Esboço Para Uma Filosofia da Adoção.

Publicado por Alexandre Magno Jardim Pimenta em 29/12/2016

Carta para o Encontro - Amálgama BRASIS e VI Congresso UPAC (Novembro - 2016)

Carta nº2 – Ao Festival Amálgama BRASIS e VI Congresso UPAC – Ocupa Nise Ocupa Franca –: Esboço Para Uma Filosofia da Adoção.

Na co-inspiração, isto é, no compartilhamento de um desejo de bem-viver às coletividades humanas e não-humanas, que foram e seguem sendo o Festival e o Congresso, fato é que neste espaço de convivência que criamos juntos com nossa conduta e conversações, que nos acolheu, que acolheu a quem desejou entrar, adotei e senti-me adotado pelas pessoas, e, à umas escolhi como irmãs e irmãos, outras como mães e pais. Este profundo sentimento que extravasa as relações humanas e se estende à outras formas e modos de vida – impressionante como os cães acompanharam e interagiram nos espetáculos públicos, impressionante como foram dormir às portas da Confraria Cult, isto é, como desejaram estar conosco –, suscitou-me uma reflexão altaneira e de abraço. O que devo em grande parte, seu desencadeamento, ao nosso querido mestre, Nelson Vaz, o que ficará claro mais adiante.


Quero aqui expressá-lo e compartilha-la.

Este ato de escolha – escolher alguém –, implica antes de tudo um abrir-se, isto é, um deixar-se, deixar, deixar-nos ser, sem expectativas, sem preconceitos ou exigências... e pressupõe, então, simultaneamente a abertura de um espaço de coexistência na mútua-aceitação (auto e alter aceitação), que, por sua vez, pressupõe o amor, o amar, a amorosidade, a con-sensualidade e a ética, isto é, o agir na classe das condutas relacionais nas quais aceitamos o outro, a outra, como legítimos outros, outras, na convivência conosco. Mas também, implica responsabilidade e liberdade como formas de viver-conviver, que surgem enquanto tais, respectivamente, quando nos damos conta de, se queremos ou não as consequências de nossas ações, quando nos damos conta de, se queremos ou não nosso querer, ou não querer as consequências de nossas ações, de modo que ambas, responsabilidade e liberdade surgem na reflexão que expõe nosso pensar (fazer) no âmbito das emoções a nosso querer ou não querer as consequências de nossas ações, em um processo no qual não podemos nos dar conta de outra coisa a não ser de que o mundo que vivemos depende de nossos desejos (H. Maturana, 2002, p. 33-34) e do que fazemos ou não fazemos ao viver.

“A responsabilidade tem a ver com a compreensão dos nossos próprios desejos, e surge na reflexão como um ato no qual colocamos nossos desejos sob o escrutínio dos desejos. Em outras palavras, a responsabilidade não pertence ao domínio da razão. O mesmo ocorre com a liberdade que surge com nossa responsabilidade sobre nossa responsabilidade” (ibidem, p. 85-86).

Ora, das conversações definidoras da cultura patriarcal-matriarcal, que acontecem na dinâmica emocional fundamental da apropriação da verdade e veneração da autoridade (H. Maturana e X. Dávila, 2009, p. 39), as primeiras que se destacam, ao que aqui interessa-nos refletir, como já podemos perceber, são as de apropriação e aquelas nas quais a fertilidade surge como uma noção que valoriza a procriação, num processo contínuo de crescimento, nas quais a sexualidade das mulheres se associa à procriação e fica sob o controle do patriarca (H. Maturana e Verden-Zöller, 2004, p. 75), assim como a vida das crias, como fossem bens adquiríveis, que devem venerar esta autoridade dominadora, em total obediência. Nesta rede de conversações a vida das crias é apropriada, é tida como propriedade e a relação está baseada nos laços carnais, de parentesco consanguíneos, sociais e estruturais. Sem exagero, podemos afirmar com Michel Serres – quem define a guerra como envio de filhos por pais para matar outros filhos de outros pais –, que isto, ou seja, esta apropriação das crias é condição básica para se poder fazer guerra, pois, apropriando-se das crias, principalmente dos meninos para tal, para guerrear, é que se pode constituir batalhões e expandi-los com o aumento da prole, na valorização da procriação num processo contínuo, linear, de crescimento e enriquecimento.


