O vírus Zika de Nelson Vaz MD, PhD, Emeritus UFMG

Publicado por Vitor Pordeus em 11/12/2015

um dos imunologistas mais importantes do mundo, com imenso respaldo da comunidade científica internacional, o Professor Nelson Vaz situa cien


O vírus Zika

Um ano antes de migrar da UFF, em Niterói, para a UFMF, em Belo Horizonte, escrevi um texto de divulgação - “Reconhecer a si próprio” (Vaz, 1983)- onde estão expressos os pontos fundamentais de mudanças que creio necessárias no entendimento da imunologia. Já lá se vão 32 anos, conhecemos extraordinariamente mais sobre as células e moléculas envolvidas na atividade imunológica e esta mudança ainda não ocorreu. Que mudança é esta, afinal, que é tão difícil, que não se percebe que deva ocorrer?

Consideremos as preocupações atuais com a possibilidade de que o vírus “Zika” esteja envolvido na gênese de defeitos congênitos graves (microcefalia) em fetos humanos e também em quadros neurológicos, como a síndrome de Guillain-Barré, de possível natureza “autoimune”. Este suposto envolvimento ainda precisa ser comprovado[1], mas levar até a população a discussão da biologia do desenvolvimento humano e do que são, afinal, doenças “autoimunes” é revelador de como ainda é precário nosso conhecimento. E, como dizia Gregory Bateson, a inclusão da humildade com um item na agenda da ciência é um ato de sensatez. Ainda é muito grande a nossa ignorância, e nossos problemas são de uma enorme complexidade.

O vírus Zika tem sido apresentado à população como um dos três vírus transmitidos pelo mosquito Aedes egypti (pronuncia-se: Edes egipti). Mas este mosquito é reconhecido como transmissor de quatro, não apenas os três nos quaisinsiste o noticiário atual: dengue, chikungunha e zika. O primeiro vírus, que era (é) certamente o mais ameaçador, é o vírus da febre amarela; sua importância baixou com a invenção de uma vacina eficaz e duradoura. A vacina contra a febre amarela e tão eficaz que já se cogitou associar à mesma produtosdo HIV, ou do parasita da malária, como recurso de vacinação contra estas doenças, para quais a imunização se tornou muito difícil (Van Epps, 2005).

“Por que não inventam vacinas contra os outros três vírus?” Esta pergunta tem uma resposta simples e desanimadora: Porque ainda não sabemos fazê-lo. Pela mesma razão, não existem vacinas contra o HIV e a malária, apesar de imensos e prolongados esforços de pesquisa. A situação, de fato, é pior: exceto em alguns casos [2] não sabemos ao certo como funcionam as vacinas em uso médico; elas são usadas porque há evidências empíricas e epidemiológicas de que elas funcionam. Como se resolve esta situação? A longo e a médio prazo, através de investimento maciço em pesquisa básica e por medidas, mais complexas, de saneamento. Não há solução a curto prazo.

O processo de inventar novas vacinas é custoso e demorado e não há sequer garantia de que vacinas eficazes possam ser inventadas contra todas as doenças infecciosas.

Os procedimentos necessários para contar as epidemias atuais dependem do controle do mosquito Aedes egypti. Que isto pode ser feito no Brasil, foi demonstrado por Oswaldo Cruz, em 1904, com a criação do serviço dos “mata mosquitos”[3], que eliminou a febre amarela do Rio de Janeiro.

Obviamente, isto tem muito a ver com o entendimento atual da imunologia. Se sabemos ainda tão pouco sobre a invenção de vacinas, o que dizer sobre a microcefalia e a síndrome de Guillian-Barré, atribuídas ao Zika?

O enorme número de casos em que se alega a ocorrência de microcefalia em gestantes brasileiras, principalmente no Nordeste, é um fenômeno gravíssimo e inaudito. Por isso é muito importante esclarecer se a infecção das gestantes pelo vírus Zika está mesmo envolvida na gênese da microcefalia. Os dados epidemiológicos atuais não são compatíveis com a hipótese viral (Collucci, 2015) e é urgente considerar o envolvimento de um outro fator; por exemplo, seria tragicamente irônico se o uso da vaporização de pesticidas para controle do mosquito pela saúde pública, fosse um fator de risco.

Remotamente, há uma relação entre defeitos congênitos no sistema nervoso central e a síndrome de Guillian-Barré, que é uma inflamação do sistema nervoso de origem desconhecida, supostamente autoimune. Afirmar que uma doença ou um sintoma tem uma origem “autoimune” é de pouca valia no estado atual do conhecimento, pois não há métodos precisos de diagnóstico destas doenças e não há cura conhecida para nenhuma destas doenças. Fala-se de uma doença autoimune quando linfócitos e anticorpos, supostamente dedicados à defesa do corpo contra invasores externos, passam a atacar o próprio corpo. Mas isto adianta muito pouco o nosso entendimento porque a crença secular de que os linfócitos e anticorpos nos defendem de vírus e micróbios está sendo seriamente questionada.

