​“É com a peça que expandiremos a consciência da comunidade” (Vitor Pordeus) Por Diana Bogado

Publicado por Vitor Pordeus em 16/3/2019

Texto da pesquisadora, ativista e escritora Diana Bogado sobre a experiência do espetáculo Hamlet no dia 10 de março de 2019 na UPAC_RJ

“É com a peça que expandiremos a consciência da comunidade” (Vitor Pordeus)

Por Diana Bogado

Hamlet, a famosa tragédia escrita por Shakespeare no início do século XVII foi a peça escolhida pelo psiquiatra cultural Vitor Pordeus para trabalhar a saúde mental social como uma espécie de “vacina da loucura” – expressão utilizada pelo próprio Vitor. Nada mais atual que trazer à tona as perturbações do protagonista que assiste um assassino tomar o trono de seu reino.
A interpretação da tragédia como dispositivo para acesso do inconsciente é a ferramenta utilizada pelo fundador do Teatro Clínica Therezinha de Moraes para tratar o psicológico comunitário através da encenação e da arte. Em minha trajetória de luta social e pesquisa científica, junto às comunidades periféricas, constatei a importância de se trabalhar as subjetividades presentes nas circunstâncias de tragédia social, provocadas por episódios de violência do Estado. Nesta busca conheci o Teatro Clínica e seus métodos de acessar afetos, vínculos, medos, resistência, regeneração e outras sensações presentes no cotidiano das comunidades que sofrem despejos e remoções - que são o meu tema de pesquisa - entre outras violências no mundo todo.
Hamlet nos apresenta um cenário dramático com o estabelecimento de um reino corrupto na Dinamarca do século XVII, cujo desenrolar da trama descortina situações de injustiça familiar e perturbações do protagonista. Nas nuances da crise política, familiar e psicológica, vividas por Hamlet, exibe-se um complexo universo atravessado por ódio, paixão e transtornos partilhados pelos personagens, cenário que permite catarse e acesso aos fantasmas dos inconscientes de todos os atores.
Ao chegar para assistir, participar e conhecer a encenação do Hamlet dirigido por Vitor no Teatro Clínica Therezinha de Moraes, naturalmente desenrolou-se uma encenação coletiva do drama político-social apresentado. O sentimento de revolta do protagonista - por ser governado por um assassino - apresentava-se mais que contemporâneo e real, sua perturbação agravada por inúmeras situações violentas não se distanciava muito da realidade dos sujeitos presentes ali no Méier, atores reais no palco Rio de Janeiro amplamente violado, metralhado e saqueado.
Assim nos unimos ao Hamlet na semana passada, com ele partilhamos tormentos, dúvidas, paixões, medo, amor e consciência. Consciência da nossa fragilidade, da importância de cuidar-nos, de amar-nos e de nos unirmos. Da importância de buscarmos justiça, mas não vingança; de assumirmos nossos transtornos, mas sem tabus e preconceitos. Reafirmamos com o Hamlet do Méier a importância de curarmos juntos uns aos outros, para curarmos a nossa realidade pessoal, social e política. “É com a peça que expandiremos a consciência da comunidade!”. Façamos arte para não calar à morte, teatro para suportar a dor e amor para curar a vida! Evoé!


Foto: Juliana Chalita