Os faustos do caos e a emancipação que cura

Publicado por Lara Ferreira Camacho em 4/1/2017

Somos obliquamente tomados de manobras quando nos damos conta da lonjura e magnificência do mar. Camuflamos nossos olhos marejados de horizonte à medida que afastamos do cais. E, talvez, o que permite o contínuo movimento das nossas embarcações seja a voz corpórea com que o longe se dá.

Para as almas que não tiveram outra escolha senão a de descortinar intrepidamente seus engenhos, faz-se um ardor tremendo o ofício de narrar toda a maresia disfarçada de mar, tendo de deixá-los, por fim, engenho por engenho, escancarados e movidos pelo vento, umedecidos pelo ar. Descortinam-se intersticialmente sucumbindo para a defesa final.

Quiçá, a lonjura do mar nos revela seres intersticiais. Somos poeira levada pelo vendaval das nossas manobras. Manobramos e precisamos pulsar. Nossos pulsões de ansiedade se dão por um profundo medo daquilo que não temos força para manobrar: aquilo que queremos ser. Falhamos na missão. A sombra da ansiedade se forma sobre o nosso eu quando perdemos a garantia da nossa organicidade. Esquecemos a maior utilidade do erro: se erramos, somos. E essa garantia de existir se perde quando as atitudes se dão diametralmente opostas ao que o nosso corpo ruge. A perda da garantia: o delírio social de Guattari e Deleuze. O sistema baseado na exploração, dominação e colonização do desejo. A dominação do inconsciente!

Escandalizamos quando perdemos a unidade explosiva que comove todas as nossas ânsias. A organicidade do tempo nos escandaliza. Nossa consciência conforma-se como um volante, guiado pelo nevoeiro da selvageria operacional. Esgotam-se todos os nossos desejos identitários, perdemos a consciência das nossas sensações. Outrora, somos engenheiros da vida marítma, nos encontramos longe do porto. Precisamos instaurar agenciamentos completamente novos, com outros afetos, outros corpos, outras subjetividades. A sombra da ansiedade se esvai quando nos permitimos errar. Quando retomamos o que é nosso através da reorganização de nossas máquinas desejantes. Quando sentir se torna maior que interpretar. Quando lançar a luz sobre o engenho retoma a revelação do árduo esforço de ser e, continuar sendo, o que somos.

A liberdade do movimento das águas mantém atados todos os chãos. Porque é o tempo orgânico, é matéria fluida vestida de gente. De gente que se dobra. Que faz da maré o próprio mar. Que se engenha. Que imerge para emergir um novo ser. Que respira para mergulhar de novo. Que se habita de dentro para fora e, na sorrateira missão de pulsar, se cruza e se afeta, como uma investida progressiva e ininterrupta de lançar a luz sobre a vida, e viver.