Os Jalecos Brancos

Publicado por Trupe da Procura em 20/9/2013

Texto de Vitor Nina sob mote de Júnio Santos

Imagem: Covergence, Jackson Pollock, 1952.

Para Letícia Nunes

Fui internado naquela hora em que a escuridão é tão escura que até o chão adormece e a gente tropeça na gente. Por isso falo com propriedade, porque vi de perto quando eles surgiram, e todo dia desde então, foi assim: antes mesmo do primeiro fio de luz de sol ensolarar o hospital, lá estão eles, os jalecos brancos, brancos, da cor alva e celeste dos lírios, das claras de ovo. Os jalecos brancos, de tão brancos, estão sempre despertos e em prontidão; o olho eternamente aberto, tal qual folha de papel, de tão lúcido, mal permite entrever a cor da íris. Os jalecos brancos não desconfiam, sabem. Não há dúvidas, está tudo claro, forte, limpo, como o leite desnatado, pasteurizado; não há dúvidas sobre o leite e sua coalha, as vacas todas foram plenamente estudadas em estudos multicêntricos randomizados, e hoje são brancas, branquinhas, tal qual são as vacas e galinhas dos comerciais de TV. Ou os jalecos brancos. É um alvejante poderoso, a razão, puro cloro e protocolo, água sanitária tão pura que é quase benta, trazida pela mão zelosa dos jalecos brancos, branquinha feito hóstia, feito pipoca de cinema. A cabeça do jaleco branco é reta até onde a vista alcança, está saneada, branca do branco mais puro, e até quando chora, são olhos d’água sanitária. Os jalecos brancos trazem o dia, vinte e quatro horas por dia, sem descanso, sem curvas, sem noites e sem dias.

O que os jalecos brancos não desconfiam é que, mal terminam seu breve protocolo interminável, logo a boca da noite abre o seu sorriso de estrelas, e dá uma gargalhada imensa, e do som que cai delas vêm me visitar os jalecos coloridos, coloridos, coloridos por artes noturnas e ciências de sol, os jalecos coloridos brincam comigo de braços abertos, giram no ar anunciando suas equações... Daqui de onde vejo, parecem um arco-íris cirandando, e anunciam, “toda sombra engendra uma comédia, eis o tombo do mundo!”. Daí fazem cara de bobo e tropeçam na minha cama, derramando luz por toda enfermaria, fazendo cosquinha com a pontinha das estrelas e quando alguém ameaça morrer de rir, eles anunciam, “de cada broto de riso brota uma flor!”, e ouvindo isso eu já nem penso em velório, penso é em casamento, olho a vida vestida de noiva e, no fim da cauda de seu véu...

Os jalecos coloridos sabem ficar daquela cor que têm as mãos depois de bater palmas, dos olhos quando avermelham, uns têm cor de pulo de menino, outros cor de lembrança de velhinho... Um dia, ao ver os olhos de água e sal da senhora do leito 54, gritaram como quem grita eureca: “a memória é uma lama de oceanos!”. Os jalecos coloridos têm cor de tudo, até de burro quando foge, e mesmo cor de jaleco branco. Mas tropeçam em tudo e sua ciência sai toda aquarelada, e eles ainda justificam com a cara mais limpa e colorida do mundo: “A humanidade é prosa, mas o homem é de versos!”. E o hospital de enfermos estremece com tanta gente dando riso solto e riso frouxo, e os jalecos se empolgam e até se fingem de poetas, “ouvir-se para não olvir-se” eles recitam, com um olhar apaixonado para a lua e algumas lágrimas de crocodilo, “o abismo só está com sono, as estrelas são o habitat da noite!”, vão repetindo com voz de locutor de rádio enquanto atravessam a madrugada até trombarem na alvorada.

Os jalecos coloridos estão todos sujos de gente, em sua higiene de caleidoscópios. E sua cor permanece conosco, nos olhos da boca e nos ouvidos da língua. Em pleno meio dia na enfermaria de enfermos, ainda ecoa sua voz a raciocinar alucinada que “a pipoca é a pérola do milho!”, que “a borboleta é uma folha rebelde!” e que “toda janela é um poço de visões!”. Ainda por cima são metidos a esfinge, “devora-me pra que me decifres”, e pouco a pouco a gente começa a descobrir... Um dia o leito 47 gritou de súbito: “as nuvens são as copas, e os raios são seus galhos”, ao que outro número respondeu, “Então os ventos são raízes!”, “o canto do passarinho é o seu fruto!”, diz um algarismo e outro responde, “cantar junto é um suco de sons!”, quase num algoritmo.

O que ninguém ainda percebeu, tampouco podem os jalecos brancos inferir, é que os jalecos coloridos não surgiram de estrelas espatifadas, como ainda é o boato que corre entre os enfermos mais imaginativos, mas já estavam aqui e, de fato, já estávamos vestidos com eles antes mesmo da internação. Talvez tenham nos internado justamente por vesti-los. Talvez as estrelas tenham surgido na gente, do atrito entre o ferro e o oxigênio, que faiscavam ao atravessar a gordura das células, o que explicaria o vermelho, o azul, o sangue, a íris, o intestino e o sonhar, e o porquê deles possuírem a mesma natureza e brotarem como crescem os cabelos, as unhas e os sorrisos.

De fato, se a gente reparar bem, nota-se que em cada leito de enfermo há uma pessoa e que dela emana algo dessa cor sem nome, deste traje sem panos, desta respiração profunda de cura. É notável, ancestral e belo e, portanto, em nome da ciência, anuncio aos jalecos brancos: Vossas senhorias estão em delírio febril, pois seus corpos e vestes convulsionam sem dançar. O pano caiu, patognomônico de que não há pano nem parede. Vossas senhorias, aí, de pé, estão deitadas no leito de enfermos, e em seus jalecos brancos só há luz exangue. Ouçam a voz daquelas cores, “o abraço é uma camisa que dá força!”. Nós, os internados, flutuamos com o hospital, fizemos do hospital um balão de hélio, nós espocamos o hospital. Nós, os enfermos, flutuamos sobre vocês, vestidos das cores de nós mesmos, porque tudo é onde tudo é são.