AmalgAmar

Publicado por João Lima em 29/11/2016

Consciência. Ideia de difícil entendimento, enrolada num emaranhado de sentidos. Difícil mesmo é entender a abstração que ela tenta alcançar. Mas Humberto Maturana nos deu a definitiva compreensão.

A representação da consciência se aproxima do significado da palavra alquímica “amálgama”, “mistura de elementos diferentes ou heterogêneos que formam um todo”.

Consciência é o que está acontecendo aqui, nesse momento, enquanto estamos juntos e misturados. Esse acontecimento é o milagre do fazer coletivo, da construção de uma realidade comum, da cooperação, do laço amoroso que nos une em nossa autocriação.

Somamos, somos mulheres negras que amam, que se percebem e se comunicam através do afeto. Manifestamos imagens, rituais, linguagem. Esperançamos e experienciamos, convivemos e re-existimos. E nos reunimos pra cantar e dançar na praça pública em honra aos ancestrais.

Pra que todos vejam. Pra que todos saibam que sempre foi e sempre será possível conceber novos mundos. E que promover o bem geral é lição que precisa ser aprendida todos os dias, com firmeza e amorosidade.

Nossa consciência é uma rede de infinitos círculos dentro de círculos sem início e sem fim. Uma rede que se perpetua em ciclos férteis de mudança e renovação. Uma grande ciranda girando, e gerando redemoinhos de histórias e saberes que constituirão nosso corpo coletivo.

Jamais fomos indivíduos. Eu construo você, e vice-versa. Sempre seremos nós. Nessa teia enredada que se sustenta de gente, de bicho, de planta, de bactéria, de terra, de sol e de cachoeira. Estamos todos conectados. Estaremos sempre conectados, permanentemente.

Do Engenho de Dentro pra fora, pra Franca. Ocupando os espaços, cuidando das relações. Abrindo a roda pra quem não está nela. Repartindo a mão, a fronte fraternal, o riso aberto e franco, entendendo que carregamos na ferida a cura.

E é na raiz e na rua o rito de promoção da saúde comunitária, saudando os que vieram antes de nós. Salve Nise da Silveira, Abdias Nascimento, Carlos de Assumpção e o povo francano. Salve Luiz Augusto, morador de rua que puxou Shakespeare em plena praça.

Salve a menina que acabou de nascer mais uma vez pra alegria geral. Espalhem a notícia, uma flor renasceu. Furou o caos e a crise, atravessando a tristeza, a corrupção e a violência, interrompendo o mau destino.

O parto foi na rua, mas a flor menina já passa bem na nova casa, uma Confraria que agora está de portas e braços abertos para mais encontros e amálgamas.

PS: Menina-flor, te quero assim verdadeira, cheirando a manga e alecrim.

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