Contudo, no dia em que tivemos o prazer de ouvir o professor Nelson Vaz, escutei dele a seguinte e tremenda afirmação: Toda criança é adotada. O que, segundo o próprio Vaz, foi-lhe sugerido pelo estudo das reflexões e explicações do biólogo chileno, seu amigo, o já citado Humberto Maturana. Estas reflexões não eram novas para mim, nem meu interesse sobre a questão da adoção surgiu neste momento, contudo, quando Nelson afirmou o que afirmou, suscitou-me novamente tal curiosidade e tais reflexões e o desejo de compreender o que eu sentia e o que estava fazendo neste espaço de convivência gerado pelas conversações do Festival e do Congresso, em relação à tantas pessoas com quem eu nunca havia me encontrado.


Hoje, três dias após o encerramento da programação do Encontro, perguntei – via correio eletrônico – ao professor Nelson o que ele queria dizer quando afirmou que toda criança é adotada, e a resposta gentilmente concedida por escrito foi a seguinte:

“[...] no surgimento de qualquer criança (humana) a expectativa é de que exista uma mãe amorosa (que pode ser masculina) que a ampare, isto é, que a adote, a incorpore, a assimile à família, ao grupo. Da mesma forma que há processos espontâneos assegurando que as borboletas encontrem flores e as pulguinhas recém-nascidas encontrem cachorrinhos ou gatinhos recém-nascidos para se alimentar; as pulgas são estimuladas a botar ovos quando sugam a progesterona aumentada no sangue da cadela ou da gata prenha. O ser humano é uma criatura intrinsecamente amorosa, sensual, e o cuidado em relação a filhotes (de qualquer coisa) é geral entre os animais de maior porte: mamíferos e aves. Muitos filhotes têm cores e pelagens diferentes das do adulto (Há um livro lindo de Adolph Portmann sobre isso “Animal Forms and Patterns, A estudy of the appearance of animals” (New York, Schoken Books, 1967). Mas somos feitos de estórias e fico pensando na música “O meu guri” de Chico Buarque que descreve tão poeticamente a desgraça dos desvalidos no Rio de Janeiro”.

Tal resposta não aprofunda muito o que eu e Tulio conversamos na madrugada do dia 27/11/2016, nem em relação ao que eu já havia compreendido em meus próprios estudos dos livros de Maturana e outros autores, porém, confirma o que sentimos-pensamos, além de expandir e apontar caminhos... Devo notar também que as palavras não significam nada em si mesmas, mas nunca são triviais e sempre apontam para o que fazemos, por isso, seguindo Vaz e Maturana nestas reflexões, no desejo de impecabilidade, afirmamos que como bebês humanos nascemos todos na total confiança, que é estrutural, implícita, inconsciente, de que haverá um mundo adulto que nos acolherá, conterá e amará (Maturana et. al., 2009, 22-23).

“Vimos ao mundo na mesma confiança implícita que tem a borboleta ao sair da crisálida, na confiança de que haverá ali um mundo de néctares e flores. Quer dizer, nosso feitio biológico surge em total coerência e íntima relação com o feitio biológico do meio que nos conterá e em relação ao qual podemos conservar nosso acoplamento estrutural se forem dadas as condições para que isto seja possível” (ibidem).

Ora, como afirma Maturana (2014, p. 328), em sua abordagem não depreciativa das emoções, contrariamente ao que geralmente acontece no âmbito reflexivo da cultura ocidental, um observador distingue diferentes emoções e estados de espírito através da distinção de diferentes domínios de ações nos quais os organismos observados se movem, diferentes disposições corporais dinâmicas para as ações que especificam a cada momento os domínios de ações nos quais ocorre o mover-se dos organismos.