Que questionamento é este, afinal, que é tão difícil de explicar, ao qual me refiro no texto de 1983? Ele é parte de um vasto problema que tem a ver com o “retorno” do organismo à Biologia de que fala Daniel Nicholson (2014) e com algo chamado eco-evo-devo de falam Scott Gilbert e colaboradores (ref) que é um corpo de preocupações simultâneas com a ecologia (eco), a teoria evolutiva (evo) e a antiga embriologia (devo), o desenvolvimento biológico.

As mudanças na ecologia foram posta em evidência pelo aquecimento global, mas na Biologia propriamente dita elas têm a ver com uma drástica mudança em nosso entendimento sobre o mundo microbiano. Durante um século e meio de pesquisas, a imunologia não se preocupou com os trilhões de micróbios que vivem sobre nossa pele e nossas mucosas, porque eles raramente se envolvem diretamente em doenças infecciosas como as que levaram à invenção da imunologia no século dezenove.

A teoria evolutiva dominante durante todo o século vinte, denominada teoria sintética (ou neodarwinismo) porque uniu o Darwinismo ao conhecimento sobre Genética de Populações, é hoje reconhecidamente insuficiente como fundamento geral dos fenômenos biológicos ( & Piggliucci, 2008; Nicholson, 2014). Uma biologia centrada nos genes (genocentrismo) já não atende a numerosos problemas que requerem soluções e tem sido afetada pelo que se aprendeu na biologia do desenvolvimento embrionário, o terceiro item na tríade eco-evo-devo.

A antiga Embriologia foi separada da Genética nos anos 1920-1930 e pela dificuldade do trabalho experimental com embriões, progrediu muito lentamente na primeira metade do século vinte. Com o desenvolvimento de métodos da Genética molecular, no entanto, foram criadas ferramentas poderosas para o estudo de embriões que, gradualmente, se transformou na biologia do desenvolvimento como a conhecemos hoje.

Este é o “retorno” do organismo à Biologia a que Nicholson (2014) se refere, que tem a ver com encarar “o viver” como um problema abordável pela metodologia científica.

Na imunologia, “o organismo” tem sido apenas a dimensão ou local onde se processa a atividade imunológica, um lugar a defender mas que é tacitamente aceito sem outra descrição. Na nova visão da imunologia que defendo, a atividade imunológica constituída de mudanças e conservações celulares e moleculares é parte da construção e manutenção do organismo, em vez de ser algo construído e mantido pelo organismo (Maturana, 1993).

Nos dez anos que separam o texto de 1983 da publicação do “Guia Incompleto de Imunobiologia “ (Vaz e Faria, 1993), meu trabalho incorporou progressivamente conhecimentos da Biologia da Cognição e da Linguagem (Maturana, 2002; Maturana and Poerksen, 2004). Entendi que o “reconhecimento de materiais estranhos” (antígenos) é um problema “cognitivo”, ligado ao conhecer ((à epistemologia) e não pode prescindir da discussão destes aspectos mais gerais da Biologia.

Collucci, Cláudia (2015) Há muita suposição e pouca certeza sobre o Zika. Pelos critérios do Ministério da Saúde, SPdeveria ter 236 mil casos; governo paulista diz que Estado só tem 4. Folha de São Paulo 09/12 (B5)

Maturana, H. (1993). Prefácio. In N. Vaz & F. A.M.C. (Eds.), Guia Incompleto de Imunologia. Como se o organismo importasse. Belo Horizonte: COOPMED.

Maturana, H. (2002). Autopoiesis, structural coupling and cognition: a history of these and other notions in the biology of cognition. Cybernetics & Human Knowing, 9(3-4), 5-34.

Maturana, H., & Poerksen, B. (2004). From Being to Doing: The Origins of Biology of Cognition. Heidelberg: Carl-Auer.

Nicholson, D. J. (2014). The return of the organism as a fundamental Explanatory concept in Biology. Philosophy Compass, 9(5), 347-359. doi:DOI: 10.1111/phc3.12128

Van Epps, H. L. (2005). Broadening the horizons for yellow fever:

new uses for an old vaccine. Journal of Experimental Medicine, 201(2), 165–168.

Vaz, N. M. (1983). Reconhecer a si próprio. Ideias para uma nova imunologia.

Ciência Hoje, 2, 32-38.

Vaz, N. M., & Faria, A. M. C. (1993). Guia incompleto de imunobiologia. Imunologia como se o organismo importasse. Belo Horizonte: COOPMED.


[1] entender como podemos chegar eventualmente a esta comprovação, já seria um passo adiante na direção de esclarecer como ainda é precário o entendimento do que precisa ser conhecido.

[2] Nas vacinas contra exotoxinas (difteria, tétano, gangrena gasosa) e viroses que envolvem uma etapa crucial de viremia (como a poliomielite) a proteção ocorre por “neutralização” de uma toxina ou da chegada do virus a seus receptors celulares.