A idéia e a reminiscência

Publicado por Pablo Meijueiro de Assis em 23/8/2017

A alma que nunca contemplou a verdade não pode tomar a forma humana. A causa disso é a seguinte: É que a inteligência do Homem deve se exercer segundo aquilo que se chama Idéia; isto é, elevar-se da multiplicidade das sensações à unidade racional. Ora, esta faculdade não é mais que a recordação das Verdades Eternas que a nossa alma contemplou quando acompanhou a alma divina nas suas evoluções. Por isso convém que somente o espírito do filósofo tenha asas: nele a memória, conforme sua aptidão, permanece sempre fixada nesses objetos, o que o torna semelhante a um deus. É somente fazendo bom uso dessas recordações que o Homem se torna verdadeiramente perfeito, podendo receber em grau ótimo as consagrações dos mistérios. Um homem assim afasta-se dos interesses humanos e dirige seu espirito para os objetos divinos, embora a multidão o considere louco, sem perceber que nele habita a divindade. Ora, de tudo o que temos dito chegamos à quarta espécie de delírio: é quando alguém neste mundo vê beleza. Recorda-se então da beleza verdadeira; recebe asas e deseja voar para o alto; não o podendo, porém, dirige o olhar para cima esquecendo os negócios terrenos e dando, desta maneira, a impressão de delirante. De todos os entusiasmos este é o melhor e da mais perfeita origem: saudável para quem o possui e dele participa. Quem é atingido por este delírio ama o que é belo e chama-se amante.

(trecho extraído de seu Diálogo: "Fedro".)
Platão