“Assim, todo comportamento animal ocorre num domínio de ações constituído e especificado a cada momento por alguma emoção ou estado de espírito. [...] Nós, seres humanos, não somos uma exceção a isso. Além do mais, em nós, seres humanos, o emocionar é, em grande medida, consensual, e segue um curso entrelaçado com o linguajar em nossa história de interações com outros seres humanos” (ibidem, p. 328-329).

Assim sendo, certamente o que fazemos e podemos fazer, de momento em momento, no domínio de ações que é constituído pela emoção ou estado de espírito da apropriação – nas conversações de apropriação –, no/na qual nos apropriamos de algo ou de alguém, é diferente daquilo que fazemos e podemos fazer, de momento em momento, no domínio de ações ou na classe das condutas relacionais em que adotamos algo ou alguém, e, efetivamente, esta diferença não é trivial e vai influenciar um certo modo de fluir, de crescer e aprender no processo co-ontogênico do bebê, mais ou menos coerente e adequado, com maiores ou menores possibilidades de conservação de seu acoplamento estrutural com o meio sócio-natural que o contém e o torna possível enquanto tal, ou seja, um ser animal espontaneamente e intrinsecamente amoroso e confiante, aberto à ser adotado e adotar o(s) ser(es) que o acolher(em) primeiramente, seja(m) ele(s) humano(s) ou não-humano(s). Basta que nos lembremos do caso das meninas-lobo.

Pois bem, de tudo o que vimos até aqui podemos afirmar seguramente que a adoção não é um fazer exclusivamente humano, para o que aponta Nelson Vaz em sua resposta, pelo contrário, a adoção, que se dá na classe das condutas relacionais nas quais acolhe-se o/a e cuida-se do/da outro e outra desde o domínio do amar, isto é, naquilo que no âmbito humano designamos como ternura (X. Dávila, 2009, p. 230), é geral entre os animais de maior porte, aves e mamíferos. Contudo, este fazer, a adoção, o adotar, se expande e se torna potencialmente irrestrito em nós, seres humanos, o que fica claro nas crianças. Basta ver como são comovidas ao ver, por exemplo, um filhote de pássaro que caiu do ninho e está no chão desamparado, como elas o acolhem e cuidam dele, isso, claro, se não forem culturalmente influenciadas e ensinadas a temer, ser indiferentes e/ou odiar outros animais. Também sustentamos que a relação materno-infantil, isto é, uma relação permanente de cuidado que um adulto adota com uma criança (Verden-Zöller, ibidem, p. 137), é uma relação constituída na emoção da adoção e não da apropriação – a não ser na cultura patriarcal-matriarcal –, no espaço psíquico arcaico e matrístico, isto é, da infância e juventude da humanidade, e que é própria de comunidades humanas matrísticas ou gilânicas, que é sufocada e/ou negada em comunidades centradas na falta de equanimidade e liberdade, na apropriação e no controle, na desconfiança e nas relações políticas, entendidas aqui como de instrumentalização do viver-conviver. Ademais, sustentamos a partir das reflexões de Verden-Zöller que a total aceitação em relação à total confiança da criança de que será adotada é impossibilitada, ou, em outras palavras, a operacionalidade de total aceitação do outro, da outra, não pode acontecer no domínio de ações, na classe de condutas relacionais, nas disposições corporais dinâmicas para as ações que são especificadas pela emocionalidade da apropriação. Afirmamos que isso ocorre assim, mesmo que no âmbito das nossas descrições afirmemos o contrário.

Procurando pela etimologia do termo adoção, descobrimos que tal termo partilha da raiz latina optĭo,ōnis que possui como significado básico: “faculdade ou liberdade de agir, livre escolha”. Esta palavra, então, como vimos, está construída sobre a responsabilidade e a liberdade de escolha e traduz, como diz Serres (2003, p. 155) em sua leitura do cristianismo e interpretação do significado da <<Sagrada Família>>, de forma clara e jurídica, o amor universal livre e santificado. De modo que, adoção, adotar, no âmbito humano, indica uma livre escolha por meio da qual se acolhe, cuida e integra outrem à comunidade humana, desde o amar, na abertura terna de um espaço de coexistência em mútua-aceitação.

