de estarem a fazer o que fazem e com quem fazem, com outros ou consigo mesmas – E tudo o que se passa ali passa vivido no presente de sua realização e é desempenhado de modo emocional, validado em si mesmo. De modo que tudo que assim se passa, ainda de acordo com Verden-Zöller, como vimos logo acima, pode ser caracterizado como brincar ou livre jogar, quaisquer atividades que assim vemos ocorrer em qualquer âmbito do nosso sentir-pensar, atuar-fazer.


Então, com o que mostra a psicóloga alemã desde seus estudos do crescimento-desenvolvimento normal das crianças, quando uma criança brinca, vemos que ela está envolvida completamente no que faz enquanto faz o que faz. Trazendo isso para o nosso presente con-texto e lançando mão de um exemplo: Quando observamos que estão a brincar de médico, elas, as crianças, são enquanto fazem o que fazem, seriamente médicos e/ou médicas, se brincam de montar num “cavalo” é isso que elas fazem e o fazem à sério.

Experimentem – e todos que já brincaram sabem disso – brincar com crianças sem estar realmente envolvido no que se está fazendo. Sabemos que, simplesmente, não dá certo, não se passa. Sabemos também que elas são muito sensíveis quanto a isso e logo percebem que não estamos no estado de ânimo para tal. A atividade não flui, pois, as crianças percebem rapidamente que não
estamos realmente envolvidos e com toda atenção no que fazemos, que não estamos seriamente a brincar de médico ou montando à cavalo, que naquele momento não somos seriamente, impecavelmente médicos ou cavaleiros que estão fazendo uma operação, um diagnóstico, que estão indo salvar a amada ou o amado, que estão travando um duelo... – E, é preciso ter em mente, como aponta também Verden-Zöller, que nada disso, brincar de médico, montar à cavalo, etc., é uma preparação para nada para as crianças. Isto é, a criança ao brincar disso ou daquilo não está se preparando para ser isso ou aquilo.

O brincar não tem nada que ver com o futuro – e no mesmo sentido –, nem com o passado. Brincar com criança, esta atividade “seríssima”, sabemos nós, basta que nos atentemos para nossas relações com nossas crianças e das crianças com outras crianças, jovens e animais, só flui quando fazemos o que fazemos em total aceitação, sem quaisquer considerações que neguem a legitimidade da atividade de modo que não haja propósitos exteriores em jogo, alheios ao livre brincar no presente, com toda atenção-paixão, sem esforço.

Algo de passagem para se fazer notar e também ter em mente daqui para frente em nossas reflexões, é que as crianças enquanto estão desfrutando do que fazem e com quem fazem no livre brincar, sempre dizem: De novo, mais uma vez, quero novamente! Por quê, como isso se dá? A resposta não está no que seja que estão a fazer, na natureza da atividade – desde que seja algo que elas queiram fazer –, mas sim, no como estão a viver-fazer. Tudo o que fazem ao brincar ocorre sem esforço no livre jogar, e assim é que, mesmo que em algum momento elas se cansem fisicamente em decorrência do gasto energético requerido pela atividade, elas não se aborrecem com o que fazem e o que fazem, mesmo na repetição – o que nos gera, nos adultos, geralmente, rapidamente fastio –, para elas, assim nos parece, é sempre novo e há sempre frescor4.

[4 “O que eu quero dizer pode ver-se, por exemplo, nas crianças, quando encontram algum jogo ou brincadeira de que elas especialmente gostam. Uma criança balanceia ritmicamente as pernas devido a excesso e não ausência de vida. As crianças são dotadas de abundante vitalidade, são essencialmente impetuosas e livres e, por isso, querem as coisas repetidas e inalteradas. É por essa razão que dizem <<torna a fazer>>, e o adulto repete-lhe a mesma coisa até ficar quase morto. Os adultos não são suficientemente fortes para exultarem na monotonia [...]”, diz o escritor Gilbert Keith Chesterton em seu livro Ortodoxia.]

