Imergir para emergir um novo ser

Publicado por vera lucia de azevedo dantas em 28/7/2013

Assim me vi saindo do Ceará para experenciar o OcupaNise. Muitas razões me moveram: o desejo de construir com tantos companheiros e companheiras essa universidade popular de arte e ciência, um movimento que tem me afetado muito e despertado paixões infinitamente alegres; a felicidade de reencontrar amigos, companheiros de caminhada; o prazer de vivenciar a arte em suas múltiplas linguagens; o compromisso com a educação e a luta popular....

Sai do Ceará após uma mudança de casa. Deixei tudo revirado na nova morada e voei em direção ao Engenho de Dentro, pra viver as mais intensas e inusitadas férias de minha vida. A intuição me dizia que a imersão seria profunda e fui respirando esse desejo. Não sabia muito bem como iria contribuir, mas todo meu ser ansiava por esse mergulho.

Me vejo em pleno sábado aportando a um mundo de possibilidades e desafios. Nise da Silveira nos acolhe com seu mundo polifônico e amoroso. Mergulho de cabeça nesse mundo prenhe de rituais, universo complexo, multicor, multifacetado. E imergindo entranho-me, envolvo-me e todo o meu ser se expande, me impulsiona e explode em sons, gestos, e encontros.

Tudo se constitui vivencia, intensamente polifônica, metaforicamente transpondo limites entre razão e emoção. Aqui somos inteiros na dor e no prazer. Cuidado e criação que constituem redes de conversação, onde tudo cabe: poesia, homeopatia, intuição, cenopoesia, gesto e canção. Aqui tudo se presentifica no ritual que integra e harmoniza todos os seres desta e de outras dimensões.

Aqui a vida nos chama ao cuidado, amoroso, inteiro, sem preconceito ou rótulo. A pureza não tem idade nem tamanho. Aqui tem homem lobo, espírito guerreiro, brincante; tem menino passarinho, grandioso em sua pequenez; fêmeas dançantes, e cearenses que num relance mergulham procurando a morte e renascem como pombas brancas que alçam vôo para dançar e cantar nas feiras e praças, desse Engenho no qual me embrenho sem medo de me perder. Aqui uma arara canta e pede colo, dorme e emerge em sua ancestralidade guerreira que os passos da capoeira teimam em revelar. Cada momento é novo, intenso, impreciso, etéreo e terreno; sagrado e profano.

Nesse percurso eternizado por sua intensidade, há espaço para reflexões profundas sobre o cuidar, criar, o conhecer. Sobre a necessidade imprescindível de reconfigurar e ressignificar o cuidado. Sobre a importância desse ato politico irrompendo no espaço duro e frio do manicômio que se transfigura pelo colorido das vestes e das paredes e pelo insanidade amorosamente fluida dos que vivenciam essa ocupação.

Aqui pude compreender com toda a intensidade o que Paulo Freire propôs como inédito viável; a potencia da conjugação do verbo esperançar, onde os limites não se constituem barreiras intransponíveis, mas movimentos para os sujeitos populares exercerem o seu protagonismo. Sim pude ver o protagonismo desses seres oprimidos pela exclusão da objetividade que nega a diferença e a intensidade das paixões alegres que trilhando por zonas de indeterminação, despertam o Conatus, ou esforço de existir no dizer de Baruch de Spinoza e cantam, dançam, poetizam, pintam e despertam deuses e outros personagens míticos.

A loucura pede passagem para revelar a alteridade, a disritmia, a dissonância, a polifonia, a rebeldia do riso solto, dos gestos descomedidos, da ciência intuitiva, do ritual....

Minha alegria irrompe, insana, prazeirosa, bailando célere como o beija flor, fluindo aromas curativos, criativos....

A vida emerge prenhe de potências e eu vou com ela e com todos que embarcam nessa viagem-ocupação

Ah! Essa vida! Amorosamente fluida.

Apaixonadamente viva!!!!

Eu, um novo ser, inteiro emerge, respira para mergulhar de novo.

OcupaNise