Antes de prosseguirmos, nos perguntemos, o que significa, especificamente, integrar outrem à comunidade humana? Significa iniciar alguém – que foi adotado(a) – no talento e na parceria da conversação, isto é, no talento e na parceria de, no conversar (entrelaçamento de linguajear e emocionear), fluir em uma rede particular de linguajear e emocionear (Maturana, 2014, p. 206). O que implica uma transformação na convivência (Maturana e Rezepka, 2014), ou seja, um processo educacional no qual aprende-se a reconhecer as vozes, a distinguir as ocasiões para falar, e no qual adquire-se os hábitos intelectuais e morais adequados à conversação, em suma, no qual aprende-se espontaneamente, sem esforço, o espaço psíquico, mental e espiritual da cultura à que se pertence (Maturana, 2014, p. 139); o que constitui o educar, a educação, propriamente dito(a) (Michael Oakeshott, p. 196-198).

Esta conversação, como diz Oakeshott, foi iniciada há milhões de anos atrás na floresta ancestral e é esta conversação que, ao final, dá lugar e caráter à todas as atividades e expressões humanas, e que, através dos séculos, com a difusão do gênero humano na Terra, foi sendo estendida e tornada mais articulada.

“Como seres humanos civilizados, somos herdeiros não de um inquérito sobre nós mesmos e o mundo, nem de um corpo crescente de informações, mas sim de uma conversação [...] É uma conversação que se dá tanto em público quanto dentro de cada um de nós. Claro, existem argumentos, inquéritos e informações, mas quando estes têm algum valor são reconhecidos como passagens nessa conversação, e talvez não sejam as passagens mais cativantes. É a capacidade de participar dessa conversação, e não a capacidade de raciocinar coerentemente, de fazer descobertas sobre o mundo, ou de suscitar um mundo melhor, que distingue o ser humano do animal e o homem civilizado do bárbaro. Na verdade, não é improvável que tenha sido a capacidade de engajar-se nessa conversação (na qual a fala é sem conclusão) que nos deu nossa aparência atual, sendo o homem descendente de uma raça de macacos que sentavam em conversas tão longas e que duravam até tão tarde, que gastaram suas caudas” (ibidem).

Retomando – De acordo com o filósofo citado acima (ibidem, p. 154), o adjetivo “sagrada” na expressão “a Sagrada Família” significa que ela desfaz os laços carnais, biológicos, sociais e estruturais, pois aí o pai não é de forma alguma o pai, e a mãe é muito menos a mãe, cada um à sua maneira, o pai não é o pai nem o filho é verdadeiramente o filho, nem a mãe absolutamente a mãe, nesta família não existem laços de sangue. Sendo assim, contra a genealogia e pela adoção, desde sua origem, como diz Serres (ibidem, 155), o cristianismo desfaz e reprograma a concepção, já que José, Jesus e Maria, pai, filho e mãe sem laços reais de sangue, compõem a família de adoção.
“Para o cristianismo, a dileção adotiva desempenha o papel de estrutura elementar única, abstrata e formal do parentesco. O amor escolhido e livre torna-se o único átomo de relação, até nas ligações mais elementares da família. Daí decorre a ruptura das relações familiares e de seu novo caráter universal e racional construído sob a aparência do estranhamento. Além disso, as estruturas elementares comuns definem habitualmente as culturas locais; sua desconstrução, a possibilidade da escolha, a introdução da liberdade na necessidade do sangue abrem pela primeira vez a humanidade ao universal” (ibidem, p. 155-156).

Com o cristianismo, a adoção, fenômeno que pode ser constatado facilmente, como vimos, entre os animais de maior porte, e que só não vemos na relação que estabelecemos com nossas crianças pois geralmente na cultura em que vivemos estamos cegos à ela por conta da emocionalidade da apropriação, é adotada como o que constitui a conexão entre os seres humanos e, como observa Serres (ibidem, p. 157), a partir do anúncio feito à Maria pelo enviado do Senhor, o arcanjo Gabriel, o tempo não mais se conta segundo a árvore genealógica ou as estruturas de parentesco, excetuando-se pelos laços de sangue a genealogia passa a ser considerada universal, substituindo a necessidade física – nascer de uma vulva –, pela liberdade paradoxal da escolha e pelos possíveis do amor (ibidem, p. 155).


