Carta de José Pacheco a Nise da Silveira (2013)

Publicado por Vitor Pordeus em 5/7/2019

​Precisamos reler sempre essa carta do Educador José Pacheco à Psiquiatra Nise da Silveira onde apareço como personagem. Podemos considerar este texto um dos mais altos documentos históricos do que vivemos no Hotel da Loucura.

Precisamos reler sempre essa carta do Educador José Pacheco à Psiquiatra Nise da Silveira onde apareço como personagem. Podemos considerar este texto um dos mais altos documentos históricos do que vivemos no Hotel da Loucura.

Publicada no livro "Aprender em Comunidade", do Professor José Pacheco. Uma profecia poderosa. (Rio de Janeiro, Setembro de 2013).

"Querida Nise,
dizia o Sartre que há dois tipos de pessoas que dizem a verdade: as crianças e os loucos. E que os loucos são internados em hospícios, enquanto as crianças são educadas. Ambos estão guetizados: os loucos em hospícios, as crianças nas escolas. A mesma sorte dos velhos relegados em lares da terceira idade. A salutar criatividade da infância é cerceada pela louca velha escola. Mas a busca da verdade e da beleza são domínios em que nos é consentido ficar crianças toda a vida, como nos dizia o sábio Einstein. E as pinturas dos considerados loucos, nos quais reconheceste genialidade, deram origem a um belo museu, são prova de que nem tudo está perdido. Há alguns dias atrás, estive no teu Engenho de Dentro, na boa companhia do Vitor Pordeus e do Ney Matogrosso. O Hotel da Loucura vai provando ser possível, em imprevistos e improváveis lugares, retomar o rumo perdido da humanização, concretizar a utopia.
No discurso sobre educação, a palavra utopia é, geralmente, sinônima de impossibilidade. Porém, utópico será algo que indica uma direção, que requer intencionalidade e ação. Como diria Quintana, “se as coisas são inatingíveis... ora! / Não é motivo para não querê-las”. Concretizar utopias – recriar vínculos, rever e re-olhar, reelaborar as práticas – reconfigura a metáfora do Mito de Sísifo, o “inédito viável” freiriano. A nova educação, que emerge do sonho de todos nós, deverá formar o cidadão democrático e participativo, sensível e solidário, fraterno e amoroso, o ser humano dotado de educação integral.
Todas as teorias estão escritas. Todas as experimentações, reformas e modas já foram ensaiadas. Por isso, importa renovar a denúncia da guetização da juventude, a par com o anúncio da possibilidade de uma aprendizagem participativa e transformadora. Nunca será demasiada a afirmação da possibilidade de uma escola na qual os aprendizes aprendam a lidar com um conhecimento mutante, na busca da integração das diversas dimensões do humano “para garantir condições de se atribuir novos sentidos à existência e atender a necessidade do engajamento do sujeito na construção do futuro”.
O que se aprende dentro de um edifício escolar, que não possa ser aprendido fora dos seus muros? O espaço de aprender é todo o espaço, tanto o universo físico como o virtual, é a vizinhança fraterna.
Pois é, querida Nise, por todo o Brasil surgem o que poderei chamar protótipos de comunidades de aprendizagem, a partir da escola, embora elas possam ter outras origens. Refiro-me a práticas de eco-sustentabilidade, de estímulo ao espírito inventivo e criação de soluções novas, baseadas no princípio ético que nos diz que tudo o que for inovado o deva ser para benefício coletivo.
O modelo escolar não é o único modelo de educação e a educação deverá ser pensada mais a partir das comunidades que serve, do que a partir da instituição, de modo a que os processos de aprendizagem tenham um papel transformador nas sociedades. A escola é o equipamento social mais abundante, uma das maiores conquistas do povo, numa área de escassos quilômetros quadrados, encontraremos meia dúzia de escolas e apenas um hospital. Mas as comunidades de aprendizagem não dependem da existência de um prédio escolar (a “pedagogia predial”, como o Lauro ironizava) e sim da utilização de prédios e espaços da comunidade, nos quais, os estudantes possam, junto à comunidade, aprender e exercer cidadania, desfrutando de seus direitos ou realizando seus deveres, para o bem de toda a comunidade. Que a escola não seja somente interface com a realidade, mas espaço onde ocorrem atos contributivos do desfazer do abismo entre a realidade escolar e outras realidades.
Tampouco a aprendizagem depende apenas do professor, pois é necessária uma tribo inteira para educar uma criança. Ainda há quem pense que basta decorar matéria e vomitá-la numa prova, sem perceber que a maior parte dos conteúdos supostamente aprendidos (segundo pesquisas recentes) se esvai da memória, alguns meses após a prova. Aliás, uma prova quase nada prova. E na sigla IDEB (por seres pessoa sábia, não irias entender, se eu tentasse explicar o que seja...), que tanto preocupa professores, escolas e secretarias, e faz submeter os pobres alunos a simulados e intensos treinamentos, as letras ID não significam (como pretendem alguns) “índice de desenvolvimento”, mas “índice de decoreba”. Creio que esses loucos não diagnosticados não terão lido Paulo Freire na universidade. No seu curso de formação, talvez nenhum dos seus professores lhes tenham dito que ninguém educa ninguém, como tão pouco ninguém educa a si mesmo, e que os homens se educam em comunhão, mediados pelo mundo.
Urge rever os conceitos de espaço e tempo de aprendizagem, para que os “paidagogos” não mais conduzam as crianças da comunidade para a escola, mas as libertem da reclusão num gueto escolar e as devolvam à comunidade, na qual a escola constitui um nodo de uma rede de aprendizagem colaborativa. As escolas poderão constituir-se em espaços de cultura, lugares onde os saberes eruditos se casam com os saberes populares, onde a transformação acontece na partilha de conhecimento produzido. Crianças, jovens e adultos poderão utilizar essas escolas, sempre que desejarem, ou precisarem. Sem necessidade de entrar na escola no horário-padrão de aula, ou ter “falta” por chegar atrasado. Sem necessidade de perua e ônibus (como já nos avisava o Anísio, há décadas atrás), sem departamentos de “transporte escolar”, onde se esgotam recursos (em funcionários administrativos, motoristas, seguranças, manutenção, combustível, quando não se constitui em ninhos de corruptos e máfias...), sem forçar a criança a acordar de madrugada e penar longas viagens, para ouvir algumas horas de aula, onde quase nada aprende e através das quais, começa a colaborar com a desertificação das comunidades, que deveria ajudar a desenvolver.
Isso expliquei, em pormenor, a muitos políticos e a gente que se diz professor. Disse-lhes que um novo modelo de educação não pode alicerçar-se no velho e que àquilo que é novo não devem ser aplicados raciocínios dedutivos. Nada adiantou, querida Nise. A loucura benévola daqueles que estão no Engenho de Dentro em nada se compara à loucura daqueles que, fora do hospício, insistem em manter um sistema falido, gerador de ignorância e infelicidade. Estes são os loucos de que nos falava Einstein. Vão delapidando o erário público em projetos, pactos, programas, capacitações, consultorias, assessorias e outras inutilidades. A última pesquisa dada a conhecer aponta como dado que o desperdício anual é de cerca de 56 bilhões de reais. É, ou não é uma loucura?
Quero crer, amiga Nise, que, depois de tempos sombrios, há de despontar a claridade que ponha fim à loucura. Que terá chegado o tempo de, à semelhança do Jung, o Brasil te encontrar."