Totus mundus facit histrionem: Todo mundo é ator

Publicado por Vitor Pordeus em 18/11/2013

Todo ser humano é ator, veja como.

Todo ser humano é ator

Todo ser humano é ator. Não teríamos como existir caso contrário, pois somos contadores de histórias, contamos histórias o tempo inteiro uns para os outros. “Tudo que é dito é dito por um observador a outro observador que pode ser ele mesmo”, e esse observador também é ator, construímos e vivemos essas narrativas culturalmente, explicando o mundo a nossa volta, ensinando os rituais do viver, contando histórias que nos ajudam a experimentar a eterna passagem do existir. Alguns, contam histórias dramáticas de sofrimento, outros conservam o humor apesar das dificuldades, e lembram que as coisas são assim mas podem ser diferentes. Outros criam e acreditam fixamente nos seus personagens, não os abandonando nunca, mesmo que tenham que morrer por isso. Alguns poucos têm consciência disso, que não passamos de macacos faladores atores, que aprendem por imitação, representando nosso próprio drama, e mesmo que sofram, sabem que nada passa de uma história construída em grande parte por nosso inconsciente, e que se dar conta disso é certamente um avanço. Alguns atores contratam outros atores para analisar e dirigir suas atuações, e recontar essas histórias, alguns chamam de diretores, outros de psicanalistas, que sempre, sempre têm diferentes interpretações possíveis. Poucos vêem poesia em suas histórias, que estar vivo é a maior história de todos os tempos. Mas são todos atores, alguns representam bem, outros mal, alguns levam isso a sério demais. Todos imitadores, coisa de primata, e assim como os primatas gostam de formar coros, de dançar e cantar juntos. Formam coros de centenas de milhares de pessoas em enormes lugares que outro grupo de atores que assumiram personagens de jogadores de futebol, fazem um teatro divertido, ágil, com uma bola no meio da cena. Quanto espetáculo.

Há ainda atores que escolhem histórias de armas e guerras, um tipo de narrativa que se tornou extremamente comum nos últimos séculos, uma parte enorme desses elencos acabam mortos, acreditam piamente que têm que matar os outros atores graças a uma distribuição absolutamente irracional de papéis, são atores que têm fé em algum dogma criado por outros atores. Uma loucura.

Outro grupo desses atores dedicou-se profissionalmente a serem atores, e recebem remuneração para aparecer na televisão e cinema contando histórias para afirmar os valores e ditar o comportamento com base nos outros atores que são os donos da televisão, ficando tudo muito monótono e conservador, abrem mão da possibilidade criativa de se enxergar ator, de ver todos os papéis possíveis e imagináveis, de apontar novas e diferentes possibilidades para os velhos problemas da humanidade. E exercem um fascínio enorme sobre o resto do coro de atores que são forçados por um sistema de endividamento e titulação a especializar-se em papéis, e defender papéis, muitas vezes decadentes, por pura falta de opção, para pagar as dívidas que fizeram para comprar objetos e roupas iguais aos dos atores que aparecem na televisão e no cinema. Pura imitação.

Há atores não assumidos que criaram uma coisa chamada, diploma que se recebe para titular o seu papel social. Você pode até ter vários diplomas, mas nunca exercer mais de um papel. Quando isso acontece, o ator é taxado de louco, de incapaz, pois as exigências sobre um indivíduo-ator tornaram-se muito exageradas, para que ele possa ser de interesse comercial, poder ser tratado como produto e ser consumido numa linha de produção social e cultural, usa sua identidade exclusica para defender sua posição e sustentar a ordem da gaveta vazia de uma sociedade decadente. Tudo bobagem, pois é justamente no exercício pleno de sua criatividade que esse ator encontra sua natureza, que sempre é múltipla e em várias direções possíveis. Que encontra o movimento eterno da vida.

O problema é que são atores muito vaidosos, crentes pios em seus papéis culturalmente construídos. Competem uns com os outros, estão sempre brigando pelo protagonismo da cena, sabotam uns aos outros. Perderam o sabor do coro, da expressão coletiva, da volúpia da multitude. Esquecem-se de fazer algo fundamental e universal dos humanos: dançar juntos, fazer coros, cooperar. Pensam que são atores ferozmente competitivos.

Que os atores humanos pensem mais profundamente no papel que têm desempenhado e que se deixem seduzir pelas possibilidades do viver, que são infinitas. Já que todos esses problemas em que acabamos enfiados têm mil maneiras diferentes de serem resolvidos, basta desapegar das certezas de suas máscaras teatrais-sociais. Pois o espetáculo está ruim de lascar, tem criança morrendo de fome, gente morando na rua, tem miséria demais por todo canto desse planeta. E que era só exercer um pouco de inteligência, dizia o velho Shakespeare, que não há beleza sem honestidade, e que conceber e exprimir sobriedade engrandecem a ação, que é preciso ajustar a ação à palavra e a palavra a ação, sem exagerar, pois ao exagerar pode-se até fazer rir o ignorante, mas causa tédio ao inteligente, cuja opinião deve pesar mais no teu conceito que uma platéia de idiotas. Afinal, ainda dizia o velho Bill, a finalidade dessa representação toda era e é exibir um espelho à natureza; mostrar a virtude sua própria expressão; ao ridículo sua própria imagem e a cada época e geração sua forma e retrato. Somos atores para refletir.

Em memória de Duse Naccarati (1933-2009), grande atriz, mestra do humor, com quem tive o privilégio de conviver e aprender tanto.

Vitor Pordeus

Rio Jan 2010