“A dileção adotiva que os adiciona compõe ao gosto de cada um as estruturas de parentesco, incluída a estrutura maternal. Em face da necessidade, os dois dogmas da concepção virginal do Verbo e da Imaculada Concepção descobrem a origem da cultura na natureza e na liberdade” (ibidem).

Com o cristianismo o que é imprescindível não é mais a maternidade, a estrutura maternal, mas sim, a dileção adotiva, ou seja, a afeição, a estima consciente de amor pela qual nos unimos a outros e outras.

Ora, somente a partir destas reflexões é que pude, assim espero, ter compreendido bem o sentido do primeiro direito das crianças que Janusz Korczak, precursor dos direitos da criança e do adolescente, escreveu em seu Como amar uma criança, a saber, o direito da criança à morte, direito de não ser. A meu ver, quando o educador polonês começa a criar esta obra de arte, uma carta dos direitos da criança, e a inicia com o direito à morte, Korczak vai ao núcleo da cultura patriarcal-matriarcal ocidental e cria uma ruptura não patriarcal nesta rede de conversações, pois, ao afirmar o direito da criança à morte afirma o direito da criança à vida e a ser o que ela é (terceiro direito), assim rompendo com a cultura patriarcal-matriarcal ao afirmar que a ninguém é dado apropriar-se da vida de uma criança, que a ninguém é dado ter poder de vida e morte em relação à uma criança, o que só surge e é possível com a relação de posse em relação à elas.

“A lei cruel mas franca da Grécia e da Roma antigas autorizou a matar uma criança. Na idade Média os pescadores achavam em suas redes cadáveres de bebês afogados nos rios. Na Paris do século XVII vendiam-se crianças pequenas a mendigos e sobre o adro da Nôtre Dame se livravam dos pequeninos por nada. E isto não faz tanto tempo. Ainda hoje são abandonados quando são de mais. O número de crianças ilegítimas, abandonadas, negligenciadas, exploradas, depravadas, maltratadas, aumenta dia-a-dia. De certo, elas são protegidas pela lei, mas suficientemente?” (J. Korczak, Direito da criança ao respeito, p. 46).

Pois bem, a partir destas reflexões sobre a adoção, a dileção adotiva e de como ela é um fenômeno amplamente disseminado nos modos de vida animal, bem como de como ela depende de processos biológicos espontâneos que podem ser negados culturalmente no âmbito humano, gostaria de expor algumas das consequências que sinto-penso serem imediatas e muito importantes:

