Entendendo os sistemas sociais? de Humberto Maturana

Publicado por Vitor Pordeus em 8/4/2014

comentário de Humberto Maturana publicado em março de 2014 na Revista Científica Constructivist Foundations traduzido por V. Pordeus e N. Vaz

Entendendo os sistemas sociais? de Humberto Maturana (Constructivist Foundations, Mar 2014)

Entendendo os sistemas sociais?

Humberto Maturana

Escuela Matríztica de Santiago, Chile

hmr@matriztica.org

Visão Geral: Em meu comentário reflito sobre questões conceituais e epistemológicas. Em particular, questiono a ideia de tentar definir os sistemas sociais. Também imagino se em muitos casos o conceito de autopoiese é usado sem cuidado como um mero sinônimo de auto-organização.

“1” O artigo de Hugo Urrestarazu é muito interessante e bem pensado. Desse modo, não
refletirei sobre seus conteúdos diretamente. Irei simplesmente levantar algumas
questões conceituais e epistemológicas que surgiram para mim enquanto lia o
artigo.
“2” Em torno de 25 anos atrás, Niklas Luhmann me convidou a visitá-lo em Bielefeld
para conversar sobre sua visão de sistemas sociais como sistemas autopoiéticos
de comunicação. Perguntei a ele então: “Por que você quer deixar os seres
humanos fora de suas considerações sobre a constituição fundamental dos
sistemas sociais?”. Sua resposta foi: “Eu quero fazer uma teoria sobre os
sistemas sociais que me permita tratá-los em termos formais para que eu possa
computar o que pode acontecer com eles.Uma vez que seres humanos são imprevisíveis, eles não podem ser parte
disso”. Ele me convidou para participar com ele no seminário que ele costumava
dar às quartas-feiras à noite. Nós fizemos isso por várias semanas e estivemos
um tempo excelente refletindo sobre as teorias, formalismos e muitos aspectos
da existência humana. Mesmo assim, permaneci com a questão: “Que aspectos de
nosso viver cotidiano queremos evocar quando usamos a palavras “sistemas
sociais” e sobre quais queremos expandir nosso conhecimento ao perguntar se os
sistemas sociais são sistemas autopoiéticos?”
“3” Nós seres humanos, assim como todos os sistemas vivos, vivemos como
válidas quaisquer experiências que vivemos no momento em que vivemos, e agimos
de acordo com elas: nosso viver segue o caminho que surge com aquilo que
vivemos como válido. Ao mesmo tempo, nós seres humanos (como todos os sistemas
vivos fazem no fluxo do seu viver) não sabemos se uma experiência que vivemos
como válida no momento em que vivemos é uma experiência que vamos continuar a
aceitar como válida em relação a outras experiências sobre as quais escolhemos
não duvidar: não sabemos se validaremos a primeira experiência como uma
percepção ou a invalidaremos como um erro-ilusão, de acordo se pensamos que a
segunda experiência a confirma ou a contradiz. Isto é, nós não sabemos no momento em que
experienciamos algo se nós estamos experienciando uma percepção ou uma ilusão.
E isto não é uma limitação ou uma falha da operação de nosso sistema nervoso,
não significa que nós seres humanos somos falhos, mas é nossa condição de
existência biológica enquanto sistemas determinados por nossa estrutura; com os
instrumentos se passa a mesma coisa.
“4” Ao aceitar como válido o que acabei de dizer, eu ajo sob o entendimento de que
sempre que fazemos uma distinção o que aparece em nosso viver é uma entidade
operacional junto com seu domínio de existência como uma totalidade que surge
como abstrações operacionais-conceituais do que está acontecendo em nosso viver
com características especificadas por o que fazemos ao distinguir o que
distinguimos, e não como alguma entidade pré-existente com características que
não são determinadas pelo que fazemos em nossa distinção da mesma. Desde que
nós seres humanos vivemos nosso viver cotidiano nas coerências que surgem ao
fazermos o que fazemos enquanto seres biológicos, nós confiamos nos domínios de
coerências sensoriais, operacionais e relacionais que surgemcom nossa distinção como aspectos da