Tendo tudo isso em vista, já podemos perceber que a “seriedade” aqui em questão não tem nada com o “ser carrancudo” do “adúltero”. O que os “adúlteros” fazem “seriamente” não o fazem como quem brinca, isto é, pelo puro prazer de fazer o que fazem. Tudo o que fazem é feito com esforço – Até porque, sem esforço não há mérito algum em nada; é o que geralmente sentimos-pensamos em nosso atual presente cultural. Por isso, logo se cansam, se aborrecem, se queixam, sentem o que fazem como monótono, porém, seguem arrastando-se no que fazem e como estão a fazer até o limite do adoecer de corpo e de alma, fluindo na desarmonia e no mal-estar.

A seriedade com que as crianças brincam está – como geralmente podemos observar, se as vemos – fundamentalmente, em sua atenção voltada para o que estão a fazer presentemente e com quem estão a fazer, pois, estão no que estão presentemente e não em um âmbito de expectativas, de espera e desejos de resultados ou alcance de quaisquer objetivos exteriores à atividade desempenhada emocionalmente e validada em si mesma.

Esta seriedade no brincar, no fazer e no atuar das crianças, se se conserva em um ser humano, como dizíamos, porque não é negada em seu viver-con-viver no seu crescimento-desenvolvimento, torna uma pessoa um ser humano maduro e tal maturidade pode ser vista, afirmamos agora, como a seriedade na atenção desta pessoa que está completamente envolvida no que faz enquanto faz o que faz, e em sua impecabilidade no fazer, a mesma com que uma criança brinca.

Atenção, como dizia J. Krishnamurti, é como chama – Em verdade, é onde nós realmente estamos, estamos onde nossa atenção está e não, necessariamente, onde um observador vê que está o nosso corpo.

Um observador poderá distinguir no viver-fazer desta pessoa que observa, como e enquanto um ser humano maduro, em seu mover-se nos fazeres e afazeres de sua cotidianeidade, em suas ações, atitude e condutas, esta maturidade reflexiva e de ação na seriedade-atenciosa no fazer o que se faz e ver também que o que se faz e como se faz o que ela está a fazer ocorre e se dá em uma atividade qualquer vivida no presente de sua realização e desempenhada de modo emocional e validada em si mesma, sem nenhum propósito que lhe seja alheio, com que então poderá adequadamente caracterizar e designar, se for o caso, tal atividade como brincadeira, brincar, livre jogar.

Poderá assim ver um ser humano movendo-se na harmonia, em gestos, atos e palavras, no desfrute desta harmonia no fluir do bem-estar no fazer o que faz pelo puro prazer de fazer o que faz e com quem faz, como se seu fazer não tivesse nenhum objetivo externo, com sua atenção – sem esforço – voltada para o que está a fazer presentemente, e não para mais além desta atividade mesma. E, como vimos acima e mostra Verden-Zöller, tudo isso seja o que for que víssemos, isto é, seja qual fosse a natureza da atividade, corresponda ela a qualquer que seja o domínio do viver, senti-pensar, do atuar e do fazer humano, em qualquer âmbito que ocorresse, poderia ser caracterizado como brincar ou livre jogar.

Contudo, ainda há mais, pois: O que podemos esperar legitimamente de um ser humano adulto maduro, no sentido de o respeitar enquanto ser vivo humano e uma pessoa adulta, autônoma e responsável? Ora, fundamentalmente, que este indivíduo, ele ou ela, faça o que faça desde sua autonomia de reflexão e liberdade de ação, dizendo sim e não, fazendo ou não fazendo, seja o que for e como for, desde si mesmo e não por conta de quaisquer pressões exteriores. Enfim, alguém que confia em si mesmo e que se respeita, em quem também podemos confiar.

Quem assim age e faz, desde sua autonomia de reflexão e liberdade de ação, age e faz enquanto “adulto”, e seja qual for sua idade, seja qual for a situação em que esta pessoa esteja, seja como for que ela seja definida socialmente, juridicamente, etc., pode-se dizer que agiu e fez como adulto, ou que começou a agir como um ser humano adulto, individual e socialmente responsável, consciente de que pode eleger e/ou escolher seus desejos e como fazer o que faz ou o que tenha de fazer, consciente do que quer ou não fazer com o que vai fazer, e de que pode refletir sobre quais ações em tal ou tal situação são ações adequadas ou inadequadas, inoportunas ou oportunas, éticas ou não-éticas, sabendo que assume, porque quer, mesmo que não sabia quais serão, por não poder ver, todas as consequências destas mesmas ações e condutas, que afinal, geram e legitimam os mundos que vivemos e nos quais convivemos.


