Experiência no Ocupa Nise

Publicado por Melissa Coelho Ferreira em 15/9/2015

Gostaria de compartilhar a carta que escrevi para Nise da Silveira, seguindo a sugestão feita no Ocupa Nise. Participei de poucos dias, devido ao trabalho. Sou atriz e oficineira em um Caps ad, em Madureira. Este ano para mim tem sido um verdadeiro mergulho na discussão sobre Saúde Mental, e participar do seminário significou alento, uma celebração, alimento vivo para o meu fazer. A carta que escrevi tem muito das vivências com os pacientes do Caps, e fala sobre o que eles me ensinam diariamente. Gratidão por essa oportunidade de encontro, de renovação! Até breve! "À dra. Nise e seus corajosos legatários: Obrigada, dra. Nise, por nos entender. Mais do que entender, obrigada por nos abraçar, em uma causa tão espinhuda, tão enlouquecedora!... Nós loucos sabemos funcionar. Talvez não estejamos bonitos na foto, talvez não consigamos absorver a lógica do Mercado. Contudo, temos lógica! Ah, sim, nós temos! E com essa lógica louca, desfragmentada, cheia de furos, de remendos e de manchas das mais variadas, a Sra, Dra. Nise, fez colchas caprichadas, telas admiráveis, saias rodadas e coloridas, paletós de mangas bem soltas... A sra tocou na veia inflamada da nossa Arte curando e fazendo fluir sangue e pensamentos como cascatas de fogo purificador! Nós loucos sabemos funcionar. E, mais do que funcionar, sabemos exercer a incômoda função de colocar nossos dedos nas feridas, tanto as nossas quanto as alheias. Mostramos aos "outros"_ que se dizem não-loucos_ que as coisas não estão assim tão bem organizadas quanto querem fazer parecer. As sementes do Caos habitam em toda e qualquer Ordem. Nós loucos sabemos funcionar, em todos os circuitos. Nos circuitos do crime, das drogas ;no circuito da Morte. E também, com muita propriedade, nos circuitos da Arte, da Moda, da Gastronomia; nos circuitos de Saúde, de Guerra e de Paz. Temos cada vez mais ferramentas para atuar no mundo, das mais diferentes posições. Obrigada, dra Nise, por ter enxergado isso tão claramente, e por ter revelado sua visão ao mundo. Estamos aí pelas cidades, reescrevendo o perfil da Loucura. Com nossas canetas de cores inomináveis, lápis invisíveis que brilham no escuro, em cadernos e papiros magnificos! Graças a pessoas como a sra, estamos descobrindo os caminhos e a potência de nossa própria Medicina. Porque de médico e louco, afinal, todo mundo tem um pouco... Lamentamos se nosso funcionamento assusta tanta gente. Lamentamos se deixamos em choque aqueles que nos julgam incapazes, que nos limitam por diagnósticos. Não temos a intenção de chocar ninguém. Até porque conhecemos o que é choque, e sabemos como fere. Evoé, dra. Nise! Evoé! Ayaya!"