realização do nosso viver. E fazemos isso refletindo sobre o que vivemos e
corrigindo nossos erros e enganos ao descobri-losvivendo nosso viver como seres linguageantes.
Vivendo desse modo, colocamos nomes no que distinguimos, mas desde que não
distinguimos entidades independentes, mas distinguimos configurações
senso-efetoras em nosso viver, aquilo que nomeamos são configurações
senso-efetoras que pertencem às coerências de nosso viver. Assim, o que chamamos de sistema
social é necessariamente um aspecto das coerências de nosso viver
cotidiano. Desse modo, quando queremos entender o sistema que chamamos de
sistema social, o que queremos fazer é abstrair a configuração das
coerências sensoriais-operacionais-relacionais de nosso viver cotidiano que
desejamos evocar sob este nome, não algo estranho a nossa vida diária que
podemos definir em algum modo arbitrário.
“5” Nosso sistema nervoso opera abstraindo configurações de relações e configurações de
configurações de relações de coerências que acontecem na realização de nosso
viver nas nossas superfícies senso-operacionais. Então minha pergunta seria:
“Que configuração de coerências senso-operacional-relacionais estou abstraindo
quando chamo de sistema social algum aspecto particular da realização de
meu viver relacional?”. Ou em outras palavras, que configuração senso-operacional-relacional
de meu viver relacional eu chamo de sistema social? A expressão sistema
social surge historicamente no curso de conversações sobre nosso viver
relacional humano, é um esforço de visualizar algumas regularidades que
ocorreram nele, pensando que se pudéssemos apreendê-las poderíamos resolver
algumas dificuldades que nós estamos encontrando em nosso viver juntos,
pensando que podemos fazer tal coisa formalizando-as com alguma teoria adequada
que inventaríamos. Mas para fazer isso, nós temos que abstrair essas
regularidades primeiro em nosso viver juntos; e para fazê-lo precisamos
respeitar a nós próprios aceitando que dar nomes não é um aspecto trivial do
que fazemos em nosso viver: os nomes surgiram em nossa história de viver juntos
como elementos operacionais da coordenação de nosso fazer e revelam
regularidades nesse viver. Nessas circunstâncias, se eu quero entender como nós
fazemos o que fazemos eu começaria perguntando: “Que configurações de relações
senso-operacionais são realizadas e conservadas neste aspecto do fluxo de nosso
viver que nós chamamos de relações sociais, que nos levam a falar de sistemas
sociais quando as vemos ocorrer em alguma comunidade de seres vivos?”
Entretanto, é isso o que Urrestarazu faz quando fala de autopoiese. Assim, eu
não entendo completamente, a menos que seja um hábito filosófico, por que ele
propõe uma definição de sistemas sociais ao invés de perguntar a si
próprio que configuração de coerências senso-operacional-relacional nós
conotamos quando em nossa vida cotidiana nós falamos de relações sociais… e
sistemas sociais. Falando nisso, quando eu digo que os sistemas vivos são
sistemas autopoiéticos moleculares, eu não estou fazendo uma definição: estou
fazendo uma abstração da configuração de processos que constituem os sistemas
vivos como sistemas moleculares autônomos que existem como entidades discretas
senso-operacionais-relacionais em integração com o nicho ecológico que surge
com eles.
“6”Na Escola Matriztica, minha colega XimenaDávila Yánez[1] e eu pensamos que muita confusão apareceu com a utilização não muito cuidadosa
da noção de autopoiese, particularmente como é tratada quase como se
fosse um sinônimo de auto-organização. Este não é o caso do artigo de
Urrestarazu, e eu o congratulo por este cuidado de ser impecável nesse ponto.
Ainda assim, eu gostaria de acrescentar que Dávila e eu queremos enfatizar que
os sistemas vivos existem como sistemas autopoiéticos moleculares, eles
ocorrem em unidade com o nicho ecológico que surge com ele, e existem
como unidades ecológicas nicho-organismo ao operar como totalidades.
“7” Apesar de, usualmente, nós não enxergarmos desse modo, nós vivemos imersos, digamos,
