Memórias da Madrugada no Hospício

Publicado por Trupe da Procura em 24/7/2013

Impressões poéticas sobre vivências no Hospital Psiquiátrico D. Pedro II, em 2012. Fotografias e textos de Vitor Nina.

Por Vitor Nina

I

Já é madrugada no Hotel da Loucura, este quilombo assentado no segundo andar de uma senzala municipal. O sofrimento passeia no escuro, está na umidade das paredes, no peso das portas metálicas. É trazido por sons que vêm de longe, que trazem gemidos, sonhos e lamentos. O prédio é grande o suficiente para abafar todo tipo de grito. O sofrimento máximo não ocupa espaço algum. Pode habitar na sala de estar sem incomodar os convidados. Ornamenta galerias de arte, prisões e hospitais como este em que hoje tento dormir.

II

Não há sono justo no reino dos fármacos psicotrópicos. Esses grilhões são os mesmos dos homens e mulheres escravizados em nossa nação e sua tradição de pelourinhos, genocídios e fracassos de coletividade. Também a criação alegre que surge entre as grades ainda é o mesmo batuque de resistência, pulso de um povo em eterna hemorragia. Sangue vermelho, negro, índio, cor de flora e cor de fauna, sangrando garrafadas de raízes, sangrando memória, sangrando os primeiros deuses, jamais esquecidos mesmo quando proibidos. Camisa-de-força na pele, coração dançando no peito: a natureza-ou-deus é livre, a humanidade é um imperativo.

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III

Um guaicuru orgulhoso cavalga na noite do hospício. Desfila seu cavalo nas enfermarias, faz tocaia nas camas, guerreando por identidade, defendendo trechos de mata virgem em mentes fragmentadas pelas capitanias hereditárias. Engenho de Dentro, tuas pílulas são teu açúcar. Querem tornar os deuses dóceis, quanta loucura. A doçura destas pílulas é apenas para quem delas não prova.

IV

A doida se deitou na escada. Tem uns cinquenta anos, é preta e gorda, está fedendo e chora como criança, muito embora sua voz grave confira um tom demoníaco aos gritos. Pouco importa que não tenha vários dentes, se está no setor errado do hospital. Pouco importa que vista trapos, ela está no setor errado do hospital. Ninguém escuta seu grito de pavor da bruxa que habita sua cama, ela está no setor errado. Para todo delírio, um sedativo. Pouco importa que tenha seu corpo puxado pelo braço e que ela arraste pelo chão, já é fim de expediente e ela está no setor errado do hospital. Para toda alucinação, uma cura, mesmo que física. Pouco importa sua urina no chão, a baba que escorre das tentativas inúteis de mordida, já é fim de expediente, é preciso arrumar o hospital. Pouco importa seu vestido rasgado no chão, seu sexo exposto, mama e genitália, corpo e espírito desabados no chão, pouco importa sua vontade. Bruxas não existem.

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V

Aquele homem nu, apesar da jaula, insiste em seu passeio sob o sol. Sua nudez é uma parede sem cal, seu corpo desbunda o mundo, perna fina e bunda seca, ele está como veio ao mundo, bom dia, meu caro, bom dia! Em plena madrugada eu te vejo, impedindo meu sono, expondo a minha nudez e minhas grades: bom dia! Estamos todos nus sob as paixões e apesar da razão! Nestes muros só há mofo e limo, o concreto já está rachado! Evoé, tu és Dionísio também, assim como eu, nós todos, e não há imperfeição na natureza! Cabeça, falo, membros e mente em coro: evoé! A alegria nos libertará a todos, no manicômio das ruas, na prisão do corpo, na madrugada das mentes! O sol em teu corpo é meu quilombo: evoé, camarada! Evoé, irmão! O outro é teu vinho, e o carnaval virá quando o dia nascer de fato! Evoé!

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VI

Ouvindo os gritos de evoé, Márcia, que não fala e tem dificuldades para se movimentar, foi dançar com a onça maracaiá. Suas mãos passearam pelo corpo do animal, lentamente, com espanto e alegria, como se descobrisse naquela sobra de alegoria de escola de samba uma nova forma de divindade. Aquela onça era-sem-ser o mistério feito em matéria, e Márcia brinca no espaço entre Deus e o carnaval. Após abraçar o bicho, ela beija sua pata dianteira, agradecendo a dança, e o mundo é criado de novo, de uma forma que não sei dizer, nem quero. Lá, no espaço entre as coisas e o pensamento, a palavra cansa, enlouquece. Lá só nos resta a dança, matriarca de todas as verdades. Evoé!

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