Aonde habita teu próprio algoz

Publicado por Nathali Corrêa Cristino em 2/1/2018

Lembro-me da sensação da primeira vez que vi alguém sacar uma arma e disparar no meio da rua. Eu era criança, muito nova, estava brincando com minhas amigas na calçada, numa comunidade de um município do interior do Rio. Tive uma espécie de imersão num estado onírico, como se fosse um transe, um tempo depois corri pra dentro de casa e fui contar pra minha mãe, que me disse que eu estava mentindo.

Acho que preferi acreditar em minha mãe, do que no que eu tinha visto, pois até hoje não tenho certeza se realmente vi aquilo, como não tenho certeza do sangue em que pisei em cima indo ao ponto de ônibus para o colégio, nem das marcas em minhas pernas quando apanhava de meu pai.
Até hoje quando me deparo com situações de extrema violência e miséria, entro novamente neste estado estranho, sem emoções e sem realidade, como se me descolasse de mim mesma e duvidasse do que eu-outra estava vendo.
É doentio, é paralisante, eu sei... mas foi uma defesa criada da qual não sei muito bem me desvencilhar.

Demorei muito tempo para entender esse mecanismo...

Em alguns momentos cheguei a me julgar insensível às realidades mais duras, principalmente quando a violência era dirigida a mim. Lembro-me de estar, por várias vezes, parada, imóvel, frente a pessoas que ameaçavam me bater, ou que me humilhavam, sem me importar, no momento, com o desfecho da situação. Algum tempo depois, entrava num looping infinito de tristeza e culpa, que me consumia por meses.

Houve terapia, medicação, repetições de cenas... Houve um grande caminhar...

Hoje em dia acredito ter encontrado algo que me permite sair de certa forma deste circuito, pelo menos por algum tempo, para refletir, de outra forma nas diversas possibilidades de ser que me habitam.

Os encontros que trazem potência e cuidado são essenciais para esse movimento. Estar em grupos que colaboram, que se entendem atores da realidade do mundo, tem me feito experimentar outras formas de trânsito em cenas mais duras... e nisso tudo veio o teatro.

Não qualquer teatro, mas especificamente o teatro que fazemos aqui. Que trás conteúdo ancestral, reorganizando identidades. O teatro que permite a criação de relações genuínas e solidárias. O teatro que cuida e fortalece.

Esse teatro encoraja a entrada em terrenos sombrios de nossa psiquê. Terrenos que habitamos sem saber, que nos governam em certas ocasiões, justamente porque não temos o costume de olhar para eles.

O lugar que se ocupa no mundo pode ser uma cova ou um caminho...

O processo de recriação das cenas traumáticas e paralisantes durante a produção teatral proporciona uma deslocação do lugar de paralisia, mesmo que de forma ainda um pouco contida, me vejo eu-outra acreditando no que vejo, mostrando que tenho medo, raiva, angústia e também desejo por violência. Entrar nesse campo de batalhas exige coragem, mas trás a melhor recompensa.

O encontro comigo mesma.

E assim se faz o paradoxo mais incrível de todos, quando estou mentindo no teatro, finalmente enxergo a verdade, a minha verdade, que me liberta e põe em ação.