Engenho de Dentro pra Fora

Publicado por Trupe da Procura em 20/7/2012

Texto produzido por Vitor Nina, artecientista do NARIS, durante o I Ocupa Nise

Por Vitor Nina

Já faz quase uma semana que estou hospedado no Hotel da Loucura. Escrevo de uma antiga sala de prescrições médicas, hoje transformada em biblioteca. Baruch de Spinoza, Nise da Silveira, Humberto Maturana, Antonin Artaud e outros nos fazem companhia. As cores nas paredes são fortes, um amarelo girassol, roxo e azul que dialogam, que gritam e recitam. Flores naturais, flores pintadas, panos floridos, mandalas, escritos pela parede. O colorido surreal das instalações salta sobre o espírito, espalha segredos entre os sentidos de todos. Nas paredes as manifestações de inúmeros visitantes deste abrigo de lúcidos. Tem-se a impressão de que, a qualquer momento, tudo explodirá em labaredas de luz e gente. E é, de fato, o que acontece.

Enquanto escrevo, Pelezinho, morador e artista de rua, joga damas ao meu lado, e sonha cantar na rádio. É compositor, poeta, crooner, jogador de embaixadinhas, cozinheiro, showman, xamã. É um dos que habitam esta casa de homens e mulheres, de crianças e animais, de deuses e maltrapilhos. A casa é nossa, e é familiar a todos, porque ao atravessarmos a porta onde se lê “Entra e sai perguntando”, não entramos apenas na ocupação física, que resiste à impunidade das violências legalizadas com purpurina e carnaval. Ao passarmos pelo saguão de recepção da loucura, entramos no Homem, e essa é nossa morada eterna. A verdade é que sempre estivemos neste hotel, e nunca o deixaremos. Estas paredes apenas revelam as paredes de nosso espírito, os moldes da psique. Não à toa tantos arquétipos nos devoram o tempo inteiro: o bico de um pássaro pintado sob a janela, o amor escrito em uma mandala perpétua, a dança imanente revelada nos batuques, os demônios e os anjos que superaram as diferenças mesquinhas e hoje são apenas natureza.

Considero este meu ritual de passagem para a arte da cura. Em breve serei médico, terei diploma, terei código e carimbarei doenças. Meu Deus, a medicina moderna é uma doença venérea. É egolatria das gônadas, sem nenhum Eros, não dança nem conhece Dionísio. E ri-se a plenos pulmões do que desconhece, com seu pau murcho e suas costas arqueadas. Aqui, entre os loucos, aprendo Amor, aqui sou aprendiz dos xamãs e dos poetas, aqui faço ciência, cada vez mais alucinado pela plenitude dos mistérios. Este assombro tem o conforto de um abraço, é um alívio poder desconhecer e suspirar deslumbrado: meu Deus!

Aqui não há rei, e Deus está nu. Aliás, Deus convulsiona, Deus mora na rua e faz embaixadinha, Deus usa crack e quer parar, Deus está amarrado em sua cama e grita a noite inteira querendo sair, Deus foi internado há trinta anos, Deus não tem uma perna, Deus usa peruca para poder ser Três e Um ao mesmo tempo, Deus fuma e dá esculacho, Deus invade mansão de rico, Deus sabe uns poemas que recita de cor, Deus dá cantada na morena, Deus dá cantada na loirinha, Deus é doçura e dor, escravidão e açúcar de Engenho de Dentro. E, sobretudo, Deus dança, Deus dança o tempo inteiro, dentro e fora do hospital, cirandando, dentro e fora do corpo, cirandando, Deus dança e se revela tão simples que dá susto, e depois faz gargalhar gostoso.

“Eu tinha uns 70 anos, hoje devo ter uns 40, mas dizem que tenho 26”. Rogerinha dá um sorriso magro e na minha cabeça floresce novo canavial. Meu Engenho de Dentro canta seus cantos de liberdade: “levanta, povo, cativeiro se acabou…”

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