Sendo assim, digamos que, um ser humano na sua “melhor forma”, isto é, no sentido de ser-estar, sentir-fazer, pensar, atuar e dizer, como e enquanto um ser humano adulto maduro, não pode prescindir da seriedade atenta do brincar, do livre jogar, espontânea no desfrutar do que se faz sem esforço pelo puro e simples prazer de fazer o que se faz e com quem se faz, em quaisquer âmbitos do sentir-pensar-atuar-fazer, em suas interações e relações. Será que podemos confiar na seriedade de nossas ações sem atender-acolher seriamente, com toda a atenção, sem distorções, o que presentemente fazemos e como fazemos o que fazemos, o que e como falamos o que falamos, o que sentimos-pensamos em nossas interações-relações com os outros?

E isso é algo que se conserva ou não se conserva – como sugerimos acima em nossa leitura do dito nietzschiano –, no crescimento-desenvolvimento das crianças e dos jovens até a adultícia. Não é algo que o adulto imita do viver-fazer da criança se infantilizando, não é algo que se adquire simplesmente por meio de uma ou várias práticas e regras, exercícios físicos-corporais-espirituais, etc., como um último ornamento, por mais pomposo ou elevado que seja, para envelhecer. Principalmente, no fazer tudo isso, seja o que for, com esforço, no esforço e na busca pelo controle de si mesmo e dos outros; o que acaba, mais cedo do que tarde, por resultar em cansaço físico e mental, em desarmonia e no mal-estar no viver-fazer. No embrutecimento e alienação na obediência, em frustração e na desolação e não na emancipação e na saúde e bem-estar físico e psíquico, em autonomia de reflexão e liberdade de ação. Não em maturidade-seriedade-atenciosa no agir, no atuar-fazer e no dizer.

IV.
Pensamos que a leitura que fizemos e propusemos do dito de Nietzsche é adequada. Como dissemos este dito acompanha nossas reflexões desde há muito, mas, nossa visão dele, assim sentimos-pensamos agora, se tornou mais profunda e completa, quando passamos a compreender mais amplamente o nosso ser biológico, em verdade, nosso ser biológico-cultural de seres humanos.
Pensamos que tal leitura é adequada, pelo que já foi dito até aqui, mas também porque hoje sabemos que a conservação desta seriedade com que a criança brinca na e para a maturidade de um ser humano adulto, só é possível, como explicam Maturana e Verden-Zoller, pois, somos seres vivos neotênicos ou em que se reconhece características neotênicas muito marcantes, fundamentais para e em nosso modo de viver-con-viver enquanto seres vivos animais amorosos que vivem no linguajear, no conversar e no refletir.


Trata-se de um fato bastante conhecido entre os biólogos. Isto é, de que em nós, seres vivos humanos, se reconhece características próprias de uma expansão e conservação dos traços da infância e juventude na vida adulta – Pensem em toda a poesia-vida de Manoel de Barros, quem dizia só ter tido infância, se eu não me engano, três.

Como explicam os referidos autores, somos o presente de uma linhagem animal que surgiu definida através da conservação da relação materno-infantil de aceitação mútua na confiança e na proximidade corporal, no livre brincar-jogar, de uma maneira que se estendeu além da idade da reprodução, num processo evolutivo neotênico. Como afirmam, esta expansão da infância na vida adulta (neotênia) implicou também na dinâmica emocional, em que a conservação da dinâmica relacional amorosa da infância na vida adulta guiou o curso das mudanças corporais relacionais-operacionais que eventualmente nos constituíram como a classe de animais que somos, como seres linguajeantes.

Sendo assim, acreditamos que Nietzsche, consciente ou inconscientemente, aponta-nos essa conservação necessária – da seriedade-atenciosa sem esforço com que a criança brinca – para chegarmos a nos tornar seres humanos adultos maduros. Mesmo que o filósofo não soubesse do que hoje podemos ver-saber com e desde as explicações da biologia, seja como for, Nietzsche, a seu modo, percebeu e compreendeu algo de tudo isso em suas reflexões sobre nosso viver-fazer e como fazemos o que fazemos em nosso viver-con-viver humano.

