O que é afinal?

Publicado por Vitor Pordeus em 28/6/2017

Tem a ver com estar vivo, e se sentir parte de um planeta inteiro vivo.

(English below)

O que é afinal?

Eu não sei o que é. Mas tem a ver com estar em grupo, tem a ver com música, cantar, com professar bondades. Tem a ver com a beleza do pôr do sol. Tem a ver com uma profunda reverência com a natureza, com a beleza infinita de uma árvore velha. Tem a ver com respirar. Respirar como as bactérias no solo respiram há 4 bilhões de anos, como respiraram os dinossauros, como respiram os gorilas e tudo, tudo que é vivo. Tem a ver com estar vivo, e se sentir parte de um planeta inteiro vivo.
Tem a ver com a experiência religiosa, com se confortar com uma reza, com fazer rituais, rituais que envolvem outros humanos, que envolvem estar em grupo, em dividir sentimentos bons, palavras belas, sons belos, cantos, música, com dança. Tem a ver com a nossa constituição fundamental, ontológica. Nós, que somos bichos faladores, macacos dados a rituais, buscamos, afinal, esse sentimento redentor. Esses rituais às vezes envolvem peregrinações à Meca, a basílica de São Pedro, Muro das Lamentações, ou Domo da Rocha. Envolvem muitas vezes shopping centers, arranha-céus, carros caríssimos, roupas da moda, casas maravilhosas.
Tem a ver com buscar de modos tão distintos um sentimento que te aquece, que te anima, que faz sentir que está conectado com algo maior, que te faz comungar com as pessoas, com a natureza, com o planeta.
Esse sentimento último tem a ver com amar. Amar o seu amor. Ver que esse 'amar' é o sentimento fundamental, que move a todos, que é o que todos nós queremos, que nós buscamos. Para nos aquecer, nos animar, nos conectar, nos fazer felizes. E que isso guia direta ou indiretamente todas nossas escolhas, nossas opções, nossas posturas, nossa busca por fama e por poder. Todos querem se sentir amados.
Essas buscas, às vezes tão cruéis, passam por estarmos cegos para ver que esse amor está dentro de nós, bastando amar a si mesmo. Bastando olhar as cores do pôr do sol, olhar o mar, olhar o céu, olhar uma criança sorrindo. Ver que esse amor guia e funda tudo que é humano, e que nós nos esquecemos disso, que nos distanciamos disso. Que nós inventamos que para viver esse amor, para nos sentirmos amados, precisamos de um carro, ou de uma geladeira, ou de um apartamento, ou então uma religião. Inventamos que para nos conectarmos com esse amor ontológico precisamos absurdamente destruir a natureza, caçar os animais, explorar outros humanos. Alguns de nós, desafiados e obcecados pela posse desse amor, vemos aqueles que não tem mais nada além desse sentimento como pessoas inferiores, que devem ser desprezadas e até destruídas, então fazemos guerras, destruímos o planeta, nos tornamos fanáticos só para tentar nos sentirmos amados, tudo por esse sentimento, que é a coisa mais legítima, mais verdadeira de nossa existência. Erramos ao pensar que haja um caminho particular para chegar a esse amor, todos os caminhos levam a isso, basta olhar com verdade, viver com verdade, com entrega, sentir com todo o sentimento do que se trata nossa humanidade, nossa natureza, os animais.
Outros dos nossos rituais envolvem ainda, estando em grupo, a arte, o teatro, um professor entusiasmado e afetuoso com seus estudantes.
O que queremos é o amor universal, o amor fundamental, que nós conhecemos quando somos crianças ainda e que na nossa educação absurda só nos distancia dele enquanto "amadurecemos". Acho que tem a ver com chorar, chorar por esse amor, chorar por atenção quando precisamos, chorar como fazemos na infância. Aprendamos com as crianças. O que aconteceria se chorássemos quando temos vontade, se dissemos uns aos outros que estamos sofrendo, se parássemos de usar maquiagem, peitos de silicone, tênis caros, de fazer compras para esconder o nosso sofrimento e pedir amor?
Quando finalmente nos entregarmos a essa emoção maravilhosa, arrebatadora, que explica tudo, que nos coloca em sintonia com tudo e todos, que nos faz sentir parte do que chamamos de divino, que nós mostra que somos sim especiais, que nos mostra a beleza e a infinita sabedoria de tudo que está a nossa volta. Esse sentimento é o amor, é o que nós chamamos de Deus.

