A loucura nossa de cada dia - parte I

Publicado por André Arcângelo em 5/1/2016

A loucura, outrora vista como capacidade xamânica em culturas ancestrais, adquiriu o status de marginalidade no mundo do mercado-capital.

Caros e caras e bocas,

Hoje usarei este espaço que me é mui gentilmente concedido para iniciar uma reflexão sobre um tema bastante presente em meu sacro ofício diário como psicoterapeuta, em uma perspectiva muito particular: a loucura.

Ao contrário do que supõe o senso comum, a loucura não é exclusividade de uma parcela da população que, ao lado das torradas com geleia e do suco de laranja, é forçada a engolir estabilizadores de humor e antidepressivos no café da manhã para conseguir transitar, como qualquer cidadão comum, mais ou menos bem adaptada e funcional pela sociedade.

O estereótipo do louco descabelado e sujo gritando com o poste no meio da rua é uma imagem que habita o imaginário de muita gente que, diária e devidamente asseada e com os impostos em dia, não se identifica com a figura do andarilho urbano ou do interno de uma clínica psiquiátrica. Mas não é apenas na sujeira estereotipada que a loucura reside.

Experiência presente na realidade humana desde que o mundo é mundo, a loucura pode ser encontrada nos lugares mais insuspeitos. Como diz o ditado, “de perto ninguém é normal”. Indigesta verdade para os que se julgam sãos e salvos.

Outrora vista como capacidade mágica a xamânica em culturas ancestrais, dom de sábios, místicos e visionários (magos, bruxas, xamãs, sacerdotes e sacerdotisas oraculares do mundo antigo a quem os demais consultavam) a loucura foi sendo gradualmente patologizada e marginalizada conforme o mundo adentrava mais e mais na era industrial-tecnológica. No mundo da técnica e da produção visando a eficácia de mercado, o delírio e o devaneio não têm vez; o indivíduo precisa ser funcional, para ser um bom negócio para as empresas. E se por alguma razão resolver sair dos trilhos, poderá ser aposentado por invalidez – palavra pesada que põe um ponto final na trajetória de muitas pessoas, reduzidas a meros trabalhadores no contexto da mitologia vigente. O xamã, inválido para a sociedade de consumo, cede lugar ao proletário, eficiente e produtivo. E proletário bom é xamã morto. Importante frisar que proletário não é apenas o clássico 'peão de fábrica', mas todos nós que nos inserimos enquanto forças de trabalho no mundo do mercado, ou seja, na sociedade moderna.

Uma adaptação submissa, obediente e linear da percepção, que não mais enxerga mundos invisíveis, mas apenas aquilo que o mercado manda – a realidade editada pela publicidade e pelos noticiários – é o pré-requisito fundamental para participar do sonho unilateral do mercado, mito maior do nosso tempo. Unilateral, porque sonho apenas para uma pequena parcela da população que dita as regras do jogo; para todos os demais é pesadelo.

Mas o que tem a ver sonho com loucura?

Ora, a loucura medicada de grande parte da população, que se vê lançada à margem da sociedade por ousar voar fora da asa, é justamente uma expressão do que se chama em psicologia junguiana de função mitopoética da alma, ou a função natural da alma em criar mitos e imagens poéticas. A alma, ou psique, de natureza essencialmente simbólica, cria espontânea e ininterruptamente mitos que regem não só nossa vida interior inconsciente, mas encontra-se também no pano de fundo de nossa vida desperta, consciente, orientando nossas escolhas e passos no mundo, estejamos cientes disso ou não.

Mas a sociedade de consumo possui seus próprios mitos (mercado, capital, the american dream), e depende da participação passiva de cada indivíduo para que funcione e permaneça existindo; precisa, então, domesticar e controlar a função mitopoética da alma, anárquica por excelência, a fim de obter e conservar uma sociedade homogênea, onde todos os indivíduos estão sonhando um só e mesmo sonho ao mesmo tempo. Para obter e preservar tal controle, lança mão de uma série de dispositivos institucionais (medicina, indústria) e “terapêuticos” (psicofármacos) para manter os indivíduos na linha, funcionando todos dentro de uma mesma mitologia, a mitologia do mercado.

Continua.