Versos de Cortejar Engenho de Dentro -Ocupa Nise 2015

Publicado por Nadia Duque Lopes em 13/10/2015

Quem dera eu ser artista, borbulhar entre as ruas num percurso legitimo de quem brinca com a mediocridade. Escancarar as dificuldades com leveza. Devir artista. Vestir a roupa e a pintura no rosto para distribuir alegria. Distribuir amorosidade.
Danças frente a tantas energias paradas, mórbidas concretas.E dentre os dançares, o ocupar o palco da vida, das ruas. Engenho de Dentro vai para fora...
As contradições do estar dentro do manicômio, e lá dentro nas paredes grafitadas sentir leveza, liberdade de ser. Aconchego nos encontros tantos.
O amor estava lá. O que é amor, se não algo fluido e orgânico? Que vai pelas frestas, energia que brota e vai fluida em espaços não vistos a olho nu.
O cortejo diz: “Escuta, escuta, o outro a outra já vem... escuta! Acolhe! Cuidar do outro faz bem..”A energia produzida perpassava andares, corria espaços... água fluída.
“Salve a força da água, com o que ela nos traz, salve o prazer, a criatividade, flexibilidade pra viver bem mais...” Salve a força fluida da água, que percorre, escorre...
Nos muros e nos habitats não naturais, arvores tristes, porém fortes. Fortaleza que sustenta a amplidão do caos.

É dia de cortejo. Visto-me de artista. O artista me veste. O lenço vermelho na cabeça me transforma em ser que pulsa de dentro para fora. Ânsia pelo porvir a ser. Colorido. Encontro palhaços de diversas cores na escadaria. E dentre muitos, o meu Cortejo sai para cortejar Engenho de Dentro. Cantigas amarelas, vermelhas, verdes, sussuradas e dançadas em prosa, verso. Saímos a cantar, rodopiar, e encantar colorido pelos espaços cinzas, antigos e carregados, muros históricos de dor.
“Ocupa, Ocupa, ocupa Nise...Sem culto a Culpa, ocupa Nise, Engenho de Dentro pra Fora!!! Engenho de Dentro pra Fora!!!” Ao passar grito de gente que está trancada dentro de uma cerca querendo também ser cor. Ali, no pequeno possível, me devoto ao abraço dentre grades. A atriz de vermelho se põe de braços espalmados para trocar abraço entre grades, e o abraço vem, encontro de dois coloridos, que anseiam por fluir de cores internas. A grade torna-se detalhe. O fluir de cores acontece naquele instante de troca. Naquele olhar, naquele olhar tinha gente ainda. E tinha muita gente. Gente que transbordava com os olhos. Olhar penetrante, comunicação intensa.
O Cortejo sussurra ao adentrar nos residenciais intra muros de Engenho de Dentro. Cada qual ator ou atriz num embalar de canto para quem pudesse se dispor ao encontro. Fico ali ao encontrar aquele ser todo retorcido, com olhar no chão. Bola retorcida de uma coisa só que se confundia com o cinza dos muros. Mas ali havia um pé. Pé que ritimava ao som da zabumba, “Amor, Amor, Amor...” Com aquele pé dançava, se coloria, se transmutava. De um pé saiu uma mão que me pediu pra dançar. Contato sutil que só resvalava o toque naquela mão fria, sussurro de cantiga, a minha saia rodopiava naquele embalo lento. Rio percorria meu corpo, sensação de rodopiar naquele espaço lento, barco a navegar em tempestade calma. Vermelho se misturava a cinza, a verde, a sem cor. Dança fluida, toque incessante. Troca de resgate de seres.
Sussurros entram no corredor da moradia. Cena mordida e clichê de ser nu correndo pelo corredor, cuidadoras se misturavam na cena cinza, coladas como em foto chapada em preto e branco. Cena que devia estar ali por seus 30 anos. Atores entram no sussurro do quarto, me pego a olhar ela que estava a continuar a cena de vestir o homem nu, porém ela também estava nua, de escuta. Toque sensível no ombro querendo adentrar na cena da foto emoldurada. E um olhar vem, toque embalado com sussurro ao pé do ouvido. “Desde o tempo em que eu nasci, aprendi algo assim,... cuidar do outro é cuidar de mim, cuidar de mim é cuidar do outro, cuidar do outro é cuidar de mim, cuidar de mim é cuidar do mundo...”
A cena emoldurada permite minha entrada, e se transforma em olhar compassivo, que para, olha e a nudez se veste de um pouco de calor e sorriso. Com a cena agora aberta explico sobre o Ocupa Nise, ação de arte cultura como cidadania dentro de Engenho de Dentro que a mesma desconhecia, apesar de que de onde viemos acontecer naquele cinza há cinco anos. Quem sabe outras entradas na cena desse quadro possam trazer mais movimento para essa foto cotidiana.
Ao dar voltas pelos espaços encontro com outro cortejo que voltava da energia pulsante da rua. Ahh como essa energia pode se somar? E aos poucos fomos nos ritmando e fazendo um corpo só. E sim, subiríamos para a enfermaria. Andar de cima das paredes grafitadas e energias pulsantes do Hotel da Loucura. E ao subir das escadas, energia pulsante transforma-se em energia densa que parecia ter escudo contra nossa entrada. Mas a força do corpo uno do cortejo agora maior entra na densidade e sussurra sem percussão entre as paredes gélidas e brancas. Mas o portão verde, que antes fora contratualizado que se abriria, manteve seu escudo cerrado. Grade que parecia enorme demais como se ampliasse seu trancar de dor a cada momento. A cada cantiga, aquela grade parecia transpassar nosso corpo, como se gritasse entre nós que ali ela teria muito mais força. Que a alegria não teria espaço para transcorrer a ponto de quebrar a materialidade da prisão de seres. Tensão. A cada cantiga o corpo do cortejo se fazia mais espesso em frente aquela grade, que agora estava a carregar seres grudados agonizando pedindo ajuda. A energia espessa lava os atores com choro. Choro coletivo pela cena gélida de realidade. O Malandro do outro lado das grades conta sua historia, produz riqueza de relato em meio a tanta dilaceração dos nossos estados.
À noite, um dos atores consegue que o Malandro perpasse as grades para participar de nosso partilhar coletivo das cenas vividas por cada singular cortejo naquele dia. E No bailar encenado das vivencias, nas dores e delicias desse cortejar em Engenho de Dentro com Malandro marcando sua presença na roda de atores, ao encenarmos a cena da enfermaria e entoarmos juntos a música “Ocupa, Ocupa, ocupa Nise...Sem culto a culpa ocupa Nise, Engenho de Dentro pra Fora!!! Engenho de Dentro pra Fora!!!” . O Malandro presente, enche-se de ator e cor, e espontaneamente, continua o verso:
-“Segura o Malandro lá fora... segura o malandro lá fora!!”
Exaltação coletiva pelo colorir-se. Coloridos somam-se no céu que se torna vermelho, lilás, de cores múltiplas de afetos produzidos que se somam dentro de nós.
Afetação coletiva. Nise, gratidão pela oportunidade de transformar. Transformar-se!

Nadia Duque Lopes