Gratidão

Publicado por Rafaela Palmeira em 7/8/2013

Hoje faz um mês que deixei o hotel da loucura. Nesse tempo, uma borboleta viveu sua vida inteira, e saturno viu um pôr-do-sol. Nesse tempo Washington foi pra casa, sua casa de verdade, aquela livre das prisões da matéria.

Faz um mês que me despedi do quarto zen e daqueles dias. Mais um Ocupa Nise estava se encerrando. Na saída, chorei, mas de alegria, de sentir o tanto de belezas, transformações e afetos que levava, e o tanto de gratidão e amor que estava deixando. O Hotel da Loucura, conhecem? Uma enfermaria psiquiátrica desativada, no Instituto de saúde mental Nise da Silveira, Engenho de Dentro, zona norte do Rio. Sim, um manicômio, isso mesmo, ou hospital psiquiátrico, como é mais ‘bonito’ (?). Mas lá as paredes coloridas, os devaneios poéticos, as expressões criativas, as cortinas floridas, as bem querenças anunciadas, as anunciações filosóficas tomam o lugar da frieza e desamor que as paredes e a história do lugar carregam.
Foi lá que ocupamos a história, e a fizemos. A história não é estática, ela é viva e fluida, multidirecional e polifônica, ela é hoje. Somos nós. Tudo que vivemos que não é nossa história, é prisão ideológica. E lá fomos, vivê-la. Reunimo-nos, e com.vivemos. Médicos, psicólogos, agentes culturais, atores, atrizes, pajés, educadores populares, artistas de rua, reikianos, freiras, poetas, circenses, estudantes... com.vivemos, nós, que somos de todas as regiões do país e viemos de passagem, ou que já estivemos internados lá por longos anos, ou que ainda estamos, que ainda vivemos lá. Com.vivemos, vivemos com o outro, vivemos junto, e fomos todos cuidadores, artistas de rua, atores e atrizes. Vivemos junto, e aprendemos junto. Que quando você não sabe o que fazer da vida, você pode fazer um poema. Que encontro é benção pra dois ou mais, ou não é. Que o amor cura. Que cuidar do outro, é cuidar de mim. Que com um abraço, o sol aumenta. Que com tuas pernas, minhas pernas andam mais. Que liberdade, liberta. E que pra ver Dionísio, também é preciso saber silenciar.
Fomos às ruas, ocupamos as praças, a feira, a Cinelândia. Ocupamos a cidade, porque a cidade somos nós, a cidade é a história, e rompemos sua surdez cantando a loucura e a cura. E na convivência amorosa, na expressão dionisíaca, na arte, na fé, na poesia, na ética e no cuidado, reverenciamos o encontro em um movimento de cura e resistência coletiva.
O caminho que tecemos na UPAC – Universidade Popular de Arte e Ciência, faz- se de vida e sonho. Acreditamos na vivência e na experiência como pontos de partida do processo de aprendizagem, e temos a amorosidade, o afeto catalisador e as paixões alegres como alguns dos princípios fundantes de nosso caminho pedagógico, nossas idéias-força, tendo a vida como referência profunda do viver, numa perspectiva Biocêntrica pautando nosso caminhar. Valorizamos as práticas tradicionais, o saber popular e a ancestralidade, propondo uma ciência intuitiva, onde a poesia e a cultura revelam a beleza do conhecer, do ensinar e aprender. Assim, dialogamos arte e ciência, conjugando o verbo esperançar caminhando rumo ao inédito viável, sem medo da felicidade, da alegria ou da loucura.
E na UPAC, encontrei um espaço de sentir minhas potências de caminhar e viver, inteiramente entregues às possibilidades de ser. Inteireza. E hoje sou inteira gratidão, e vontade de continuar caminhando junto. Gratidão, o sentimento mais precioso que encontrei nessas veredas do viver. E hoje, a gratidão me revela, me é, e me protege.
Esperançando. Fico esperançando de continuar vivendo junto, amando junto, ensinando e aprendendo junto. Cuidando junto. De continuar, continuar, pelas veredas, se fazendo ponte, diante dos abismos.
O AMOR VENCEU!

Rafaela Palmeira – 07/08/13