1. Racismo.

Se o amor escolhido e livre, a dileção adotiva, constitui, como diz Serres pensando no âmbito do cristianismo, o único átomo de relação, de conexão, até nas ligações elementares da família, se é o que constitui, como sustentamos, a própria relação materno-infantil, ora, todo racismo, que consiste na redução de alguém à apenas um de seus pertencimentos, pode ser erradicado, como sugere Serres, por essa desconstrução radical – efetuada pelo cristianismo – das estruturas de parentesco fundadas unicamente por laços de sangue, contudo, o que estamos a propor é que isso era assim muito antes de Adão e Eva, e acontecia já irrestritamente, há milhões de anos, desta forma, com nossos ancestrais, no modo de vida conservado na linhagem ou fenótipo ontogênico – (Maturana, 1987; Maturana, Mpodozis, 1992), que é, como diz Maturana (2014, p. 273-274), a referência operacional, em torno da qual a anatomia e a fisiologia, ou seja, a estrutura dinâmica, dos membros de uma linhagem mudam através da história. Modo de vida este que definiu e define a linhagem humana e que inclui, ainda de acordo com o biólogo chileno, o viver na linguagem, como uma característica central de uma maneira de coexistir em pequenos grupos ou grande famílias, cooperativo(a)s que compartilhavam alimentos e o cuidado, entre fêmeas e machos, com as crias em intimidade sensual e sexualidade aberta, centrado na cooperação, no amor, na con-sensualidade e na ternura, não na disputa, na desconfiança, na luta pela força ou na habilidade para a dominação, na oposição hierárquica, na manipulação mútua através da intimidação, da força e da dissimulação, na instrumentalização da sensualidade em uma contínua luta por acesso privilegiado à comida e ao sexo, enfim, na agressão, na obediência ou na apropriação. Que é o que diferencia, de acordo com Maturana (2014, p. 283), os modos de vida homo e antropoide, basicamente diferentes no que se refere às relações interindividuais. De modo que, não se trata de converte-se em “cristão”, que é reconhecido como tal, como diz Serres seguindo o povo, suas práticas e suas crenças, sua doçura, como qualquer pessoa que chame qualquer outra pessoa de irmão, pai, mãe ou irmã, mesmo que não seja seu parente de sangue, mas que quis livremente fazer-se como tal (2003, p. 154) [1]. Trata-se sim – é o que propomos –, de recuperarmos e restaurarmos nossos fundamentos psíquicos arcaicos e matrísticos, fundamentos operacionais centrais das dinâmicas espontâneas que constituem nossas relações interindividuais e a diversidade de expressões culturais do modo biológico-cultural de viver-conviver humanamente, nossa operacionalidade de total mútua-aceitação, conscientes de que as fronteiras são sempre emocionais. Adotar a adoção, com tudo o que ela implica, é contribuir para a erradicação ou ao menos a diminuição do racismo.

[1] De acordo com Serres, é precisamente este reconhecimento que define o cristianismo como desconstrutor, desfazedor dos laços de parentesco consanguíneos.

2. O problema ecológico.

A segunda consequência a vejo no âmbito, digamos, eco-cultural e trata-se do seguinte: Hoje em dia, mais do que nunca na história da humanidade, estamos efetivamente massacrados e massacramos inúmeros outros coletivos não-humanos em nossa relação irresponsável e inconsciente com a biosfera – do que efetivamente surge o problema ecológico –, pelo excesso de população. E isso, por quê? Porque, como diz Maturana (2014, p. 250), queremos viver sem assumir que todos os seres humanos, acrescentamos nós, todos os seres vivos, temos direito ao mesmo bem-estar biológico e, portanto, social. Contudo, se hoje sobrecarregamos o meio natural e privamos cada dia mais seres humanos e outros seres vivos de seu legítimo acesso aos chamados “recursos” necessários à subsistência, com nosso excesso populacional, devemos olhar no âmbito cultural em que estamos inseridos e ver aí que esta situação em que hoje nos encontramos, não chegou, simplesmente, que nós a desejamos e a construímos, pois, como vimos, uma das conversações definidoras da cultura patriarcal-matriarcal ocidental, é justamente aquela na qual a fertilidade surge como uma noção que valoriza a procriação, num processo contínuo, linear, de crescimento.

Podemos dizer que no início da Cultura Pastoril, assim como o é para os povos ameríndios e muitíssimos povos não-modernos (D. Danowski e E. Viveiros de Castro, 2014, p. 136), um objetivo cultural fundamental era o de ter filhos, contudo, diferentemente, estes outros povos, os índios, como dizem os autores acima citados:

“[...] preferem manter uma população estável ao invés de aumentar a “produtividade” e “aperfeiçoar” a tecnologia de modo a criar as condições (o “excedente”) para que possa haver sempre mais gente, mais necessidades e mais preocupações” (ibidem).

Já no âmbito da cultura patriarcal-matriarcal ocidental, a preferência, na dinâmica emocional fundamental da apropriação, para que mais se possa apropriar, é de que se tenha sempre mais gente, orientação existencial esta que fica clara nas Escrituras, em Gênesis (28) onde se lê:

“[...] Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, e sobre todo animal que rasteja pela terra”.