V.
Pois bem, mas ainda gostaríamos, para encerrar, de dizer algo mais e o que se dirá adiante se dirá mediante reflexões sugeridas, recentemente, por Humberto Maturana e Xímena Dávila5, em torno do atuar-com e sem-esforço. Acreditamos que com isso nossas reflexões sobre o dito nietzschiano, sobre o viver-fazer adulto e das crianças, sobre como fazemos o que fazemos, se expandirão e ganharão em profundidade.

[5 No livro El Arbol del Vivir.]

De acordo com estes biólogos-culturais da Escola de Pensamento do Sul do Mundo – O atuar-com-esforço [que corresponde ao “viver no inferno”] ocorre no fluir de conversações biológicas-culturais nas quais nos encontramos nos sentindo forçados a fazer o que não querermos fazer e nos submergimos então em uma encruzilhada emocional-cultural de deveres e desejos opostos que nos leva a atuar sem respeito por nós mesmos. Assim, no atuar-com-esforço, o cansaço, fastio, tédio ou a queixa inundam nossas almas, de modo que, quando este atuar nos sucede como um modo cultural aceitado de viver e conviver, corremos o risco de enfermar-nos de corpo e de alma.
Já o atuar-sem-esforço ou atuar espontâneo [que corresponde ao “viver no paraíso”], em todas as dimensões do viver, nos ocorre quando vivemos em redes de conversações nas quais nos encontramos espontaneamente na harmonia de fazer o que queremos fazer no prazer de fazê-lo. Assim, no atuar-sem-esforço, quando este atuar nos sucede como um modo natural de viver, vivemos o bem-estar do corpo e da alma na unidade ecológica organismo-nicho de nosso ser biológico-cultural e deste modo é como surge, espontaneamente, a alegria de viver relacionando-nos harmonicamente com nosso entorno, humano e não-humano.

Ainda de acordo com os autores – O viver-fazer no atuar-sem-esforço surge em nosso viver-con-viver cotidiano como toda coisa feita sem contradição emocional, em completa coerência sensorial-operacional-relacional com a circunstância na qual se faz o que se faz. Tudo que assim se passa se vive como um fazer-sem-esforço, isso, independentemente do gasto energético envolvido no que se faz. E, isto sucede, quando alguém faz o que faz porque quer fazer no prazer de fazê-lo no ânimo íntimo de estar plenamente no fazer o que se faz.

Assim, falamos do atuar-com-esforço quando nos referimos à configuração de sentires íntimos de mal-estar que vive uma pessoa que faz o que faz em uma contradição emocional ou conflito de desejos. E falamos do atuar-sem-esforço quando nos referimos à configuração de sentires íntimos de bem-estar vivida por uma pessoa que faz o que faz sem contradição emocional, isto é, sem conflito de desejos.

Ora, como vimos, a seriedade com que as crianças brincam está, fundamentalmente, em sua atenção voltada para o que estão a fazer, pois, estão no que estão presentemente e não em um âmbito de expectativas, de deveres impostos, de espera de resultados ou alcance de quaisquer objetivos exteriores à atividade desempenhada emocionalmente e validada em si mesma, no puro e simples desfrute de estarem a fazer o que estão a fazer e com quem estão a fazer o que fazem. Também como vimos, a maturidade em um ser humano adulto pode ser reconhecida como essa mesma seriedade na atenção de uma pessoa que está completamente envolvida no que faz enquanto faz o que faz, em sua impecabilidade no fazer o que faz porque quer fazer seja lá o que for que faça, seja lá o que e onde faça, profissional ou não profissionalmente, e no âmbito de suas relações sociais e não sociais diárias. A seriedade com que a criança brinca aparece na maturidade de um ser humano adulto, fundamentalmente, em sua atenção sem esforço voltada para o que se está a fazer presentemente, quando vemos que tal ou tal pessoa está no que está e não em um âmbito de expectativas e/ou, de acordo com o que vimos logo acima, em um conflito emocional de desejos contraditórios.

