O resto é silêncio: a questão psiquiátrica-cultural do assassinato

Publicado por Vitor Pordeus em 20/1/2017

Teori foi assassinado. JK foi assassinado. João Goulart foi assassinado. Getúlio se assassinou frente à mesma circunstância política. Stuart e Zuzu Angel foram assassinados. Salvador Allende foi assassinado. Abel foi assassinado por Caim. Julio Cesar foi assassinado por seu favorito Brutus e todos os outros Senadores deram sua facada. O General Macbeth e sua Esposa assassinaram o bom Rei Duncan para subir ao poder. Ricardo III subiu ao poder assassinando todos os seus parentes na linha de sucessão e acabou abandonado até pelo cavalo no campo de batalha; foi assassinado gritando Meu Reino por um cavalo!
Vamos reconhecer, o assassinato é parte da cultura humana, é parte da cultura animal. Chimpanzés, nossos parentes mais próximos na biologia, basicamente ficam violentos e assassinam os adversários do bando quando há violação territorial, disputa por fêmeas e comida. O que devemos compreender do ponto de vista psíquico é que nossas consciências evoluem todas do mesmo lugar. Alguns de nós graças às bençãos da boa nutrição, da educação, da arte e da ciência conseguimos desenvolver níveis mais amplos de entendimento sobre nós próprios e nossa natureza. Mas não nos iludamos: nós também somos assassinos, nós também carregamos a mesma fúria e calculismo com que destróem uns aos outros. Quem, quando na infância, não sentiu fúria total e amor total contra a própria mãe, o próprio pai? Nossa vida psíquica se constitui nessas relações, nessas oposições e sincronicidades, como uma espiral que evolue perpetuamente e inevitavelmente.

O fundamental é perceber esta evolução de consciência como um processo natural, de desenvolvimento, de cura, que nosso organismo e toda a natureza à nossa volta estão fazendo mesmo que nós não percebamos porque nosso nível de consciência muitas vezes é baixo, submisso, violento, agressivo, deprimido, ansioso e todas as variações possíveis de estados de consciência, que parecem ser tão diversos quanto a própria biologia.

A experiência psiquiátrica demonstra, a partir de obras de verdadeiros cientistas, não dinheiristas, como Carl Jung, Nise da Silveira, John Weir Perry, os contemporâneos Jacques Arpin na Suiça, Frederick Hickling na Jamaica, Dra. Blythe Corbett nos EUA, Dra. Paula Thompson na California, que através da reconstrução cultural dos padrões de imagens-afetos que compõe a performance da pessoa é possível desenvolver níveis maiores e mais profundos de consciência a partir da compreensão da própria realidade.

É assim há milhões de anos, nossa espécie humana evoluiu da natureza, com a natureza, pela natureza, e nossa criação psíquica veio para inaugurar um nível de consciência mais pacífico, mais criativo, mais cultural, com liberdade de expressão e livre pesquisa na arte e na ciência, à custa do próprio nome e reputação, como disse Spinoza, grande conhecedor da alma humana.

Precisamos parar de condenar, criminilizar, reprimir, atacar e contra-atacar, para perceber os estranhos poderes da consciência humana coletiva, e cuidar de nossas consciências pois elas são o Deus compreensão, conhecimento, que ilumina, conforta e faz agir com mais potência e eficiência. Cuidar de nossas consciências significa cuidar de nossa cultura, de nossas comunidades, de nosso patrimônio simbólico e histórico. Significa evitar experiências imbecilizantes e emburrecedoras como a televisão e a cultura de massa com suas celebridades sem humanidade, vampiros que envenenam a todos sob comando do Diabo do Dinheiro, com futilidade, irresponsabilidade, falta de compromisso sobre aquilo que faz e fala, ganância e falsas curas, belezas e talentos, perdidos pelo comércio espiritual, artístico e científico.

Precisamos parar de colocar a culpa sempre no outro, no companheiro/companheira de existência, na família, na comunidade, no partido político, no país, nos outros povos, nos outros países. E seguir fazendo guerras, destruindo, atacando, gerando mais e mais desgraças e condenando a todos às mãos dos Reis assassinos que conduzem toda a coletividade ao frenesi irracional e bestialidade, como estamos vendo mais uma vez acontecer em nosso mundo contemporâneo.

Um dos meus maiores Mestres, um dos que mais me ensinou sobre a vida, a psiquiatria, a inteligência e a engenhosidade humanas contra a maldade, foi o Príncipe Hamlet, um personagem, um espírito, uma entidade do teatro do mundo, que tive o privilégio de brincar com ele no Hospício do Engenho de Dentro, seguindo conselhos de outra grande Mestra no plano espiritual, Nise da Silveira. Tive o privilégio de brincar com ele em Londres e Oxford, na Igreja de Shoreditch, onde o ator que brincou com o Hamlet com o Shakespeare, Richard Burbage, está enterrado com sua família de atores. Tenho o privilégio de aprender com ele e meus companeiros atores que a natureza humana vai de Ricardo III, psicopata genocida, à Hamlet, de Rei Duncan à Hekate.

E é através do trabalho cotidiano, da cultura, da educação, da produção simbólica que pode restaurar as consciências coletivas para um nível menos atroz com o que temos convivido por loucura e irresponsabilidade de todos e cada um de nós. Hamlet me ensinou estas preciosas lições de psiquiatria: "Ouvi dizer, que certos criminosos ao verem seus crimes encenados, ficam tão perturbados pela engenhosidade das cenas, que confessam imediatamente o seu crime. O negócio é a peça. Com a qual pegarei o Rei na Consciência." e no fim do espetáculo logo antes de morrer ele deixa um apelo:"Não tome o veneno Horácio. Se você tomar o veneno do que terá valido o meu sacrifício?
Reúne o povo na praça, exponha os cadáveres, e conte a todos, todos os detalhers maiores e menores, que me levaram a...o resto é silêncio.(morre)