Na raiz do excesso populacional, encontramos o desejo de procriação, o objetivo cultural de ter filhos, distribuir-se e disseminar-se em descendentes, o que não constitui problema, como podemos constatar pelo contraste com outros povos, mas sim, isto é, o que constitui o problema da sobrecarga do meio natural e todas as graves consequências para o viver-conviver na antroposfera-biosfera, é, como já sabemos, o desejo de procriação, o objetivo cultural de ter filhos, mas investido pelo desejo de apropriação e consequente posse das crias – que é justificada pelos laços de parentesco consanguíneos –, desde uma concepção da fertilidade como um processo contínuo de crescimento e enriquecimento, que garantirá a sujeição e a dominação para a apropriação desejada.
Adotar a adoção, implica sair desta emocionalidade, da alienação, como diz Maturana (2014, p. 249), que o apego e o desejo de posse geram, alienação esta que, como diz o biólogo, transforma tudo, as coisas, as ideias, os sentimentos, a verdade, acrescentamos, as próprias crias, as próprias pessoas, em bens adquiríveis, gerando sempre um processo que priva o outro do que deveria estar, para ele ou ela, à mão, como resultado de seu mero ser e fazer social.[2] Implica uma outra relação com o meio sócio-natural em que habitamos, pelo qual somos “adotados” e adotamos. Além de que, como diz Korczak, o número de crianças abandonadas, negligenciadas, exploradas, depravadas, maltratadas, aumentando dia-a-dia, em tempos em que se reduz à quase nenhum o acesso livre aos recursos de subsistência e em que nossas sociedades agem irresponsavelmente no sentido de proporcioná-los, em tempos em que são cada vez mais – relativamente à um mundo que se reduz dramaticamente – e por isso muitas vezes são abandonadas, adotar a adoção em nossas sociedades é imprescindível. Parafraseando Maturana (ver nota 2): No desapego, no desejo de cuidar, de adotar, aceitamos o outro e criamos com ele ou ela um mundo que nos adota.

[2] “No apego, no desejo de posse, negamos o outro e criamos com ele ou ela um mundo que nos nega” (ibidem).


3. Educação.

A terceira consequência que vejo é no âmbito educacional, isto é, diz respeito à educação, ou seja, ao processo de transformação na convivência que ocorre no acoplamento estrutural e deriva co-ontogênica entre dois ou mais indivíduos, que é um afazer básico e central em toda e qualquer comunidade humana. Que implica em uma outra visão.

Trata-se do seguinte: A relação educativa, estabelecida entre um adulto e uma criança, por exemplo, aqui chamados educador(a) e educanda(o), tal qual a relação materno-infantil, surge ou deveria surgir – o que geralmente é negado pela instrumentalização das relações – e constituir-se pela dileção adotiva, e uma comunidade de aprendizagem, uma escola, etc., é, antes de tudo, uma comunidade de pessoas que escolheram amorosa e livremente se adotarem – é uma comunidade de adoção –, conviverem reflexivamente na linguagem e se transformarem juntos nesta coexistência. Como diz a sabedoria africana, a educação de uma só criança precisa de uma tribo inteira, isto é, é preciso muitas mães, muitos pais, irmãos e irmãs, para a trans-formação de uma criança em um ser humano adulto, o que só é efetivamente possível pela dileção adotiva.

Como poderia ser diferente, partindo de tudo o que vimos anteriormente, se a tarefa das educadoras e dos educadores consiste em acompanhar as crianças na convivência até que se convertam em adultos de um certo tipo (Maturana e Rezepeka, 2004, p. 60-61) – segundo desejamos, seres humanos adultos maduros, autônomos, sãos, sábios, alegres e democráticos? Como poderia ser diferente, se, como dizem Maturana e a educadora Rezepka, educar é conviver? Como poderia ser diferente, se o educador ou a educadora são aqueles e aquelas pessoas que adotam para si a tarefa de configurar um espaço de convivência onde outros e outras se transformem com eles ou elas? Como poderia ser diferente, se – para isso – a educadora ou o educador com os educandos e educandas, devem aceder ao espaço em que se aceitam mutuamente como legítimos outros na convivência? Se os primeiros devem espontaneamente serem capazes de viver a ampliação do espaço de convivência com outro como um legítimo outro, ou devem aprender a vivê-lo? (ibidem, p. 151). Como poderia ser diferente, se a tarefa diária dos educadores e das educadoras consiste na conservação e ampliação das instâncias reflexivas e de ação e na composição de condições e circunstâncias que permitam a cada participante do espaço de convivência uma conduta social de aceitação, de si e dos outros, de mútua-aceitação?