Mas, como mostram largamente os referidos autores, no fluir de nosso viver, nós seres humanos nos encontramos operando como pessoas que fazemos o que fazemos desde configurações de sentires íntimos que guiam, em cada instante de nosso presente cambiante contínuo, a conservação e transformação do espaço-psíquico interacional-relacional ou fluxo de fazeres e emoções do contínuo agora da realização de nosso viver. Sendo assim, quando vemos uma criança a brincar ou um adulto fazendo o que faz com a mesma seriedade com que uma criança brinca, com sua atenção sem esforço voltada para o que está a fazer enquanto faz o que faz, qual o sentir-íntimo ou ânimo íntimo, mais precisamente, em que a criança ou esta pessoa está?

Ora, de acordo com os autores do El Arbol del Vivir, uma pessoa está no ânimo íntimo do brincar no brincar ou do livre jogar-jogando quando faz o que faz com atenção ao que está fazendo em um presente sem passado nem futuro, consciente, no entanto, da circunstância na qual se está fazendo o que se está fazendo, e dando-se conta dos possíveis resultados, desejáveis ou não desejáveis, do que se faz sem distrair-se em seu fazer pelos desejos que possa ter do que suceda ou que se quer que suceda.

De modo que, ao observarmos um ser humano maduro ao fazer o que faz, veremos um ser humano movendo-se na harmonia, em atos e palavras, em fazeres e afazeres, atitude e condutas, no desfrute desta harmonia no fluir do bem-estar no fazer o que se faz e com quem se faz relacionando-se harmonicamente com seu entorno – do que surge a alegria de viver-con-viver –, porque se quer fazer, viver e conviver, independentemente de compromissos e exigências, e livre de deveres e desejos opostos, como se seu fazer não tivesse nenhum objetivo externo, com sua atenção, livre do embate entre distraída e concentrada promovido por desejos opostos, sem-esforço voltada para o que está a fazer presentemente. E poderemos ver que o que guia de momento em momento seu atuar e não atuar ou seu atuar pelo não atuar, seu fazer e não fazer ou seu fazer pelo não fazer, é o ânimo íntimo de brincar-brincando de jogar-jogando no amar-amando, isto é, na aceitação e respeito de si e do outro como legítimo outro na convivência consigo; de modo que, qualquer atividade que o víssemos fazer no momento em que o observássemos, poderia ser caracterizada como brincadeira ou livre jogar no jogar, independentemente da natureza da atividade que realizasse ou a quantidade de energia que tal atividade requeresse para e em sua realização.

Pelo que diríamos que tal pessoa é uma, está uma pessoa madura e enquanto adulta, agindo desde o centro ético de si mesma, desfruta de maturidade em sua autonomia de reflexão e liberdade de ação, ao distinguirmos em seu mover-se ao fazer o que esteja a fazer, a mesma séria-atenção com que uma criança brinca, atuando – sem esforço – no ânimo de estar plenamente no fazer o que se faz, isto é, no ânimo de brincar-brincando, em harmonia corporal, psíquica e emocional.

O atuar-no-esforço ocorre em uma pessoa quando esta se encontra apegada a desejos contraditórios, o que reconhecemos em nós mesmos ou nos outros quando fazemos o que fazemos de forma a sentir que “queremos e não queremos” fazer o que estamos fazendo. Este atuar é que vai aos poucos minando e abafando aquela alegre e sadia, séria-atenciosa conduta inteligente e criativa das crianças, a aceitação de, a confiança em e o respeito por si mesmo(a) no contínuo, inconsciente e consciente, e espontâneo, inevitável processo de formação-aprendizagem – Isto, na medida em que vai embrutecendo e distorcendo a seriedade atenciosa com que atendem o que
estão a fazer presentemente, com que acolhem tudo o que surge a existir em suas distinções, quando não há contradição emocional e não são negadas na convivência. O apego à desejos contraditórios, o sentir o conflito emocional de desejar e não desejar, de querer e não querer fazer o que, todavia, se está a fazer, é que nos põe no caminho da desatenção, da não-seriedade-brincante e da irresponsabilidade, da indiferença, do descaso, no caminho da distração, da cegueira e do embrutecimento, que nos tira do centro de nós mesmos, nos alienando – em uma vida distante do auto-respeito e do amar-se – aos poucos, de nossa autonomia de reflexão e liberdade de ação, impedido a maturação da maturidade reflexiva e de ação.

