São e Salvo

Publicado por Trupe da Procura em 24/7/2013

Texto escrito pelo artecientista do NARIS Vitor Nina, após as vivências no I Ocupa Nise, em 2012

Primeiras impressões após as vivências no Hotel da Loucura em 2011

Por Vitor Nina

São e salvo estou de volta a minha casa após uma longa estadia no Hotel da Loucura. Acho que só retornei mesmo esta manhã, quando finalmente vesti o jaleco branco de todos os dias e retomei a rotina de trabalhos e estudos no hospital. O jaleco pesou nos meus ombros, já não estava mais acostumado com este tipo de figurino e, francamente, depois do que pude viver no Instituto Nise da Silveira, acho que algumas lantejoulas lhe cairiam muito bem.

A primeira impressão é esta: tudo parece estar revolvido neste hospital que conheço há anos. É como quando agitamos um formigueiro: nossos movimentos humanos, as paixões e os tropeços saltaram de baixo da terra e sou uma formiga que pode ver a si mesmo, em corredores apinhados de gente, todos juntos buscando uma doçura instintiva, mas presos a uma hierarquia violenta, à cegueira de pinças que é a lei deste reino, como de tantos outros.

Afinal, o hospital nada mais é que teatro de rua! O espaço é público, aqui estão todos: o feirante, o brincante, o cientista, o louco, o corrupto. Meu figurino poderia ter mais cores, alguns retalhos. E uma peruca, quem sabe. Mas por certo, precisamos aqui em nosso hospital de um Reginaldo, que possa ser Judite e Naná ao mesmo tempo, com a naturalidade, graça e elegância das santíssimas trindades. Um rei que abraçasse a loucura para nos elucidar, e gritasse “Evoé!”, para que respondêssemos em coro “Evoé!”. Que nos ensinasse uma ética tão simples quanto verdadeira, como comer o quanto quiséssemos, mas não levar para casa.

Um rei que conhecesse a lógica dos maltrapilhos, que habitasse o hospital há décadas e que o chamasse de lar não de forma abstrata, mas real, mesmo que imposta. Que tivesse o corpo mutilado, que tivesse aprendido a sorrir mesmo sem dentes contra o punho fechado daqueles que só lhe deram prescrições sedativas e restrições à liberdade. Um rei que tivesse aprendido o Amor no hospital, e pudesse nos conduzir de volta ao Amar. Nós, que fomos saneados, que estamos sãos e salvos à custa da lobotomia de Dionísio.

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