Sobre asas e gaiolas - Ocupa Nise 2015

Publicado por Nathali Corrêa Cristino em 26/9/2015

Queria falar sobre o voo, sobre o pouso, sobre o ninho.

Quando chega ao final o Ocupa Nise, sempre fico com essa sensação de que somos como pássaros, cada um vindo do mais distante e diverso lugar e que, agora, pouco a pouco, batemos nossas asas de volta pra casa.

Esses pássaros que chegaram, outro dia mesmo, com tanto alvoroço, sem lembrar ao certo porque a vida os reconduzia para aqui. Esses pássaros que redescobrem o afeto, no dia a dia da convivência, nas novas experiências com o corpo e com a alma, que só a arte é capaz de produzir.

Sim! Somos pássaros! Agora com asas um tanto mais potentes, pois nos lembramos de quem somos, de nossa ancestralidade e conexão com a natureza, de nossa capacidade criativa e amorosa, de nossa habilidade de tecer laços.

Sim, somos pássaros e agora vamos embora, com o peito aquecido e a cabeça fervilhando, com a palavra na boca e o toque na face.

Somos pássaros...

Mas não nos esqueçamos dos outros pássaros, aqueles que deixamos aqui, aqueles cuja brutalidade de nosso mundo podou as asas, trancafiou em gaiolas e enfraqueceu o sangue com veneno.

Acho que esse ano o momento que mais me marcou foi quando, sem entender muito bem porque, eu acabei subindo demais as escadas do Instituto e me deparei com a enfermaria.

Tive medo, voltei atônica...

No meio das escadas, enquanto descia, me deparei com Vítor, que me perguntou se eu estava bem... Não, não estava, não sabia explicar com palavras aquela sensação. Ver as paredes tão coloridas deste lugar que amo tanto perdendo as cores, se mostrando a mim como realmente são. A realidade da Instituição. Tive medo...

Lembro de Vítor dizer alguma coisa sobre sermos alquimistas e estarmos aqui para transformar a matéria bruta de que é feita a vida em algo diferente, em algo realmente vivo. Não lembro bem... Eu queria sair dali, queria me esconder, queria explodir em lágrimas.

Fui para o meu quarto e desabei, lembrei dos meus pacientes queridos, com quem convivi e que suportaram toda sua vida em instituições como essa, que morreram em instituições como essa.

Conversando com minhas companheiras de quarto lembrei de Maria. Maria que em alguns momentos me chamava afetuosamente de "loirinha" e, em outros momentos menos possíveis, me xingava de nomes que eu nem imaginava que existiam.

Maria que eu tanto amava e que perdeu a sua vida num lugar como esse. Como chorei quando Maria se foi...

Comecei a mostrar pra minhas amigas algumas fotos de Maria e então reparei novamente em sua expressão sofrida, seus olhos marcados pela brutalidade a qual sua vida foi submetida.

Mas entre as fotos que tenho de maria, uma delas me saltou aos olhos. Uma foto que tenho de Maria na oficina de teatro que fazemos no CAPS onde trabalho. Um lugar de arte e expressão, onde brincamos, onde nos olhamos, onde experimentamos afetos potentes de vida. A única foto onde Maria sorria...

Nesse momento, de todo esse caos eu pude retirar algum sentido...

E pude sorrir novamente.