Primum non nocere: experiência iniciática médica da morte do meu avô

Publicado por Vitor Pordeus em 21/6/2018

Agora que trato meus clientes com drama e não com droga nem choque, posso pela primeira vez dizer acreditando. Primum non nocere. Primeiro, não fazer mal.

Até meu 4o ano eu queria fazer hematologia porque misturava imunologia com uma clinica fascinante e sentia que podia contribuir ali. Foi profético. Meu avô morreu devido a uma doença hematológica, um mieloma múltiplo, um câncer Imuno-hematologico, que foi diagnosticado por mim no meu hospital escola, no laboratório de hematologia onde eu trabalhei 4 anos de pesquisa, e onde eu depositei o sonho da minha carreira. Meu avô sofreu um erro médico no processo. Foi de alta para casa sem transfusão de sangue indicada. Morreu por falta de sangue por negligência de cuidado médico no hospital público. Eu estava no hospital como sempre. Minha avó me ligou dizendo que ele havia passado mal, pedi para trazê-lo imediatamente para a emergência. Ele chegou até a entrada. Eu o vi acompanhado por meu primo. Ele veio caminhando até mim. Nos abraçamos e ele desmaiou, teve uma parada cardíaca abraçado comigo. Nunca vou esquecer a sensação da morte devorando meu avô, ali, tão perto de mim. A sensação da passagem de uma pessoa, que depois eu reveria nas paradas cardíacas que atendi. Eis um dos temas mais importantes e mais negligenciados pela medicina capetalista.

Lembro que tinha uma turma de colegas que chegou junto e nos atendeu. Lembro de uma Mestra grande Médica da UFF Eneida Solé que atendeu meu avô nas manobras de ressuscitação. A experiência me estilhaçou completamente. Perdi a maior parte das memórias do depois dessa cena. Mas isso me fez decidir não mais fazer clinica para me dedicar exclusivamente à pesquisa pois eu ainda acreditava que a pesquisa era o caminho correto para mudar essa desgraça da medicina dinheirista, fui trabalhar em Israel onde ganhei bolsa de pesquisa por dez anos e escutei do meu Mestre e amigo Irun Cohen chefe do departamento de imunologia do Instituto Weizmann, o mais importante cientista biomédico daquele país: “tenho aqui as patentes para tratar doença autoimune todas bem sucedidas, mas bloqueadas pela indústria farmacêutica controla todo o trânsito científico mundial”, no meu retorno ao Brasil voltei para o doutorado em imunologia na USP, adoeci de novo, depressão e opressão científica contra meus Mestres Soberanos na Ciência Nelson Vaz e Maturana que muito me ajudaram a entender e me libertar da corrupção médica e científica. Voltei para o Rio, doente, deprimido sem perspectiva. Minha voz interior, no fundo do poço, me disse: “a medicina está fechada para voce, a ciência está fechada para você, vá estudar teatro.” Duse Naccarati minha grande amiga me prescreveu: Camilla Amado e depois Amir Haddad. Camilla me salvou dizendo: “calma menino, não é só Apolo, tem Dionisos também” e o Amir me curou me ensinando a fazer teatro verdadeiramente público e dizendo: “vamos pensar na possibilidade. Possibilidade. Possibilidade.”
Dois anos de teatro depois, entramos com minha primeira peça, que contava mais ou menos essa história numa tragicomédia “E Ainda Assim Se Move!” (https://youtu.be/VisHEgejAgw) estava dado o diagnóstico a corrupção base do problema é a corrupção científica, os modelos de lucro estão errados do ponto de vista biologico por isso da tanta merda para todos os lados. No ano seguinte, o destino me coloca dentro do Museu de Imagens do Inconsciente, conheço a Nise e uma proposta verdadeira de psiquiatria científica. Quem está doente é o sistema cultural(https://youtu.be/D5c7Pz4nEI8)e desse jeito sim eu sinto que estou honrando meu ancestral que por não poder pagar sofreu a desgraça da negligência médica. Com meu trabalho conquisto mais autonomia para mim e para meus pacientes, diminuindo os riscos de iatrogenia médica, de intervenções que façam mal aos pacientes. Agora que trato meus clientes com drama e não com droga nem choque, posso pela primeira vez dizer acreditando. Primum non nocere. Primeiro, não fazer mal.