Dia Mundial da Saúde Mental: A crise é de saúde mental, sempre foi.

Publicado por Vitor Pordeus em 10/10/2015

Reflexão sobre o momento atual da política mental no Dia Mundial da Saúde Mental

Arte: Nando Pontes

A crise é de saúde mental, sempre foi.

Diante de uma realidade agressiva, violenta, incoerente, vazia de significado, antes de culparmos os negros, os judeus, os gays, os imigrantes, os favelados, a presidenta, o outro, devemos refletir sobre nossa cultura, nossas práticas culturais históricas e perguntar se o problema não está sendo provocado por nós próprios. Poderíamos perceber que geralmente somos incapazes de reconhecer os nossos próprios defeitos, nossos aspectos sombrios da personalidade e acusamos o outro de ser a causa dos problemas que carregamos internamente, e que, na verdade, não temos coragem nem autocrítica para enfrentar essas questões. O mais perigoso inimigo é interno.

Configurando assim um grave problema de saúde mental, negativismo e autodestruição coletivos, que nos encaminha para uma realidade de guerras, violências, miséria, corrupção que a maioria de nós acaba por sucumbir, cedo ou tarde, à esse espírito de época sombrio e aos psicotrópicos e outras drogadições. “O sonho da razão produz os monstros”, nos lembra o pintor Goya.

O campo da psiquiatria transcultural se dedica, numa tradição arte-científica muito estruturada nacional e internacionalmente, a estudar os mecanismos e explicações da doença mental a partir de uma compreensão mais profunda da biologia humana, a linguagem, as emoções e a cultura, a organização social e política, os ecossistemas e a biosfera, numa perspectiva histórica da biologia e da humanidade. Hoje sabemos, a partir da paleo-antropologia, que foi ao longo de pelo menos 3 milhões de anos atrás quando surgiram os primeiros ancestrais hominídeos, os primeiros grandes primatas bípedes, sem pêlo, e que foram desenvolvendo o modo de vida que no caracterizou humanos, fazendo sexo frontal, liderados pelas fêmeas - nem gays nem héteros, bissexuais e coletivos - dançando juntos, cantando juntos, colaborando, colhendo plantas e caçando, se enfeitando com colares de contas, pintando nas paredes, se reunindo em volta do fogo, desenvolvendo a linguagem, os símbolos, os ritos, as imagens, narrativas e histórias que compõe nossa identidade, nossa personalidade e nossas civilizações. É importante observar que nossos ancestrais africanos e índios que guardam ainda sobreviventes desse modo de vida tribal que se confunde com as próprias origens da humanidade, vivenciam o aspecto coletivo de forma muito mais integrada, sexualidade lúdica, natural e social (vejam o documentário As Hipermulheres no youtube), vivendo harmoniosamente com o a natureza. Eles não apresentam síndromes de saúde mental tão prevalentes no homem urbano moderno como a depressão, o suicídio, os transtornos de ansiedade, nem hipertensão, nem diabetes nem câncer, nem doenças alérgicas nem autoimunes. Nossas doenças são reflexos de nossa cultura e nosso modo de viver. E atualmente, muitas vezes, nossas doenças são reflexos das políticas de marketing da indústria farmacêutica.

Como podemos fazer uma reflexão profunda o suficiente para que gere mudança de conduta por nossa parte, de nossas famílias e comunidades? Vamos conversar mais. Através da conversa, do debate, do diálogo, todos deverão discutir o tema da saúde mental e frear a auto-destruição aparentemente inexorável que vivemos. Assim poderemos desenvolver e formular opiniões mais adequadas e profundas sobre nós próprios, nosso modo de viver, nossa cultura, nossa dieta, nossa agricultura, nossa relação com o ambiente, a arte, a poesia, o cinema, o teatro, a música, a dança. Nada do que for humano nos será estranho, cuidaremos dos mais vulneráveis e em maior sofrimento. Poderemos recuperar aquilo que somos vocacionados enquanto espécie: o amor, a cooperação, a solidariedade e a construção democrática. A democracia é um modo de vida, é saúde mental, não é simplesmente um sistema eleitoral. Primeiro, saúde mental.

Montreal, 10 de outubro de 2015.

Vitor Pordeus, médico pesquisador, psiquiatra transcultural, coordenador fundador do Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde,Hotel e Spa da Loucura, Instituto Municipal Nise da Silveira, Rio de Janeiro, Brasil.

Pesquisador colaborador da Transcultural Psychiatry Division, McGill University, Montreal, Canada.

www.upac.com.br contato@upac.com.br