numa rede dinâmica de fluxos de sensações cambiantes na qual desde o momento em
que somos concebidos, nós aprendemos a abstrair as configurações sensoriais que
começam a guiar o curso de nosso viver de acordo com a maneira de viver que nós
aprendemos-geramos-criamos ao viver. E nesta rede de sensações, o que nós
distinguimos é trazido para a existência ao distinguirmos o que fazemos e
nomeamos, assim como uma criança brincando na areia da praia cria estrelas,
triângulos, flores… com os moldes que ele ou ela podem estar brincando. Então,
nomes e palavras em geral não são artifícios triviais para indicar entidades
físicas ou conceituais preexistentes, eles conotam o que fazemos e sentimos ao
utilizá-los. Sem estarmos sempre atentos ao que estamos fazendo, nomes e, de
fato, todas as palavras que usamos, orientam constantemente nosso viver senso-operacional-relacional,
tanto iluminando e obscurecendo, de acordo com as emoções que eles evocam em
nós.
“8” Assim, no fundo minha pergunta a Luhmann foi: O que seria conservado com a palavra social
se nós aceitássemos que sistemas sociais são sistemas autopoiéticos? Ou,
o que seria perdido do espaço relacional físico de nosso viver cotidiano se nós
aceitarmos a afirmação de que sistemas sociais são sistemas autopoiéticos de
comunicações? Depoisque damos nome a algo que nós distinguimos em
nosso domínio do viver, toda vez que mais tarde pronunciamos aquele nome nós
criamos em nosso presente aquela coisa e o domínio
sensório-operacional-relacional que nós estamos gerando através de nosso viver.
“9” O que seria acrescentado ao nosso entendimento dos sistemas sociais e de como
nós vivemos agora nosso viver cotidiano, se descobríssemos que o que chamamos
um sistema social é um sistema autopoiético, além do desejo de sair do sistema
social para evitar nos tornarmos robôs que só podem existir nele se tudo
que fazem é subordinado a sua conservação, como Urrestarazu mostra em seu
artigo? Talvez o que é acrescentado é o apercebimento de que se nos damos conta
de queum sistema social está por se
tornar um sistema autopoiético, nós podemos ser inteligentes o suficientes para
escolher viver de tal modo que isso nunca ocorra, porque nós saberíamos que o
que acontece ou não acontece, depende de nós. Eu acho que a democracia é um
esforço de viver nesta consciência de modo a evitar a tentação de perfeição de
doutrinas ou teorias fundamentalistas que negam a possibilidade de refletir
sobre seus fundamentos para que tenhamos a liberdade de abandoná-los.
Essas eram as reflexões que eu queria fazer, além de agradecer a Urrestarazu por sua
referência amigável a mim. Obrigado.
Humberto Maturana Romesín é PhD em Biologia pela Universidade de Harvard. Ele demonstrou
que os seres vivos são sistemas moleculares autopoiéticos, e que se uma pessoa
aceita as consequências do fato que seres vivos não distinguem percepção de
ilusão em sua experiência, podemos demonstrar que: a linguagem enquanto
fenômeno biológico ocorre como um fluxo do viver juntos em coordenação de
coordenação consensual de comportamentos; eque a cognição enquanto fenômeno biológico ocorre quando um organismo
opera adequadamente às circunstâncias do seu viver, conservando sua autopoiese
como uma consequênciadas coerências com
seu nicho que são próprias a ele no presente de seu viver como uma
característica da história de sua deriva estrutural evolucionária a qual
pertence.
Recebido: 08/02/2014
Aceito: 10/02/2014
Tradução de Vitor Pordeus e Nelson Vaz.

Publicado em Março de 2014 em Constructivist Foundations (http://www.univie.ac.at/constructivism/journal/9/2/187.maturana)


[1]Menciono minha colega porque foi em nosso trabalho conjunto na Escola Matriztica que refletimos sobre estes temas e achamos que tínhamos que enfatizar que os sistemas vivos são sistemas autopoiéticos moleculares e, como tais, eles existem como totalidades como unidades ecológicas integradas organismo-nicho.


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