Que Rei Sou EU? de Liana Melo, reportagem especial sobre o Hotel da Loucura

Publicado por Vitor Pordeus em 10/1/2014

Matéria especial sobre o Hotel da Loucura pela jornalista colaboradora Liana Melo.

QUE REI SOU EU?

Médico receita teatro e livros num hospital psiquiátrico do Rio

Por Liana Melo, jornalista colaboradora.

Antes de subir ao palco, Reginaldo Oliveira Terra põe uma coroa na cabeça e um manto dourado sobre os ombros incrustado com pedras. Lá em cima, proclama: “Sou o rei daqui.” Fora de cena, ele é calado e até um pouco taciturno. Travestido, assume uma nova personalidade, mais comunicativa e eloqüente: “Sou eu quem tomo conta da bagunça aqui”.

Terra não costuma se afastar da rua onde mora há 33 anos, a Ramiro Magalhães, no Engenho de Dentro, na zona norte do Rio. É o tempo em que ele vive numa das casas comunitárias ocupadas por ex-internos do Instituto Municipal Nise da Silveira. Mais da metade dos seus 64 anos girou em torno do hospital psiquiátrico, sem contar o período em que ficou internado na Casa de Saúde Dr. Eiras, que já foi considerada uma espécie de “casa dos horrores” no município de Paracambi, vizinho ao Rio. A novidade na vida de Terra é cantar, interpretar e dançar no Teatro de DyoNISEs, que funciona no Hotel da Loucura, inaugurado há um ano como parte do complexo do instituto.

“Pouco me importa o diagnóstico de Reginaldo. Aqui ninguém se diferencia. Todos somos atores”, diz Vitor Pordeus, médico imunologista, gerente do hotel e diretor do DyoNISES.

Na hospedaria, instalada em um andar inteiro de uma enfermaria desativada do Instituto Nise da Silveira, não são cobradas diárias. A entrada é livre e não existem horários fixos para nada. Ninguém precisa preencher fichas na portaria. Os clientes são sempre bem-vindos, ainda que o estabelecimento esteja lotado. Ao todo nove quartos, nenhum deles individual, com um total de 18 leitos. A mobília é quase espartana, mas o ambiente é coloridíssimo. Fotos de hóspedes ilustres se misturam com pinturas psicodélicas que ocupam do chão ao teto, mescladas a desenhos, grafites, trechos de poemas, frases inspiradoras, como a do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (“E os que dançavam foram julgados loucos por aqueles que não podiam ouvir a música”).

Pordeus largou a medicina e interrompeu o doutorado em imunologia na USP há oito anos. Mergulhou no teatro, estudou interpretação com Camila Amado e ingressou no grupo Tá na Rua, do diretor e teatrólogo Amir Haddad. Há cinco anos, tornou-se coordenador do Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde da Secretaria Municipal de Saúde do Rio. A fusão dessas experiências resultou no Teatro de DyoNISEs e Hotel da Loucura, que também funciona como sede nacional da Universidade Popular de Arte e Ciência (Upac).

Ali, no hotel do subúrbio carioca, alucinações, surtos e monólogos íntimos de pacientes não se diferenciam das experiências cotidianas de artistas plásticos, estudantes de psiquiatria e educadores populares que também frequentam o hotel, num vaivém incessante durante o dia. No visitante desavisado, a convivência suscita questionamentos sobre a diferença entre loucura e lucidez. Se o ofício do artista é fazer uso de técnicas para explorar a fronteira tênue entre ficção e realidade, Pordeus questiona: “Que diferença faz, afinal, ouvir frases desconexas ou pensamentos povoados de reis, rainhas e figuras mitológicas?”

O nome do teatro é uma alusão a Dionísio, o deus dessa arte, e a Nise da Silveira, a médica que revolucionou o tratamento psiquiátrico no Brasil, nos anos 50, ao mudar a rotina do então Hospital Pedro II. Ela se opôs ao uso do eletrochoque e, no seu lugar, receitou pinceis aos pacientes nas Oficinas de Terapêutica Ocupacional.

“Hospital psiquiátrico não pode ser um campo de concentração do espírito”, diz Pordeus. “Em estados de adoecimento mental, a dança, a música e a poesia são mais simples e mais eficazes no processo de reabilitação.” Ele junta a sua teoria de humanização do atendimento ao conceito de “afeto catalisador” defendido pela médica. Nise costumava dizer que os “seres enigmáticos não devem ser rotulados”.

“O que você responde quando é chamada de maluca?” A indagação recebe uma resposta desconcertante: “Ninguém é normal completamente. Maluca é você, que me faz essa pergunta”, responde Miriam Rodrigues Galvão, de 41 anos. Ela costuma dividir o palco com Reginaldo, mas, ao contrário dele, só entra em cena de cara lavada e sem fantasia. Miriam adora dançar, dar piruetas e conta que prefere o público carioca ao paulistano. Há um mês, quando esteve em São Paulo para uma apresentação a céu aberto, voltou convencida de que o público do Rio é mais animado. As performances nas apresentações do Teatro de DyoNISEs entraram na vida de Miriam há um ano, quando iniciou também seus primeiros passos na vida empresarial. Ela vende empadas nas apresentações.

“Fiz uma descoberta médico-imunológica importante: a vacina contra a loucura é o teatro”, disse Pordeus. Desde então, ele passou a deixar prescrições médicas no lobby do hotel. São receitas para todo o tipo de hóspede e nas mais variadas dosagens. Só que no lugar dos neurolépticos e antipsicóticos, medicamentos utilizados para o tratamento da esquizofrenia, as prescrições incluem textos de Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Bertolt Brecht, Arnaldo Antunes. Saraus de poesia e de música, oficinas de teatro e de dança e sessões de cinema completam a rotina no Hotel da Loucura.

“Já passaram casos severos por aqui e é possível constatar uma melhora clínica através do contato diário e permanente com a arte, com a cultura”, conta Pordeus. Um paciente que sofria de esquizofrenia e não saía ao ar livre rompeu o isolamento em que vivia e aderiu às atividades lúdicas do hotel. A própria Miriam, quando esteve em São Paulo, conseguiu verbalizar a iminência de um surto psicótico. E Reginaldo, do alto do seu poder monárquico, já criticou Pordeus em um ensaio do DyoNISEs por estar falando demais. Todos aplaudiram a intervenção. No lugar de palavras e teorias, eles queriam mesmo era representar, cantar e dançar.

Reginaldo Terra e Vitor Pordeus