A revolução científica da biologia está chegando

Publicado por Vitor Pordeus em 4/11/2015

mais uma crônica pela saúde mental

A revolução científica da Biologia está chegando.

Especial para O Sol Semanário, Rio de Janeiro, Brasil.

Todas as grandes transformações de nossa história foram, antes de tudo, transformações do conhecimento; em suas diferentes fases e faces, temos construído nossa história na substituição de ideias fracas por ideias fortes, novas práticas que a partir de uma nova compreensão são capazes de alterar nosso viver, nossas condutas. Por exemplo: uma noite, em 1609, o astrônomo Galileu Galilei aponta telescópios importados da Holanda para o céu e vê o movimento de astros, algo na época considerado impossível. Essa imagem, essa constatação, a repetição dessa constatação, a utilização de matemática para estudar esses movimentos, levam à revolucionária conclusão: a igreja e a astronomia ptolomaica de dois mil anos de idade estavam erradas. A Terra não estava no centro do Universo, mas o Sol. Giramos em torno do Sol. E essa ideia forte veio junto com o telescópio, ferramenta que permite que todos vejam os movimentos dos astros. Galileu viajava por toda a Itália, apresentando o telescópio e a revolução da astronomia; era popular, amado pelo povo, respeitado até pelo Papa, mas foi denunciado à Inquisição, ficou oito meses preso, foi torturado psicologicamente, ameaçado de tortura física, obrigado a negar suas descobertas e condenado à prisão perpétua e à incomunicabilidade. Morreu vigiado por padres, tendo tudo que escreveu confiscado e, mesmo assim, conseguiu publicar na Holanda, clandestinamente, seus Discursos sobre os Dois Sistemas Solares. Esse livro lançou a Revolução Científica Moderna, onde a compreensão, a cultura e as crenças vieram mudando radicalmente de era em era. Hoje, sabemos, o Universo não tem centro, são trilhões de galáxias como a nossa, e o Sol se move a setenta mil quilômetros por hora, é um cometa surfando a expansão do universo, e orbitamos em espiral seguindo o sol. No século XIX, o inglês Charles Darwin lançou a ideia forte da Evolução das espécies e derrubou Deus do lugar de criador do homem. Imaginem!

Em nosso tempo, como ao longo dos últimos séculos, há revoluções científicas em andamento. Em particular, no campo das ciências da vida, da biologia. Há quase 400 anos, o filósofo-cientista René Descartes (Renatus Cartesius) propunha uma biologia que afirmava ser a natureza uma máquina e o organismo, um complexo relógio, com causas e efeitos isoláveis. Igualmente, a psiquiatria agressiva dos eletrochoques e das altas doses de drogas moleculares é da mesma visão cartesiana, trata o organismo como máquina. Por isso, não funciona. Por isso, estamos nos autodestruindo enquanto espécie e destruindo a natureza, nossa única nutriz. É um equívoco científico.

A nova Biologia que conquista espaços dia após dia, como uma boa ideia forte, abandona os modelos mecânicos e reducionistas do cartesianismo. Ela propõe que a vida é substância única, tudo que é vivo está conectado em uma biosfera ecológica. Adoecemos juntos e nos curamos juntos. Somos uma rede, círculo dentro de um círculo, sem início e sem fim. Ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém. Essa visão de mundo é a nova ética para o século XXI. Ética de um conhecimento que chega tarde, no pós-apocalipse da catástrofe ambiental provocada pelo capitalismo financista-petroleiro. Conhecimento científico que restaura e dialoga com os saberes ancestrais dos povos originários, pois esses sim entendiam e entendem de biologia. Essa biologia irá revolucionar a medicina, fazendo-a humana de novo, reaproximando-se da cultura, das emoções, da vida familiar e comunitária. A partir dessa visão de mundo renovadora poderemos construir o projeto da nação brasileira, formada pelo povo e pela natureza mais diversos do planeta, que produzem muito conhecimento útil para orientar a vida sustentável das comunidades. A vocação biológica de nosso país, o encontro ecológico de culturas, nossa alma tribal, produziu os cientistas mais importantes desse novo paradigma da biologia. Na área de educação, Paulo Freire; na antropologia, Darcy Ribeiro; na psiquiatria, Nise da Silveira; na imunologia, Nelson Vaz; e é longa a lista, felizmente. Resta ainda que essas ideias fortes e transformadoras daquilo que compreendemos sobre nós próprios e sobre o mundo circulem cada vez mais livremente.

Vitor Pordeus, médico pesquisador, psiquiatra transcultural, coordenador fundador do Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde, Hotel e Spa da Loucura, Instituto Municipal Nise da Silveira, Rio de Janeiro, Brasil.

Pesquisador colaborador da Transcultural Psychiatry Division, McGill University, Montreal, Canada.