Publicado no blog Imanentemente em Março de 2007

http://imanentemente.blogspot.ca/2007/03/o-que-afinal.html?q=eu+n%C3%A3o+sei+o+que+%C3%A9

Trad:

What is it anyway?I do not know what it is. But it has to do with being in a group, it has to do with music, singing, with professing kindness. It has to do with the beauty of the sunset. It has to do with a deep reverence for nature, with the infinite beauty of an old tree. It has to do with breathing. Breathe how bacteria in the soil breathe 4 billion years ago, how the dinosaurs breathed, how the gorillas breathe, and everything, everything that is alive. It has to do with being alive, and feeling part of a whole planet alive.It has to do with religious experience, with comfort with a prayer, with rituals, rituals involving other humans, which involve being in a group, sharing good feelings, beautiful words, beautiful sounds, singing, music, dancing. It has to do with our fundamental, ontological constitution. We, who are talking animals, monkeys given to rituals, seek, after all, this redemptive feeling. These rituals sometimes involve pilgrimages to Mecca, St. Peter's Basilica, Wailing Wall, or Dome of the Rock. They often involve shopping centers, skyscrapers, expensive cars, fashionable clothes, wonderful houses.It has to do with seeking in such different ways a feeling that warms you, that animates you, that makes you feel that you are connected with something greater, that makes you commune with people, with nature, with the planet.This last feeling has to do with love. To love your love. To see that this 'loving' is the fundamental feeling, that moves all, which is what we all want, that we seek. To warm us up, to cheer us up, to connect us, to make us happy. And that it guides directly or indirectly all our choices, our options, our positions, our search for fame and for power. Everyone wants to feel loved.These searches, sometimes so cruel, happen to be blind to see that this love is inside us, just by loving yourself. Just looking at the colors of the sunset, look at the sea, look at the sky, look at a child smiling. To see that this love guides and founds everything that is human, and that we forget it, that we distance ourselves from it. That we invent that to live this love, to feel loved, we need a car, or a refrigerator, or an apartment, or a religion. We invent that in order to connect with this ontological love we need to absurdly destroy nature, hunt animals, explore other humans. Some of us, challenged and obsessed with possessing this love, see those who have nothing but this feeling as inferior people, who must be despised and even destroyed, then make wars, destroy the planet, become fanatics just to try to feel ourselves Beloved, all by this feeling, which is the most legitimate, true thing of our existence. We err in thinking that there is a particular way to reach this love, all roads lead to this, just look with truth, live with truth, surrender, feel with all the feeling of what it is about our humanity, our nature, animals .Other of our rituals also involve, in a group, art, theater, an enthusiastic and affectionate teacher with his students.What we want is universal love, the fundamental love that we know when we are still children and that in our absurd education only distances us from it as we "mature." I think it has to do with crying, crying for this love, crying for attention when we need to cry as we do in childhood. Let us learn from the children. What would happen if we wept when we wanted to, if we told each other that we were suffering, if we stopped wearing makeup, silicone breasts, expensive shoes, shopping to hide our suffering and ask for love?When we finally give ourselves up to this wonderful, sweeping emotion that explains everything, that puts us in tune with everything and everyone, that makes us feel part of what we call divine, which shows us that we are rather special, that shows us the beauty and The infinite wisdom of all that is around us. This feeling is love, it is what we call God.