Política cultural = política de saúde mental

Publicado por Vitor Pordeus em 20/10/2015

Como a política cultural determina a saúde mental?

No Brasil vivemos colonizados em todos os setores, infelizmente ainda somos uma colônia agropecuária, mas especialmente no campo vital da cultura que segundo demonstra a experiência simboliza a nossa saúde mental coletiva. Nossa cultura reflete ainda o projeto de futuro de país, o cuidado com as crianças, que cuidarão de nós quando formos velhos, e o cuidado com os idosos, a memória, a história, o patrimônio, quer dizer, significa nossa visão de mundo, nossos valores, nossas práticas e explicações, que moldam as diferentes gerações que compõe uma nação. Vejamos, no Brasil a esmagadora maioria, 80%, dos investimentos financeiros em cultura derivam da Lei Rouanet, que carimba projetos de certos produtores escolhidos politicamente por empresários, donos de empresa, diretores de marketing e propaganda, que então deixam de pagar os impostos e tem, uma campanha cultural de marketing, com espetáculos, filmes, novelas, peças, revistas, publicações, livros, televisão para vender seus produtos e seus artistas exclusivos sempre prontos para promover sabonete e carne, e lutar pela manutenção deste privilégio cultural gravíssimo que sacrifica a vida cultural de nossas comunidades e nação, de nossas grandes cidades que estão convertidas a sistemas de guetos e intensa violência que geram lucro em cada uma dessas fases.

Quer dizer, não há política cultural verdadeira em curso no Brasil, há uma campanha colonizatória que infelizmente é de séculos e já foi naturalizada pelo Brasileiro que sempre tem gente o suficiente para realimentar essa engrenagem onde a velha elite controla o país com seu nível educacional, científico, cultural superiores, treinados nas cidades do velho mundo ou no super-velho mundo os Estados Unidos, vem com tudo, com uma verdadeira ansiedade por controlar, por influir, por criticar em excesso, e trair o afeto recebido dos nossos ancestrais índios, empurrando esse materialismo financista fanático com um único modelo de realidade embutido. Aqui reside todo o perigo. Aqui se instala o controle ideológico inconsciente , que nós sabemos, é originada no uso populacional em Stalin e Goebbels, é altíssima violência, é coisa nazista, no realismo socialista, no realismo e hiperrealismo que dominam a linguagem cultural que domina o Brasil. Realismo quer dizer uma escola da arte que pretende retratar com máxima realidade um certo fenômeno, então os atores encenam como se tudo fosse verdade, com perfeição de detalhes e efeitos especiais, muitos close-ups, planos de câmera fechados no rosto, e tudo é levado muito a sério, há uma hipertrofia, em certos casos colossal,do Ego - o conjunto de ideias que temos sobre nós próprios - vai inflando, vai inflando e pronto, já não existe outro modelo de realidade, e podem assassinar os negros jovens do Brasil que eu nem vejo, podem destruir o sistema cultural que estou anestesiado, a educação pode ser a pior do mundo que nem me dou conta, eu vejo novela e assisto televisão. Entendem?

Que venha o debate e a adoção de práticas culturais humanizantes, coletivas, comunitárias, que emanam das pessoas e das comunidades, o teatro, a música, a poesia, toda acultura popular, o carnaval, os reizados, os bumba meu boi, os cortejos, as procissões, os festivais de bairro, a vida cultural na ágora, na praça, no berço histórico da democracia direta que nos é útil desde sempre na mediação dos conflitos familiares, comunitários, na tradição, na produção de memória, identidade, cuidado de si, do outro e do mundo. É como fazemos saúde mental em experiências documentadas e publicadas, hoje objeto de tese de doutoramento na divisão de psiquiatria transcultural e social da Universidade McGill, uma das mais prestigiosas do mundo, muito desejosos que nosso Brasil acorde para essa questão. Há de dar certo. Salve Glauber Rocha, Lygia Clark, Helio Oiticica, Nise da Silveira, Darcy Ribeiro e tantos outros ancestrais que ousaram pensa e praticar parar a cultura dar certo no Brasil.