A diferença do atuar-sem-esforço, como dizem Maturana e Dávila, está em que quando este nos ocorre nos encontramos em harmonia emocional com nós mesmos e fazemos o que fazemos em um fluxo sensorial-operacional-relacional de coerências com as circunstâncias em que vivemos, deixando-as aparecer no agora do presente contínuo cambiante do nosso viver de uma maneira que não é distorcida por expectativas, exigências, desconfianças, medos ou urgências impacientes. O atuar-sem-esforço ocorre quando fazemos o que fazemos no e pelo puro prazer de fazer o que estamos fazendo, quando estamos no que estamos presente e plenamente, no fluir de um presente cambiante contínuo sem passado nem futuro.

Como pudemos ver, então, o que guia, quando surge, raro em nosso presente cultural atual, o atuar-sem-esforço em nosso viver-fazer é o ânimo íntimo do brincar ou livre jogar, o ânimo em que se está plenamente no que se está, sem contradição emocional, e o atuar-com-esforço é guiado pelo ânimo íntimo do competir, do comparar o que se faz, comparar-se, comparar-nos, e da busca de alcançar tal ou tal resultado ou objetivo; é neste ânimo íntimo que submergimos no conflito emocional, quando nos surgem as expectativas, etc...

De acordo com o que sentimos-pensamos, o que Nietzsche constata em um ser humano adulto maduro – a nosso ver e de acordo com nossa leitura do dito aqui em questão, partindo do exposto até aqui sobre o atuar com e sem esforço – é a seriedade atenciosa, a mesma que constata nas crianças brincando, a atenção sem-esforço que está no que está presentemente, sem conflito ou contradição emocional, sem distorções, com que uma pessoa faz o que faz no animo íntimo do brincar no brincar, do brincar-brincando, do livre jogar no jogar-jogando, no presente cambiante contínuo, sem passado nem futuro, onde se sente como o centro do cosmos em que vive e convive, no centro de si mesmo(a) atuando e fazendo o que se faz sem desejos contraditórios desde sua autonomia de reflexão e liberdade de ação, fluindo em harmonia emocional consigo mesma(o) e harmonicamente com seu entorno, na alegria de viver nas coerências do fluxo sensorial-operacional-relacional que sucedem nas circunstâncias em que se vive presentemente, deixando-as aparecer no agora do presente contínuo cambiante de seu viver-con-viver, sem distorções.

Como quisemos mostrar, o atuar-sem-esforço e no ânimo íntimo do livre brincar, é central, fundamental para esta seriedade atenciosa com que atendemos, acolhemos, seja o que estivermos fazendo e quem for com que estivermos nos relacionando e interagindo presentemente, enquanto pessoas adultas maduras e crianças. E, de acordo com nossa leitura do dito nietzschiano, isso, como próprio das crias dos seres humanos, seres vivos animais linguajeantes e amorosos, perde-se no decorrer da história de crescimento-desenvolvimento de uma pessoa ou se conserva de acordo com a convivência que lhe tocar viver, fundamentalmente, com outros adultos, jovens e outras crianças. Não é algo que adquirimos quando chegamos a ser adultos e assim nos tornamos maduros, é algo que conservamos ou não conservamos enquanto seres vivos animais neotênicos ao entrar na e viver a adultícia em nosso processo de crescimento-desenvolvimento biológico-cultural, de trans-formação-aprendizagem ininterrupto até que nos desintegremos, isto é, morrermos.

Se, no decurso do nosso viver-con-viver, deixamos de conservar esta seriedade atenciosa ao viver-fazer no atuar-com-esforço (distantes do auto e do alter respeito e aceitação) animados intimamente pelo competir pelo comparar e buscar objetivos, resultados a qualquer preço, sim, pode surgir e ser recuperada – E, agora, chega o momento, então, de nos atentar para essa questão.
A possibilidade disso se dar, de acordo com os biólogos-culturais chilenos, está na constituição mesma de nosso viver humano, imerso em redes de conversações, pois, nessa constituição mesma está a possibilidade de aparecimento seja dos sentires íntimos do “paraíso”, seja do sentires íntimos do “inferno”, estando então também, em nosso viver-con-viver em redes de conversações, o podermos gerar conversações nas quais os sentires íntimos do “inferno” possam desaparecer e nas quais os sentires íntimos do “paraíso” possam ser recuperados.

