HOMENAGEM COLETIVA A VÍTOR PORDEUS

Publicado por Thamara Fernandes Sales Santos em 12/2/2014

Texto elaborado para narração do vídeo produzido pelo Coletivo Nectar, que foi transmitido durante a festa de aniversário do Vítor Pordeus.

Algumas pessoas têm o dom de ver a aura das outras. Quem não tem, pode aproveitar os outros sentidos para compensar este tipo de cegueira, considerando que a luminosidade de uma pessoa pode ser medida pelo raio que clareia certo número de criaturas com a qualidade de transformação delas próprias.

É algo que sentimos no contato com Vítor Pordeus. Chegando bem perto, não só nos impressionamos com seu olhar cristalino que transparece a alma, como também podemos nos perceber falando e fazendo coisas que reconhecidamente aprendemos com ele, ou na convivência com o trabalho que ele vem construindo há cinco anos. Desde a implantação das Escolas Populares de Saúde e dos eventos chamados Celebrações de Saúde, em praças públicas de comunidades do Rio de Janeiro, partilhamos momentos de intenso crescimento. Sentimos que nossos próprios olhos brilham mais e enxergam mais longe, que nossas palavras ganham alcance e que estimulam outras pessoas a perceber o que captamos, a sentir como sentimos... Não é algo que simplesmente o espelho possa refletir; é um lance real, reconhecido por muitos que mantém contato com os processos da Universidade Popular de Arte e Ciência.

Vítor não conseguiria ter tamanha interferência na vida das pessoas se esta capacidade dele não fosse verdadeira, profunda e divinamente poderosa... Isso é resultado da força do exemplo de quem fala o que faz e faz o que fala com tamanha coerência, que instala a nossa dificuldade de duvidar. Aliás, até os mais céticos, quando se permitem, encontram a trajetória da confiança para aprender... Assim, este cara caminha iluminando uma série de pessoas e abrindo, de certa forma, os caminhos dessa gente toda.

Não sabemos se ele tem noção da responsabilidade que assume, mas achamos fantástico justamente o seu desinteresse em manter qualquer controle, vaidade ou autoria dos ensinamentos. Ao contrário, socializa tudo isso e nos estimula indiretamente a nos libertar da lógica egóica da “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Tudo isso o torna um verdadeiro profeta dos novos tempos e ao participar das ações, contínua e progressivamente, nos sentimos, de certa forma, apóstolos. Não é uma celebridade, como as globais ou hollywoodianas, que tanto vemos por aí disseminando produtos e ideologias, já que o que ele prega não se relaciona com consumo. Estamos aprendendo que o desejo puro e simples de acumular para se sentir socialmente empoderado de alguma coisa só nos enfraquece. Então pode ser melhor concentrar as energias em algo que, na prática, já nos enriquece verdadeiramente...

Focando agora na Universidade Popular de Arte e Ciência, uma das importantes idealizações do Vítor, podemos vê-la como uma espécie de templo sem limite de paredes e sem a reprodução de dogmas; com uma filosofia consistente, que não precisa doutrinar seus “fiéis”. Segundo os conceitos que circulam na UPAC, podemos construir juntos e experimentar diferentes formas de ser, sem que isso seja certo ou errado.

Sua “razão social de fato” faz valer a pesquisa, o compartilhar e a produção de saberes, de experiências. E essa disseminação prática é a nossa própria formação: profissional, cultural, cidadã. Não são apenas valores; é uma obra real e em processo permanente de evolução.

Estamos construindo novos paradigmas, onde a ciência não se restringe ao culto cognitivo. Tudo que fazemos tem boa parte do sensível. Quando o Vítor traz a questão do teatro, passamos a adotá-lo como nosso recurso natural, corporal e simbólico para permitir que os conteúdos e os personagens brotem, além do nosso desejo de controle. Brincando e aprendendo com a realidade com a leveza que merecemos e temos direito (“direito de viver sem sofrer”), transformamos a dor necessária ao aprendizado e minimizamos o sofrimento como escolha.

Hoje, muitos adeptos da UPAC acompanham os processos relacionados à Psiquiatria Transcultural no Hotel da Loucura, onde o teatro é o método, e a convivência é o remédio. O que a experiência instigada pelo Vítor tem comprovado é que a cura aparece na transformação dos próprios personagens, que são os da vida real. Então, a realidade das pessoas já é mudada, e não se tem como voltar atrás; nesse caso, a tese já foi aplicada antes de ser escrita. Haja vista nossa querida Jeane Cardoso, o coroado Reginaldo Terra, nossa empresária da empada Mirian, o célebre Pelezinho, os poetas Nilo Sérgio e Milton Freire, e tantos outros emancipados protagonistas dos casos clínicos...

O acúmulo de conhecimentos ancestrais transferidos cotidianamente também sustenta tamanha força. Fizemos escola num balaio cultural que adentra os repertórios dos espetáculo-oficinas encenados no contexto da UPAC, originais a cada dia, ou “nunca antes vistos”, como diz Vítor Pordeus. São os mesmos que mobilizam tantos e tantos novos membros em diferentes direções do país e até fora dele.

A história de luta e resistência do nosso homenageado mostra essa fortaleza interna, que deve ajuda-lo também a enfrentar as adversidades às suas causas, que não são poucas. O que vemos como efeito é a agregação de muita sabedoria advinda de várias fontes e que agora repercutem na construção de uma nova política para aqueles que o acompanham. Isso por si só já é grande, imenso, especialmente numa sociedade em que o vazio existencial é tão cultuado.

A participação social que vem preencher o desbravamento é aquela na qual vamos descobrindo sentidos no contato com a loucura, suas potências e nossas próprias limitações. A mobilização coletiva é facilitada pela ação de um jovem membro imperfeito, ousado e visionário, de discurso articulado, com quem aprendemos tudo isso. E, mais ainda, nos preparamos imediatamente para transformar chumbo em ouro, com encantamento e poesia, reconhecendo a genialidade do dia-a-dia de alquimistas.

Thamara Fernandes e Amigos