Reforma da Inteligência: mais importante que as reformas educacional, agrária e da mídia.

Publicado por Vitor Pordeus em 10/11/2015

A contribuição de Baruch de Espinosa.

Reforma do Intelecto: mais importante que as reformas educacional, agrária e da mídia.

A contribuição de Baruch de Espinosa.

Especial para O Sol – Semanário, Rio de Janeiro, Brasil.

“Eventualmente, a tecnologia emergiu como uma estrutura social altamente integrada, envolvendo forças científicas, políticas, gerenciais e econômicas, inter-relacionadas de um modo tão complexo que os homens não mais são capazes de entender seus complicados problemas ou mesmo dar-lhes alguma direção.”

René Dubos (1901-1982), cientista franco-americano.

O delírio da razão produziu seus monstros. Muitos, máquinas imensas, drones, bombas atômicas, praticamente todo o planeta devastado, refugiados, guerras, miséria humana, violência. Ficamos poderosos demais e ainda fingimos que somos ignorantes. Sofremos por excesso de informação. Nossas certezas nos imobilizaram. Entretanto, se fizermos alguma pesquisa nas tradições de conhecimento ancestral, veremos que essa batalha entre a luz e as sombras é imemorial. Ocorre nas religiões e mitologias mais primordiais, está presente em toda a cultura. A luta entre o que compreendemos claramente e o imenso desconhecido acompanha nossos ancestrais desde que o mundo é mundo. A própria aventura humana parece ter se originado em algum ponto há aproximadamente três milhões de anos, com o domínio do fogo, a utilização de colares de contas e enfeites, o convívio coletivo, o nascimento da cultura, quando começamos a abstrair, representar, refletir sobre nós, nosso mundo e nossa natureza. Criaram-se assim os primeiros modelos de conhecimento e rituais para guiar nossas ações: construir casas e pirâmides, dançar para adorar deuses e deusas, irrigar o solo, levantar cidades e tecnologias.

Entre os mitos que abordam os perigos inerentes ao conhecimento, há o do titã Prometeu. Ele havia moldado a humanidade, do barro, a mando de Zeus. O Deus dos deuses proibiu que os homens tivessem acesso ao fogo, pois isso poderia fazer a humanidade ficar poderosa demais. Prometeu em defesa apaixonada de suas criaturas, roubou o fogo dos deuses para a humanidade. Ele acabou punido, preso numa rocha por toda a eternidade, tendo uma águia a devorar seu fígado todos os dias. De acordo com a mitologia grega, aí está a origem da propriedade hepática da regeneração, para lembrar-nos de Prometeu e de nossa responsabilidade sobre o que sabemos e fazemos.

Nossos ancestrais devotaram enorme obra nesse debate. E, talvez, um deles tenha feito uma contribuição especialmente importante e clara. Ele publicou “Tratado da Reforma do Intelecto (1677), “Tratado Teológico Político” (1670) e “A Ética” (1677), entre outros. Acredito que a reflexão central da obra de Baruch de Espinosa recai exatamente na relação ética do conhecimento. Espinosa entendeu que somos afetados em ação pelas ideias, que não são entidades abstratas desligadas do mundo. Para Espinosa, a ideia é afeto, e afeto é corpo, é relação, é ação e potência de agir. A mente é expressão simultânea do corpo, não está dele separada. Ele compreendeu com extraordinário pioneirismo que separar a mente do corpo - como fizeram e ainda fazem os cientistas, médicos, psiquiatras, engenheiros, gestores modernos - tratar o organismo como máquina, desprovido de afeto, de relação com a natureza, era um gravíssimo erro, que colocaria em risco nossa existência. Como escapar de tal equívoco?

Para iniciar, ele nos ensinou que existem três tipos de conhecimento: o primeiro é a fofoca, o ouvir dizer, que é a origem de toda falsidade e todo erro. É principalmente a fofoca que guia a ação dos homens, daí tanta loucura. Não controlamos nossas línguas.

O segundo é o conhecimento racional, tipo pelo qual construímos verdades confiáveis, que nos ajudam e aumentam nosso prazer.É conhecimento das ideias adequadas à natureza, ideias observadas na experiência histórica, regularidades recorrentes, que nos ensinam sobre o comportamento regular das partes e do todo da natureza. Conhecimento racional de ideias claras e adequadas demonstradas na experiência. A isso também podemos chamar de ciência. Ciência vem do latim, scientia, conhecimento.

Finalmente, o terceiro tipo é a intuição. A partir do conhecimento claro e útil das relações históricas da natureza, você será capaz de “intuir” novas ideias e relações que levam a cada vez maior iluminação, isto é, encontro e conexão com a própria natureza, substância viva, eterna e infinita, ou seja, Deus para Espinosa . A intuição, seria, portanto, o gênero mais alto de conhecimento, ciência intuitiva, que leva a uma vida de liberdade, potência, alegria e prazer.

A atualidade de sua obra é máxima para inúmeros campos. Ele conseguiu escrever e nos atravessar estas ideias liberadoras do conhecimento, instruindo-nos para a ação, libertando-nos das ideias obscuras, instrumentalizando-nos para a prática da medicina, da psiquiatria, para a construção de política eficiente de saúde mental de comunidades e cidades.

Conforme conclui o próprio Espinosa no fim da Ética: não que seja fácil, pois se assim fosse, todos estariam salvos. Mas a experiência garante que é inadiável a clareza e a boa construção das ideias, tarefa árdua que exige grande sinceridade consigo mesmo e pesquisa, pois tudo que é excelente é tão raro quanto difícil.

Mas é possível e não tem segredo. Arte é ar, ciência é luz.

Baruch de Spinoza (1632-1677) – Bento de Espinosa em português, sua língua materna, e Benedictus de Spinoza, em latim – originário de uma família de judeus portugueses refugiados na Holanda, fugitivos da Inquisição Ibérica.