Contudo, como já dissemos e apontamos algumas vezes até aqui, não é algo que se adquire, como uma coisa qualquer que se perde e se recupera. Agimos dessa maneira, quando, sentindo que já não queremos mais viver-atuar-fazer-com-esforço, pensamos, imaginamos, lemos ou ouvimos falar que tal atenção está intimamente relacionada com o atuar-sem-esforço, ou com o que as várias tradições espirituais denominam como “caminho”, incomodados pelo sofrimento na conservação de uma dor, quando nos revoltamos contra nossas circunstâncias de vida e convivência e queremos muda-las, partindo então em busca de caminhos, vias, práticas, códigos de regras, exercícios de meditações reflexivas especiais, corporais e espirituais, ocidentais ou orientais, da sabedoria das culturas indígenas, das tradições filosóficas, religiosas e místicas, nos avanços da tecnologia, da medicina, em formas de se relacionar consigo mesmo, com os outros e o mundo natural que sentimos nos envolve e sustêm, outros modos de viver-fazer e con-viver, etc...

E ao agirmos assim nesta busca, experimentamos e fazemos tudo que fazemos nesta busca, geralmente, em nosso presente cultural, crendo que algo entre isso tudo nos levará a esse viver-atuar-fazer-sem-esforço e a obter esta atenção, ou um pouco disso ou daquilo misturados, se nos aplicarmos, como dizem Maturana e Dávila, em um esforço consciente de efetivá-lo, esforço
consciente este que, de fato, todavia, se constitui em uma dificuldade ainda maior.

Então, já neste ponto fica claro que querer alcançar, recuperar, realizar o viver-fazer-sem-esforço pelo viver-fazer-com-esforço é algo como querer dissipar a escuridão que nos cega com mais escuridão.

Contudo, este comportamento não deve nos surpreender e não é nada estranho que apareça nas circunstâncias em que vivemos e convivemos em nosso atual presente cultural, já que nele acontece de vivermos de um tal modo, com uma tal orientação na existência, como bem observa Verden-Zöller, que trabalhamos para alcançar um fim, não descansamos simplesmente, nós o fazemos com o propósito de recuperar energias, não comemos simplesmente, ingerimos alimentos nutritivos, não brincamos simplesmente com nossas crianças, nós as preparamos para o futuro. Em uma cultura onde cremos que nosso viver e conviver deve ser guiado por teorias explicativas racionais, como salientam os dois biólogos-culturais. Onde e quando vivemos insensibilizados continuamente diante o presente e nossa orientação no atuar e no emocionear, bem como no aprender, faz com que vivamos com nossa atenção dirigida para um futuro e/ou para um passado que só acontecem no espaço descritivo de nossas expectativas ou queixas, fora do domínio de nossas ações num dado momento – Isso, principalmente, por conta da centralidade da produção em nossa atual cultura patriarcal-matriarcal em uma dinâmica emocional de apropriação, de modo que vivemos, fundamentalmente, no ânimo íntimo da competição, da comparação e da busca por objetivos e resultados, correspondente ao atuar-com-esforço em conversações que geram e conservam os sentiremos íntimos do “inferno”.

O que precisa se dar é uma passagem, se queremos, do viver-fazer no atuar-com-esforço ao viver-fazer no atuar-sem-esforço, de modo que desapareçam os sentires íntimos coerentes com o viver-fazer no atuar-com-esforço e surjam e sejam recuperados os sentires íntimos do viver-fazer no atuar-sem-esforço, em harmonia emocional consigo mesmo no fluxo sensorial-operacional-relacional das coerências em nossas circunstâncias de vida atuais. Esta passagem implica, como mostram Maturana e Dávila, para nós como seres com consciência de si, uma nova forma de viver e sentir reflexivo. Então, essa passagem requer de nós mesmos uma transformação de nossos sentires íntimos na qual abandonemos a crença de que nosso viver e conviver deve ser guiado por teorias explicativas que nos dão segurança por serem racionais, e de modo consciente aceitemos que os sentires íntimos e as emoções são o fundamento de tudo o que fazemos, e que o que queremos mais profundamente de maneira inconsciente, é que a configuração de sentires íntimos do amar constitua o emocionar que funda e guia nossas dinâmicas sensoriais-operacionais-relacionais em todas as dimensões de nosso viver-conviver cotidiano.