Enfim, como poderia ser diferente, se a adoção que é um fazer que, como vimos anteriormente, se dá na classe das condutas relacionais nas quais acolhe-se o/a e cuida-se do/da outro e outra desde o domínio do amar, isto é, naquilo que no âmbito humano designamos como ternura, uma relação de cuidado permanente que uma pessoa, geralmente adulta, estabelece com um ser, geralmente animal e humano, se adotar indica uma livre escolha por meio da qual se acolhe, cuida e integra outrem à comunidade humana, desde o amar, na abertura terna de um espaço de coexistência em mútua-aceitação – E o educador ou a educadora é, então, qualquer pessoa, geralmente adulta, que escolhe adotar quem quer que seja na criação de um espaço de convivência reflexiva no qual as crianças, os jovens e outras pessoas possam crescer desejando chegar a ser pessoas adultas de um certo tipo – segundo desejamos, como dissemos e ademais acrescentamos, pessoas sérias e responsáveis, com consciência ética, social e ecológica –, em um cosmos humano cambiante, com consciência de o estar gerando e legitimando, com seu viver-fazer, como um âmbito desejável para viver e conviver nele, no respeito mútuo desde o respeito à si mesmas como seres fundamentalmente amorosos (Maturana et. al., 2009, p. 42)?

Toda criança é adotada, só não são aquelas que não o são. Muitas não estão nas ruas, mas dentro de casa, das escolas, vivem abandonadas, não-adotadas. Há muito mais crianças abandonadas do que costumamos imaginar. Adotar a adoção implica também em tomar-se como responsável, irrestritamente, da/na educação nas comunidades em que habitamos, concebendo-a como o fazer mais central e fundamental destas próprias comunidades, conscientes de que – devemos estar – por meio do educar é que podemos, ou não, conservar a emocionalidade da relação materno-infantil nas crianças e nos jovens até a fase adulta – o que nos é possibilitado biologicamente pela neotenia que nos caracteriza –, ou seja, uma relação permanente de cuidado que adotamos com outra pessoa, ou seja, da dileção adotiva, e que isto é fundamental para a saúde individual e social humana.

Este texto nada mais é que um convite à reflexão e um chamado à co-inspir-ação, à expansão do compartilhamento do desejo de bem-viver que guiou o viver-fazer, o sentir-pensar, o atuar-conversar dos co-inspiradores que interagiram no Encontro do Festival e do Congresso. O mero entendimento do que propomos não implica em uma mudança no que vivemos-fazemos, pois isso dependerá, sempre, de nossos desejos, de nosso querer, das nossas ganas de co-criar um mundo que nos adote na medida em que o adotamos. Afinal, não se trata de uma mera concordância com um argumento racional, que, em última instância, é sempre emocional, mas, antes de tudo, das nossas preocupações com o outro, a outra e nós mesmos nas comunidades humanas em que habitamos.

Pois, como diz Maturana (2014, p. 249):

“Os problemas sociais são sempre problemas culturais porque têm a ver com os mundos que construímos na convivência. Por isso, a solução de qualquer problema social sempre pertence ao domínio da ética, isto é, ao domínio da seriedade na ação frente a cada circunstância que parte da aceitação da legitimidade de todo ser humano, de todo outro, em suas semelhanças e diferenças. É a conduta dos seres humanos, cegos ante si mesmos e ao mundo na defesa da negação do outro, o que tem feito do presente humano o que ele é. A saída, entretanto, está sempre à mão porque, apesar da nossa decadência, todos sabemos que vivemos o mundo que vivemos, porque socialmente não queremos viver outro”.

Alexandre M. Jardim Pimenta, 29/11 – 02/12/2016. Franca (SP) – Brasis.