Dizem que sou louco!

Publicado por Gabriela Haviaras em 23/10/2013

Na semana passada passamos por uma tragedia familiar envolvendo usuários de saúde mental que foram mal assistidos tanto pelo sistema como pela própria família e isso me desencadeou palavras, compartilho com vcs o que escrevi na coluna da semana do site que participo. (segue o link para ler no site: http://www.floripanews.com.br/artigo/56-dizem-que-sou-louco

Definitivamente, a loucura não pode ser negligenciada, ignorada, afastada, trancafiada nos porões familiares! É tragédia anunciada na certa, é sacrifício, é sofrimento sem entendimento! A loucura não escolhe cabeça como se escolhe tomate na feira. Não escolhe cor, classe ou forma. Chega quando quer, na casa que quiser, como bem entender. É louca e está solta!

Temos visto muitas tragédias familiares nos noticiários. Parentes consangüíneos, de afetos tão próximos, se matando. O mundo está louco e, seus dirigentes, ensandecidos por seus umbigos capitalistas, por diretrizes gananciosamente leoninas. O diálogo está difícil, os valores estão revertidos. E é o próprio mundo que nos enlouquece se não soubermos discernir nosso lugar e nossas relações.

Semana passada, acompanhei uma dessas tragédias horrorosas causada pelo descaso, pela falta de amor e pelo descuido à loucura. Não é fácil dizer isso, mas a morte não assustou, pois já era esperada. Algo aconteceria mais cedo ou mais tarde. Mas a tragédia é chocante. Um filho ateou fogo na mãe viva. Como julgar? Ele é assassino? Ela é vitima? Há culpados? Não tenho respostas! Mas tenho muitas reflexões.

A loucura, quando chega, não chega por acaso. É a chance que temos para termos um melhor entendimento sobre a vida e seus diversos estados do ser. Mas não é fácil aceitá-la tão próxima de nós: em nossos irmãos, primos, amigos, pais, avós! Na verdade, é difícil aceitar o “diferente”. É muito difícil, mas o único caminho é abrir-lhe os braços com afeto e amor!

O amor recoloca as relações e o afeto catalisa a forma de lidar com a loucura e com todos os que convivem com ela. É o único e o melhor remédio para a cura nos processos psiquiátricos e fora deles. Nos curamos quando nos colocamos à disposição do entendimento de algo maior, algo que não conseguimos alcançar apenas pelo consciente, pois o inconsciente é que nos rege. Falo isso por experiência própria nas Oficinas de Ação Expressiva do Hotel da Loucura do Hospital Psiquiátrico Nise da Silveira, trabalho que faço parte há dois anos.

Todos os novos amigos que ganhei lá têm tragédias familiares, que são muito difíceis de acreditar e, justamente por isso, estão lá. O ego se rompe com historias escabrosas, reais, que por não terem mais para onde ir, acabam jorrando para dentro do ser, mergulhando nas profundezas da psique. E nosso único trabalho é estarmos abertos ao afeto incondicional, na tentativa de resgatar a delicadeza do olhar, de uma fala muda há anos, da comunicação pelo tato, da emoção de lidar.

Graças a esses meus amigos, esta tragédia presenciada na semana passada, não me enlouqueceu. Deixou-me lúcida para refletir e agradecer o amor que tenho pelo diferente. Deixou-me sã para transmitir amor aos sobreviventes das negligências familiares à loucura. Pois justamente quem tem medo da loucura, é quem está mais perto de surtar a qualquer momento!

Ficam as dicas:

Hotel da Loucura /UPAC - http://upac.com.br.

Poesia: Dizem que sou louco - http://ghaviaras.blogspot.com.br/2012/01/dizem-que-sou-louco.html

http://www.floripanews.com.br/artigo/56-dizem-que-sou-louco