"Nossa história de dois mil séculos" de Nelson Vaz

Publicado por Vitor Pordeus em 28/2/2018

esta imunologia toda sendo empurrada pela indústria farmacêutica, é isso delírio organizado, o delírio do dinheiro?

180228 - Ao Vitor

Nelson,
você outro dia disse que ciência é delírio organizado. Sinto que devemos explorar mais esse assunto em relação a como os cientistas adoeceram tanto, esta imunologia toda sendo empurrada pela indústria farmacêutica, é isso delírio organizado, o delírio do dinheiro?
Abraço,
Vitor

On Feb 28, 2018, at 01:43, Vitor Pordeus <vitorpordeus@gmail.com> wrote:
V. Pordeus MD

Vitor,
Em parte, sim, é econômico e é delirante. Emil von Behring, um dos inventores dos primeiros anticorpos (antitoxinas), fundou uma indústria (Behringwerke) para vender soro anti-diftérico no mesmo ano em que os inventou. E parece que nesta jogada, trapaceou Ehrlich, com quem tinha um acordo sobre lucros. Mas também é mais que isso: é o senso comum, a necessidade de entender coisas novas em termos de coisas velhas, de conceitos já existentes. A gente aprende a se defender, então parece natural que o corpos aprenda a se defender também; a imunidade existe. Pensar que micróbios invisíveis fabricam venenos e o corpo fabrica anti-venenos é uma ideia errada, mas é curta e simples e não vai ser simples remove-la. Esta é uma solução bioquímica do adoecer e da cura! Vender moléculas da cura, misturada a estas o delírio do dinheiro, com o delírio do entendimento, a prostituição da ciência.

Penso que esta, sim, é uma questão fundamental: a “tradução” do que se observa na prática da ciência — que envolve coisas complicadas, aparelhos, coisas invisíveis — em linguagem coloquial. Malack (2016) diz que esta tradução só pode ser feita em termos poéticos, metafísicos. Sellars (2012) trata deste assunto e compara a realidade científica com a realidade “manifesta”. Se esta advertência fosse feita antes de explicar temas científicos, a coisa talvez melhorasse. Gosto muito da ideia de QBism (Quantum/Bayesian physics; parece Cubismo, mas não é este o sentido), ou CBism (Classic/Bohr) e de uma imunologia CBism.

Mas, também, isto tudo vem misturado na história, dinheiro com hermenêutica. O dinheiro é como um virus. Mas é muito recente na história da humanidade. Como diz Scott (2017), do carvão e do petróleo para cá, só usamos um quarto de um por cento de nossa história de dois mil séculos.

Matlack, S. (2016) Qauntum Physics. Why physics can’t get rid of metaphor
The New Atlantis, Number 53, Summer/Fall 2017, pp. 47‐67.

Mermim, N.D. (2014) (2014) QBism puts the scientist back into science
Nature 507: 421-423.

Scott, J. C. (2017). Against the Grain. The Deep History of the Earliest States”.
New Haven, Yale University Press.

Sellars, W. (2012). The philosophical image of man. Frontiers of Science and Philosophy, ( , 1962): 35–78. . e. b. R. Colodny. Pittsburgh, 1962, University of Pittsburgh Press: 35–78.