Sem uma tal transformação de nossos sentires íntimos, no desapego de nossas crenças e certezas, não podemos efetuar o passo que nos leva do viver-fazer no atuar-com-esforço (“viver no inferno”) ao viver-fazer no atuar-sem-esforço (“viver no paraíso”), sem uma tal transformação não viveremos uma nova forma de viver e sentir reflexivo em que a consciência do fazer o que se faz não altere o fazer em questão.


Para tal, é fundamental o dar-se conta de que o amar é a fonte de bem-estar, de expansão de consciência e visão, de inteligência e harmonia física, psíquica e emocional, de que qualquer caminho desejável, se não nos é imposto, pode ser um caminho de realização e liberdade, se é trilhado como um caminho de amor.

Se o que se quer, se o que queremos, é o caminho do bem-estar, o qual, quando é vivido, como dizem os pesquisadores6 do Instituto Matríztico, a reflexão apenas mostra sem descrevê-lo que o que se vive só se pode viver no que as tradições espirituais chamam de “o caminho”, então é preciso que nos perguntemos por qual é o viver no bem-estar que faz do viver um viver no caminho espiritual sem falar do caminho espiritual: “Qual é o lampejo relacional que, conservado no fluxo cambiante da vida humana, resulta espontaneamente na ampliação do entendimento sem palavras que leva a viver aquilo que um observador chamaria de viver no caminho do espiritual?”.

[6 O grande, o pequeno, o humano: Reflexões prévias à saúde.]

Aqui, humilde e sinceramente (sem cera), fazemos nossa a reposta dos dois biólogos-culturais, a saber, “é o caminho do amar”.

Nossa dificuldade, dizem, surge quando em nosso viver humano em redes de conversações desenhadoras de mundos, criamos aspirações, exigências e expectativas e imaginamos que tem que haver algum procedimento efetivo que nos leve a viver na harmonia psíquica-corporal e no bem-estar, mas o esforço no propósito consciente para realizar este modo de viver e sentir reflexivo nos cega e nos distancia da espontaneidade deste viver.

Certa vez, em Santiago do Chile, participando de um dos cursos de Maturana e Xímena, quando o indaguei sobre o dito de Nietzsche do qual nos ocupamos aqui, e perguntei sobre como fazer para chegarmos a ser adultos maduros no sentido que o filósofo aponta, como fazer para que nossas crianças cheguem a ser tornar pessoas adultas maduras, sérias, alegres e responsáveis – O biólogo gentilmente respondeu em suas palavras o que agora formulo como segue, desde o que eu escutei e do que posso escutar agora: Que é preciso que vivamos um conviver onde se viva na seriedade-brincante e atenciosa em um viver-fazer no atuar-sem-esforço de modo a atendermos-acolhermos seja lá o que for que façamos com nossa atenção voltada para o presente sem passado nem futuro, no ânimo íntimo do livre brincar-brincando no amar-amando, na alegria de viver em harmonia emocional consigo mesmo e harmonicamente com tudo o que surge em nosso entorno na deriva de nossas vidas.

Fácil, difícil? Não estamos a dizer que seja fácil, contudo, diante de todas as dificuldades, emocionais e racionais, interacionais e relacionais, físicas e psíquicas, etc., tudo isso pode vir a suceder e ser realizado, mais facilmente, se escolhermos vivê-lo e não aplicar.

De modo que, dito isso e o que queríamos por final, sobre o atuar-no-esforço e o atuar-sem-esforço para relacionarmos com tudo o que pudemos e podemos refletir ao evocar o dito nietzschiano, encerramos por agora silen-cioso leitor, acreditando também ter mostrado ou ao menos criado uma abertura para que se reconheça a importância da conservação da seriedade-brincante e atenciosa das crianças, no processo educacional e nos caminhos e orientações espirituais de cada um de nós, nas diversas culturas e comunidades humanas em que habitamos.

Alexandre Magno Jardim Pimenta